TUDOPROSA

Crônicas, ensaios, contos, crítica literária, música… Tudo com um dedo de prosa. Porque “a vida inventa! A gente principia as coisas no não saber por quê… a vida é mutirão de todos, por todos remexida e temperada”. (Guimarães Rosa)

23/4/08

CHEGANÇA - I

 

Viagens são pontes que construímos entre as diferenças e entre os diferentes. Existem aqueles que se deslocam para outras latitudes sem saírem de sua geografia local – daquela existência social que dá sentido aos espaços físicos e compasso aos ritmos próprios. Mesmo conhecendo e interagindo com o novo, não conseguem compreender o diferente, procuram só as semelhanças e não arriscam desprender-se da sua ordinariedade. Turistas sempre serão em qualquer deslocamento.
Outros, chegam em qualquer paisagem prontos para perder-se nas águas subterrâneas de uma existência tão diversa quanto difusa. Estes conhecem e interagem com o olhar do outro, com uma lógica cultural diferente que surpreende pelo seu universo cheio de subjetividades. Compreendem que é preciso olhar mais para o mundo e menos para o espelho; afinal, é o olhar do outro que define os homens e forma sua humanidade. De fato, aquela viagem não planejada prometia surpreender…
De cima, entre brechas das nuvens, era possível ver a densidade verde da Amazônia, assustadora e mágica, rasgada por curvas ora azuis ora prateadas de todos os tamanhos. A voz esterilizada do comandante deu as boas-vindas aos passageiros e antecipou aos novatos temperatura, horário e as facilidades do aeroporto. As comissárias submeteram o grupo às normas de segurança para qualquer aterrissagem que se imagine ou se possa fazer na vida.
Aeroportos são, na maioria das vezes, uma extensão climática e artificial das aeronaves, por isso, só quando Stefânia ganhou as ruas foi que experimentou aquela densidade vista à distância, das alturas. De uma vez, foi agrilhoada por um ar pesado e por uma umidade sufocante; tratou de acostumar-se com o novo meio ambiente.
Logo nas primeiras horas descobriu o outro diferente sendo dadamente descoberta. Os conhecimentos vários que tinha, cultivados e até publicados, foram ficando para trás ao seguir pelas trilhas urbanas. Sentiu-se desestimulada a filmar ou a fotografar, ciente da impossibilidade de armazenar a experiência do encontro, de congelar o movimento social.

Nada é tudo ou nada

Uma vez na pousada, despejou suas malas e pôde melhor entender a disposição física do local, tendo ao centro um quiosque aberto para a mata, rústico, amplo e bem decorado, no qual as refeições e encontros vários eram realizados em mesas ornamentadas com artesanato local. À volta estavam os quartos.
Não saberia dizer quanto tempo ficou aterrada na cama rústica, porém confortável, daquele seu pouso provisório. Mas veio o momento de abandonar o estado plácido da consciência e situar-se no quarto, em meio às suas desordens e pertences vários que trouxera da viagem. Uma imagem amável acompanhava seus movimentos: um hóspede todo de branco, que a espreitara do lado de fora, no salão. Desconfiava de certa atração que sentiu e, ao mesmo tempo, contava para si as vantagens de seguir em frente, sem freios. Seria uma daquelas ousadias que todos se permitem quando tudo e todas as responsabilidades ficam para trás, na decolagem do avião. O fato de tudo que representava a vida ordinária estar em São Paulo, fora do seu alcance, à sua espera, era confortante; dava-lhe a segurança de poder arriscar e, em qualquer momento, buscar o horizonte conhecido. Decidira então balançar com as ondas… e em alto estilo.
Separou o melhor traje de que dispunha, a melhor fragrância e as melhores expectativas. Como todos nessa frágil vida, perseguia a experiência de estar viva, com sentimentos e desejos à flor da pele. Nisto não se diferenciava também de Etienne, que há poucos metros, após invadir a cozinha da pousada, compunha um prelúdio culinário sem qualquer noção de como seria o gran finale. Ambos, a seu modo e envolvidos nas suas especulações afetivas, ensaiavam um enredo comum. Como em todos os casos, assumiram distraidamente o risco do caminho audacioso da sedução. O fio da navalha. A consciência dos riscos e a vivência apaixonada dificilmente coincidem; a primeira chega sempre tarde.
Mas quem chegou mesmo no salão das refeições foram os hóspedes. Ali era a passagem obrigatória para se pegar as chaves dos quartos e que acabou por ser bloqueada, por causa do esmero daquele francês em lidar com peixes de dimensões heróicas e com a diversidade de ervas da região.
Os aromas eram arrogantes na sua provocação, mas predominava no fim a suavidade do champagne, pois quem se aproximava surpreendia-se com o repouso dos peixes e camarões no espumante francês e devorava com os olhos as saladas que estavam sendo compostas por folhas, legumes e frutas.
Ao perceber a audiência crescente, o mestre da corte franco-brasileira decidiu entreter, desenhando num prato fatias de provolone, temperado com pimenta leve e azeite, acompanhadas ao centro e na extremidade de uvas e cubos de manga. Aqueles que arriscavam provar a combinação salivavam de prazer e previam já o que viria mais à frente. Etienne movia-se sem parar e aleatoriamente pela cozinha, dando comandos às duas ajudantes. Esse espaço, a cozinha, era aberto para o salão e havia um balcão que separava os dois ambientes, no qual os pratos do dia eram, a cada refeição, enfileirados para serem servidos pelos hóspedes.
O cozinheiro da noite, ainda no fim da tarde, dominava as conversas e os utensílios domésticos, ciente de ser o centro das considerações, cheio de personalidade. Quem chegava tocava seu estômago à frente, em busca do aperitivo improvisado e também logo encontrava garrafas e copos sombreando aquele balcão que dividia os cenários. Ele realizava sua performance, os outros aceitavam ser coadjuvantes.

criado por sydowmonica    15:18 — Arquivado em: Crônicas

CHEGANÇA - II

Noite adentro

A seu modo, cada um dos dois amantes tratava de cuidar da sua apresentação, que não necessariamente teria de ser reduzida ao visual, mas que deveria revelar todo um modo de ser conveniente à conquista, toda uma sedução implícita no conjunto. Ambos, já vividos, sabiam que toda essa plumagem com que os amantes costumam pavonear-se, a seu tempo, oferece alguns desequilíbrios próprios das relações amorosas. Como trapezistas em ação, arriscaram agarrar, talvez, a barra errada.
Mas naquela noite a racionalidade era aborrecida e a novidade era mais persuasiva do que cada um deles para o outro. Etienne não era só o homem maduro, simpático e magnético que se destacava dentre os comuns. Era Etienne com todas as ordens e contra-ordens que disparava a quem estava próximo, era o animado contador de casos e comentarista para todos os assuntos, era a voz que tinha que predominar na cozinha e nas voltas do salão, o trocadilho picante que fazia rir e, ainda, a centelha trágica e mágica das horas que importam.
Stefânia, de seu lado, também cuidava de sua apresentação. Tratou de escolher uma roupa despretensiosa, mas que sugeria muita pretensão. O vestido, veladamente ambicioso, vestiu salto alto. Não muito; apenas o suficiente para reforçar a fêmea que estava por trás do pudor. Cuidou por fim do cheiro que deveria anunciar sua presença e ainda disputar com os aromas apetitosos fabricados por Etienne.
Nesse tempo de preparação, especulava para si quais os gestos mais adequados, as perguntas que poderiam retardar uma despedida, o olhar que anunciaria o desejo… Um e outro, no fundo, sabiam que havia ali uma certa desonestidade social e afetiva, ora justificada e aceita em nome das conquistas e da esperança de qualquer amante.

O gosto de ser

Na sala de refeições, quase todos os hóspedes já estavam imersos nas conversas animadas com vários acentos e sons musicais. Mais uma vez, ele conseguiu e justificou sua reputação: não estavam em nenhum café parisiense, mas aquilo já era uma festa, regada a vinhos, batidas de frutas da terra, sucos e a grande sensação da ouverture – as xícaras de café que rodopiavam abundantemente pelo salão, com caldo de peixe misturado à pinga, salpicado com salsinha. A novidade anunciava os sabores noturnos, provocava exclamações amáveis e arrancou do quarto a pronta mulher. A transitoriedade dos afetos e prazeres fora iniciada.
De posse de seu saboroso aperitivo e escorada pelo braço do verdadeiro anfitrião da noite, ela juntou-se ao grupo e aos assuntos que aproximavam os sujeitos.
De volta à cozinha, Etienne era assediado por seu público devoto. Stefânia permaneceu cativa do olhar dele e de seu projeto de sedução, tanto quanto o envolvia em seus sorrisos programados desde a definição de seu sexo. O pleito amoroso tem lá suas regras e prazos próprios.
Em paralelo, a culinária de Etienne tomava forma e dava fôrma à gula, conforme os acabamentos iam sendo dados e cozidos pelas suas mãos. Ele era toda alegria, porque entendia que nutrir o outro era um ato de generosidade. Em tempos de fácil individualização, desfrutar conjuntamente a riqueza do ócio, dos afetos, ansiedades, amizades, gostos, tornou-se quase uma experiência lúdica. Tempos difíceis esses.

Será que é bem, será que é mal

O ponto alto foi o momento em que o artesão da alegria dispôs no balcão que dividia a cozinha do salão de refeição, as saladas, na primeira fila, e os peixes com acompanhamentos, logo atrás.
Aquela oferta gastronômica, colorida, cheirosa e estimulante da felicidade era pura sedução, difícil não dedicar toda atenção. Mas o homem generoso que compôs na palheta-culinária as cores, os sopros, as texturas e sabores que se apresentavam ali em paralelo, ganhara de todos, mais do que atenção, o reconhecimento. Diante da acolhida efusiva dos presentes, uma alegria atravessara seu corpo e sua existência; talvez porque viesse acompanhada do sentimento de pertencimento.
Todos circulavam e disputavam brechas frente às travessas, sem pratos, sem pressa, esquecidos dos hábitos. Eram só olhos e entreolhares, silêncios individuais rompidos pelo esforço de adjetivar. Etienne registrava cada expressão que lhe era dirigida e dava a largada, entregando os pratos a cada convidado seu daquela noite. E eram todos, sem exceção.
Quando da vez de Stefância, ele entrou no percurso do jantar segurando o prato e acompanhando-a no corso que se estabeleceu. Sem consultá-la, foi servindo-a primeiro com as saladas, num prato menor. Numa segunda volta, ordenou o peixe e camarões ao molho de champagne, de um lado do prato, o purê de maça e o arroz com castanhas da região, de outro. Molho à parte e à sua medida. Ela sabia que ia gostar, ela estava gostando.
O mestre cozinheiro nada comeu. Repousou os braços sobre a mesa e seu olhar sobre o entusiasmo dela, aguardando um veredicto, uma daquelas análises detalhadas, quase técnicas, que ela sabia formular tão bem. Surpreendeu-se com apenas – “que bom estar aqui” – em voz baixa, estado confessional. Ele puxou para si um guardanapo de papel e escreveu “que bom que a conheci”. Ambos sabiam que havia ali um interlúdio amoroso.
Outros hóspedes sentados na mesma mesa, perguntavam onde ele havia aprendido a fazer coisas tão deliciosas. “Vivendo por aí e bem”, respondeu sem deixar de imprimir no comentário uma chancela narcisista. E acrescentou “o bom cozinheiro é, antes de tudo, um homem com talentos para comer bons pratos e saborear momentos”.
Seguiu-se aí um discurso sem palanque e oposição, com uma audiência, mais do que atenta, agradecida pelo que recebeu. Em pé, defendeu o direito à embriaguez sadia. Sentada, ela cruzou os talheres embriagada de desejos palpáveis.
Abandonando seguidores e admiradores, o homem grande e cheio das grandezas que o jantar lhe reservou, com uma barriga de respeito e mãos determinadas, delicadamente levou a convidada para um canto do salão sem cantos. Queria saborear agora… momentos.

criado por sydowmonica    15:15 — Arquivado em: Crônicas

26/2/08

EMILY DICKINSON

Prof. Dr. Alfredo Monte

Uma cena que nunca esqueci do filme As setes faces do Dr. Lao é, por acaso, uma das poucas que a obra-prima de George Pal aproveitou fielmente do romance de Charles G. Finney, O circo do Dr. Lao: o protagonista, o misterioso chinês que chega com seu espetáculo a uma cidadezinha do Arizona, está descrevendo as características de uma de suas atrações principais, a Medusa. Uma robusta senhora o vitupera: “Não acredito em uma só palavra do que o senhor está dizendo. Nunca ouvi tanta bobagem junta em toda a minha vida. Gente virar pedra! Que idéia! Seu marido ainda tenta intervir, mas ela insiste: “Cale a boca, Luther. Digo o que quero e quando bem entender.” Para então ouvir a resposta do Dr. Lao: “Madame, a atitude de ceticismo não lhe cai bem. Há coisas no mundo que nem a experiência de toda uma vida passada em Abalone pode conceber.”
Pois bem, se o Dr. Lao armasse seu circo-mundo em Amherst, Massachussets, provavelmente não faria tal censura, pois toda uma vida ali passada não impediu que Emily Dickinson (1830-1886) escrevesse a poesia menos provinciana, mais desafiadoramente conceitual, concisa e arrojada, quase que se poderia dizer filosófica, repensando tudo em seus próprios termos (ela tem um arsenal terminológico peculiaríssimo) e dando a seus curtos poemas um aspecto inaugural, de renomeação do mundo, dos sentimentos, das idéias:

A Relva pouco tem a fazer-
Uma esfera de simples Verdura-
Com Borboletas somente a cuidar
E Abelhas a entreter-

E ondular o dia todo aos bonitos Sons
Que as Brisas arrastam-
E no colo do Raio de Sol
Cumprimentar cada coisa-

E trançar, cada noite, como Pérolas-
E fazendo isso com esmero
Que uma Duquesa não saberia
Estabelecer a diferença-

E então ao morrer- passar
Para Aromas tão divinos-
De Especiarias, curtidos-
Ou de Nardos, periclitantes-

E então, em Altivos Celeiros, restar-
E, sonhando, os Dias Findarem-
A Relva pouco tem a fazer
Eu desejaria ser Feno.

Duas novas seleções, vinte anos após a memorável centena de poemas na tradução de Dora Ferreira da Silva, permitem ao leitor brasileiro explorar um pouco mais esse cosmo criado pela genial e enigmática imaginação trancafiada por toda uma vida em Amherst: Poemas Escolhidos (L&PM) e Alguns Poemas (Iluminuras). Ainda longe a tradução integral dos 1.775 poemas, mas pelo número de textos incluídos em ambas as coletâneas (ambas bilíngües) já temos um avanço perceptível.

Eu moro na Possibilidade-
Uma Casa mais aprazível que a Prosa-
Mais numerosas Janelas-
E superior- em Portas-

De Câmaras como Cedros-
Inacessíveis ao Olhar-
E tendo como Perene Forro
Os Telhados do Céu-

Visitantes- os melhores-
Por Ocupação- Isto-
Abrir amplamente minhas estreitas Mãos
Para agarrar o Paraíso

Talvez só a poesia do seu conterrâneo, o igualmente original Wallace Stevens tenha certa similaridade, na economia da forma, na estranheza lexical e conceitual, na aparência de “neutralidade” que nos faz cair num estado de tabula rasa que logo se transforma em algo que não nos sai da cabeça por um bom tempo:

Quando você varrer aquele sagrado Armário-
Intitulado “Memória”-
Escolha uma reverente Vassoura-
E o faça em silêncio.

Será um Labor de surpresas-
Além da Identidade
De outros Interlocutores
Uma possibilidade-

Augusta a Poeira desse Domínio-
Intocada- deixe-a em repouso-
Você não pode removê-la
Mas ela pode silenciar você-

O Dr. Lao compreenderia de imediato, com sua sutileza e sabedoria, que encontrou a Medusa em Abalone, em vez de levá-la para lá. Corremos o risco de petrificar-nos com o olhar poético da Madame de Sade de Amherst, para utilizar a feliz expressão de Camille Paglia, que no seu fabuloso Personas Sexuais não deixa por menos: “Emily Dickinson e Walt Whitman, aparentemente tão dessemelhantes, são confederados tardo-românticos da União americana… Ambos são perversos canibais da identidade dos outros, Whitman em seus gulosos auto-empanturramentos e invasões dos quartos dos que dormem e estão doentes, Emily em seus pêsames ritualísticos e seu lúbrico connoisseurismo da morte. Voyeurismo, vampirismo, necrofilia, lesbianismo, sadomasoquismo, surrealismo sexual: a Madame de Sade de Amherst ainda espera que seus leitores a conheçam”
Não seja por isso, Madame Camille (afinal, estamos falando de alguém que escreveu: “Morri pela Beleza- mas estava somente/ Acomodada na Tumba…”):

O catavento um pouco a Leste
Afugenta Almas de Musselina – para longe-
Se corações de Seda são firmes-
Mais do que os de Organdi-

A quem culpar? Ao Tecelão?
Ah, os enganadores fios!
As Tapeçarias do Paraíso-
Invisivelmente- são tecidas.

E para encerrar, antes que fiquemos iguais à pobre estúpida senhora de Abalone, que paga para ver: “Bem, vou mostrar uma coisa. Vou desmascará-lo diante de toda essa gente, ora se vou”. Ela mete a cabeça no cubículo da “atração”: “…antes de poder pronunciar outra palavra já estava petrificada”:

Do Drama a mais Vívida Expressão é o Dia Comum
Que levanta e repousa sobre Nós-
Outra Tragédia

Dissipada na Declamação-
Isto – a melhor encenação-
Quando a Platéia se dispersa
E a Bilheteria fecha-

“Hamlet” seria Hamlet-
Ainda que não por Shakespeare escrito-
E “Romeu”, não através da Lembrança
De sua Julieta,

Seria infinitamente encenado
No Coração Humano-
Único teatro conhecido
Não fechado pelo Proprietário.

criado por sydowmonica    19:13 — Arquivado em: Literatura

A FIBRA, A VIDA, A PALAVRA

Carda – instrumento que serve para desembaraçar o cânhamo,
a lã, a fibra;

Cardar – desembaraçar ou pentear com carda; extorquir;
repreender com aspereza;

Cardápio – lista com preços, lista de pratos.

O chão é de terra. É barro, tijolo ou daquela poeira que a chuva mistura sem lavar. Lama mesmo. A cobertura é pequena, pouca. Nunca necessário foi ter teto. Melhor ter mãos, mesmo que estragadas. Mãos cortadas e calos pagos com a miséria.

Qualquer natureza sabe a mão faturar, obter dela coisa vária. Tem o jeito, o volteio, força de converter o que é natura em forma própria do homem. Mãos obreiras. E corpo cansado de viver. Um viver banal, que é também pentear a imperfeição.

E no ir e vir das mãos treinadas, põe-se a cardar. Desembaraça fibra por fibra. Desembaraça até os pensamentos que deixou ter.

Planta difícil essa, que, no fim dos esforços das mãos, é beleza fácil de se achar e cara de se ter. Planta local e parte dos seus horizontes. É o sisal. Resulta em formas de corda que apertam ou adornam as vidas que se tem. Outras vidas. Diferentes vidas. Distantes de todas as geografias.

Mas é preciso desarmar a dor para que não se desarme o amor, crenças. Também as esperanças tiradas do nada . E a distração das mãos nas horas neutras é listar palavras, uma após a outra. Armar conjuntos de palavras por seus sons, memórias, dons de inspirar…

Casa, capota, carta, Carlota e ainda carma, que é o seu. Tem tudo o mesmo iniciar. Pois que a escuta comprova o que o não saber ler impede.

Meia e meio, mel de melar, mó de moer e cortar. Mesma maneira de seu nome começar. O mesmo aperto dos lábios necessário para lhe chamar. Mulher.

E nas listas que formula na sua memória invariável, cientifica sobre sua preferência, gosto e vocação. Neste seu rol rolam dizeres a espera de um personagem; rodopiam nomes ainda por serem batizados; fluem idéias todas por serem arrumadas como o cânhamo, a lã, a fibra diária que a natureza impõe. E há que cardar.

As fibras em corte, em arranjo e em cor, por suas mãos amparam os desejos de outros, outras pessoas. São agora coisas; têm nomes e funções, lugares próprios e recomendados. Têm admiração e preço. E depois de tudo isso terem, não chegam a interpelar por sua vida. Mulher.
Coisas feitas por essa mulher que também viram listas, palavras escritas. Dizem, vira rol de produtos. Listas de preços. Tudo o que fermenta a fantasia de gente que vive no pleno.

Tudo muito longe das mãos que mascaram o sofrimento nato e os velhos esforços.

E já nas vitrines de outros mundos, as coisas manufaturadas estão expostas e compostas, acompanhadas de cardápios, nos quais as combinações estão listadas, ou sugeridas, e os preços cravados ao lado.

Cardápio que sugere uma indigestão consumista, moderna, onde os produtos não precisam ser descritos, não têm história nem origem.

Mas têm, ora vejam!, nomes, marcas, selos, grifes… E diferente dos restaurantes, ante as vitrines, há quem consuma o cardápio ao invés dos pratos que designa. Por isso a sensação de vazio, que chuva nenhuma lava e preenche, que carda alguma desembaraça.

criado por sydowmonica    19:02 — Arquivado em: Crônicas
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