TUDOPROSA

Crônicas, ensaios, contos, crítica literária, música… Tudo com um dedo de prosa. Porque “a vida inventa! A gente principia as coisas no não saber por quê… a vida é mutirão de todos, por todos remexida e temperada”. (Guimarães Rosa)

27/2/09

OS ESPELHOS DO PARAÍSO

 

 

Eduardo Galeano

Tradução: Carlos Alberto Idoeta



A publicidade fala do automóvel como uma bênção ao alcance de todos. Um direito universal, uma conquista democrática? Se fosse verdade, e todos os seres humanos pudessem se tornar felizes proprietários deste meio de transporte convertido em talismã, o planeta sofreria morte súbita por falta de ar. E antes deixaria de funcionar por falta de energia. Nos resta petróleo para duas gerações. Em pouco tempo já queimamos grande parte do petróleo que se formou ao longo de milhões de anos. O mundo produz carros ao ritmo das batidas do coração, e eles estão devorando mais da metade de todo o petróleo que o mundo produz.

Evidentemente, a publicidade mente. Os numerinhos dizem que o automóvel não é um direito universal, mas um privilégio de poucos. Apenas vinte por cento da humanidade dispõe de oitenta por cento dos carros, mesmo que cem por cento da humanidade tenha que sofrer as conseqüências. Como tantos outros símbolos da sociedade de consumo, este é um instrumento que está nas mãos do norte e das minorias que no sul reproduzem os costumes do norte e crêem, e fazem crer, que quem não tem licença para dirigir não tem licença para existir.

 

Oitenta e cinco por cento da população da capital do México viaja em quinze por cento do total de veículos. Um em cada dez habitantes de Bogotá é dono de nove em cada dez automóveis. Mesmo que a maioria dos latino-americanos não tenha direito de comprar um carro, todos têm o dever de pagá-lo. De cada mil haitianos, apenas cinco estão motorizados, mas o Haiti dedica um terço de suas importações a veículos, peças de reposição e gasolina. Um terço também dedica El Salvador. Segundo Ricardo Navarro, especialista nestes temas, o dinheiro que a Colômbia gasta a cada ano para subsidiar a gasolina seria suficiente para presentear a população com dois milhões e meio de bicicletas.

O direito de matar. Um só país, a Alemanha, tem mais automóveis que a soma de todos os países da América Latina e África. Contudo, no sul do mundo morrem três em cada quatro mortos nos acidentes de trânsito de todo o planeta. E dos três que morrem, dois são pedestres.

Pelo menos nisso não mente a publicidade, que costuma comparar o carro a uma arma: acelerar é como atirar, proporciona o mesmo prazer e o mesmo poder. A caçada dos caminhantes é freqüente em algumas das grandes cidades latino-americanas, onde a couraça de quatro rodas estimula a prepotência dos que mandam e dos que agem como se mandassem. E nestes últimos tempos, tempos de crescente insegurança, à matança impune de sempre se soma o pânico ante assaltos e sequestros. Há cada vez mais gente disposta a matar quem aparecer na sua frente. As minorias privilegiadas, condenadas ao medo perpétuo, pisam fundo no acelerador para esmagar a realidade ou para fugir dela, e a realidade é uma coisa muito perigosa que ocorre do outro lado das janelas fechadas do automóvel.

O direito de invadir. Pelas ruas latino-americanas circula uma ínfima parte dos automóveis do mundo, mas algumas das cidades mais contaminadas do mundo estão na América Latina.

A imitação servil dos modelos de vida dos grandes centros dominantes produz catástrofes. As cópias multiplicam até o delírio os defeitos do original. As estruturas da injustiça hereditária e as contradições sociais ferozes geraram cidades que crescem fora de todo controle possível, gigantescos frankensteins da civilização: a importação da religião do automóvel e a identificação da democracia com a sociedade de consumo têm, nesses reinos do salve-se quem puder, efeitos mais devastadores do que qualquer bombardeio.

Nunca tantos sofreram por tão poucos. O transporte público desastroso e a ausência de ciclovias torna obrigatório o uso de automóveis, mas a imensa maioria, que não pode comprá-lo, vive encurralada pelo trânsito e afogada pela fumaça. As calçadas diminuem, há cada vez mais estacionamentos e cada vez menos bairros, cada vez mais carros que se cruzam e cada vez menos gente que se encontra. Os ônibus não são apenas escassos: para piorar, em muitas cidades o transporte público se dá em calhambeques desengonçados que soltam uma fumaceira mortal pelos canos de escapamento e multiplicam a contaminação, em vez de aliviá-la.

O direito de contaminar. Os automóveis particulares estão obrigados, nas principais cidades do norte do mundo, a utilizar combustíveis menos venenosos e tecnologias menos porcas, mas no sul a impunidade do dinheiro é mais assassina que a impunidade das ditaduras militares. Em raros casos, a lei obriga o uso de gasolina sem chumbo e de conversores catalíticos, que requerem controles rígidos e são de vida limitada: quando a lei obriga, se acata mas não se cumpre, como manda a tradição que vem dos tempos coloniais.

Algumas das maiores cidades latino-americanas vivem pendentes da chuva e do vento, que não limpam o ar do veneno mas ao menos o levam a outro lugar. A Cidade do México vive em estado de perpétua emergência ambiental, provocada em grande medida pelos automóveis, e os conselhos do governo à população ante a devastação da praga motorizada parecem aulas práticas para se enfrentar uma invasão de marcianos: evitar os exercícios, fechar hermeticamente as casas, não sair, não se mexer. Os bebês nascem com chumbo no sangue, e um terço dos cidadãos padece de dores de cabeça crônicas.

Ou você deixa de fumar, ou morre em um ano, foi a advertência do médico a um amigo meu, habitante da Cidade do México, que não fumou um só cigarro em toda sua vida.
A cidade de São Paulo respira aos domingos e se asfixia nos dias de semana. Ano após ano vai se envenenando o ar de Buenos Aires, no mesmo ritmo em que cresce a frota automobilística, que no ano passado aumentou em meio milhão de veículos. Santiago do Chile está separada do céu por um guarda-chuva de fumaça, que nos últimos anos duplicou sua densidade, enquanto também duplicava, por acaso, a quantidade de automóveis.

 

criado por sydowmonica    15:32 — Arquivado em: Crônicas — Tags:, ,
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