TUDOPROSA

Crônicas, ensaios, contos, crítica literária, música… Tudo com um dedo de prosa. Porque “a vida inventa! A gente principia as coisas no não saber por quê… a vida é mutirão de todos, por todos remexida e temperada”. (Guimarães Rosa)

6/10/08

SARAMAGO

 Prof. Dr. Alfredo Monte

“… está visto que aqui já ninguém pode se salvar; a cegueira também é isto, viver num mundo onde se tenha acabado a esperança”.
…mais necessidade teríamos que estão vivos de ressurgir de si mesmos, e não o fazem. Já estamos meio mortos, disse o médico, Ainda estamos meio vivos, respondeu a mulher”.

Já repeti muitas vezes aqui nesta coluna que Ensaio sobre a Cegueira é o meu livro favorito de José Saramago, apesar de achar O ano da morte de Ricardo Reis sua maior obra, seguida de perto por Memorial do Convento e O Evangelho segundo Jesus Cristo. De qualquer maneira, esse romance de 1995, que agora volta à baila com a versão para o cinema de Fernando Meirelles, é um marco na produção do genial escritor português: a partir dele começou a se operar uma tendência à alegorização (algo geralmente estigmatizado pela crítica literária): trocando em miúdos, um núcleo alegórico é desenvolvido até as últimas conseqüências; em contrapartida, assiste-se igualmente a um processo pedagógico, no qual –entre perdas e danos— algo se aprende e fica com o leitor para sempre. Assim foi também com Todos os nomes, A caverna, Ensaio sobre a Lucidez (que prolonga o Ensaio sobre a Cegueira), As intermitências da morte. Essa série de livros representa o encontro mais conseqüente entre o ético e o estético dentro do panorama contemporâneo e me causa espanto que as pessoas se preocupem mais com a suposta estranheza da pontuação saramaguiana.
Como se sabe, Ensaio sobre a Cegueira narra uma epidemia de “cegueira branca” que leva o governo a isolar, num manicômio, os atingidos que, ali, vivenciarão os horrores daquilo a que se convencionou chamar de universo concentracionário (podemos lembrar imediatamente dos campos de concentração nazistas e stalinistas e, mais perto de nós, Guantanamo e Abu Ghraib): falta de respeito, descaso, estupidez, violência por parte das autoridades, picuinha pessoais, higiene precária e até mesmo uma quadrilha de cegos que toma o poder, extorquindo dinheiro e favores sexuais.
Duas pessoas ali estão e não são vítimas da “cegueira branca”: a esposa de um oftalmologista que insistiu em permanecer com o marido, e um cego normal, que ingressa na quadrilha.
Um incêndio jogará a mulher e um grupo de cegos nos escombros da civilização, pois o mal se alastrou, embora não seja definitivo (como é o apocalíptico universo mostrado no também esplêndido A estrada, de Cormac McCarthy).
Um grupo pungente, que tem como acréscimo um cão que passa a acompanhá-los e que bebe lágrimas (Saramago é um dos autores que mais pertinentemente incorporaram animais ao seu universo ficcional; não é à toa que um dos pontos mais fortes do seu “processo contra Deus” no Evangelho segundo Jesus Cristo seja a crueldade para com eles, basta lembrar dos sacrifícios no Templo).
Um grupo que, apesar de ninguém ser nomeado, vai se personalizando cada vez mais para o leitor, transcendendo o horror da massa indivisa e amorfa, tal como vemos em cenas como a seguinte: “As caixas de comida estavam juntas, empilhadas, mais ou menos no sítio onde a mulher do médico recolhera a enxada. Avancem, avancem, mandou o sargento. De modo confuso, os cegos procuravam pôr-se em fila para poderem avançar ordenadamente, mas o sargento gritou-lhes, As caixas não estão aí, larguem a corda, larguem-na, desloquem-se para a direita, a vossa, a vossa, estúpidos, não é preciso ter olhos para saber de que lado está a mão direita. O aviso foi dado a tempo, alguns cegos de espírito rigoroso tinham entendido a ordem à letra, se era a direita, logicamente teria de ser a direita de quem falava, por isso tentavam passar por debaixo da corda para irem à procura das caixas sabe Deus onde. Em circunstâncias diferentes, o grotesco espetáculo teria feito rir à gargalhada o mais sisudo dos observadores, era de morrer, uns quantos cegos a avançaram de gatas, de cara rente ao chão como suínos, uns braços adiante rasoirando o ar, enquanto outros, talvez com medo de que o espaço branco, fora da proteção do teto, os engolisse, se mantinham desesperadamente aferrados à corda e apuravam o ouvido, à espera da primeira exclamação que assinalaria o achamento das caixas. A vontade dos soldados era apontar as armas e fuzilar deliberadamente, friamente, aqueles imbecis que se moviam diante dos seus olhos como caranguejos coxos, agitando as pinças trôpegas à procura da perna que lhes faltava”.
Mas, como já afirmei em outras oportunidades, é improcedente pensar em Kafka e seguidores (Canetti, por exemplo), ou em autores do teatro do absurdo, entre os quais a cegueira é um assunto curiosamente bastante presente. A leitura de Saramago não leva ao desespero nem ao sentimento de impotência. Isso se deve principalmente à esposa de médico que não perde a visão e mesmo assim se submete ao apartheid sofrido por eles. Fiquei muito feliz quando soube que seria interpretada pela fantástica Julianne Moore (que além de ser uma grande estrela, ainda tem o hábito de roubar os filmes em que é coadjuvante), já que se trata da maior personagem feminina da ficção de nosso tempo.

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4/9/08

DOSSIÊ FREUD

Prof. Dr. Alfredo Monte

Em 1908, enquanto O caráter e o erotismo anal atraía indignação e ridículo ao ser publicado, a chamada “Sociedade Psicológica das Quarta-feiras”, círculo que se reunia em Viena em torno do autor do ousado ensaio, Sigmund Freud (1856-1939), tornou-se a “Sociedade Psicanalítica de Viena”; e em abril do mesmo ano ocorrerá o Primeiro Congresso Internacional de Psicanálise, já com 42 participantes, diante dos quais um nada ridicularizado e nada coberto de ridículo “Pai” do movimento psicanalítico apresentará suas Observações sobre um caso de Neurose Obsessiva, relatando o famoso caso do Homem dos Ratos.
Muita gente pensa ser difícil ler Freud sem o devido instrumental. Não é. Como Harold Bloom já demonstrou, trata-se de um grande escritor, além do maior gênio do último século. Mesmo assim, há uma “oscura selva” formada pelos vários períodos em que os conceitos freudianos foram sendo apresentados e revistos, e mesmo a leitura de obras como A interpretação dos sonhos; Psicopatologia da vida quotidiana; O chiste e sua relação com o inconsciente; Totem e Tabu; Luto e Melancolia ou O ego e o id, que considero essenciais, representa um investimento intelectual parcial e fragmentário. O que me ajudou muito foram alguns livros que serviram para compensar em parte minhas lacunas, como Freud, uma vida para o nosso tempo, de Peter Gay; As idéias de Freud, de Richard Wolheim; Freud, além da alma, de Jean-Paul Sartre (que forneceu a matéria prima para o extraordinário filme de John Huston, com Montgomery Clift); A negação da morte, de Ernest Becker; Freud: a trama dos conceitos & Freud, pensador da cultura, de Renato Mezan. Só que são todos aventuras de leitura, isto é, livros totalizantes e tantalizantes que demandam muita concentração e agregam muitas outras leituras consigo.
Para o leitor comum, desejoso de uma introdução mais simples e prática, porém não completamente esquemática, há uma opção simpática que saiu recentemente: Dossiê Freud, de Elizabeth Mednicoff 1 , onde podemos encontrar os acertos e erros dos trabalhos de divulgação.
O livro é dividido em quatro partes. A primeira é mais biográfica, contextualizando Freud em sua época e cidade, e sintetizando os percalços da sua carreira e da constituição do movimento psicanalítico. Há coisas banais e rasas como uma seção de triviais “frases famosas” (pobre Freud, cuja escrita era tão elegante e complexa!) e uma incômoda falta de polimento, como se o texto fosse escrito aos trambolhões e não houvesse um esforço maior de revisão, de forma a evitar repetições da mesma informação (pior ainda, com a mesma formulação) e escorregadas para o tom de revista Marie Claire, do tipo: “Mostrava-se muitas vezes um homem inseguro, inibido, possessivo e ciumento. Apesar de suas idéias revolucionárias na época, era conservador com relação às mulheres, fazendo comentários que enalteciam os serviços das mulheres dentro de casa e não fora dela”. Após ter escrito tal trecho, sem a menor transição lemos em seguida: “Freud, acima de tudo, foi corajoso, determinado e desbravador.” Ora, ora, ora, ela acabara de fazer uma observação que abre uma fissura contraditória na personalidade (fascinante, aliás) de Freud e depois faz tal panegírico tosco, e desconexo completamente com as afirmações imediatamente anteriores!
A segunda já é mais redentora (embora com a mesma falta de cuidado com a escrita que horrorizaria o autor de O futuro de uma ilusão), com uma exposição clara dos principais conceitos elaborados por Freud, desde a sua concepção neurológica, arrojada para a sua época, do cérebro, com neurônios e descargas de energia, que se associou ao estudo inicial do fenômeno da histeria e dos estados psicopatológicos, até o aprofundamento de uma divisão da vida simbólica do indivíduo, desde a mais remota infância, um processo caracterizado pela repressão e pelas chamadas fases (oral, anal, fálica e genital), que constroem o universalmente conhecido “Complexo de Édipo”, e polarizado pela pressão exercida sobre o ego pelo id e pelo superego:

“O id é o sistema original, a matriz, de onde o ego e o superego vão se desenvolver posteriormente. É formado pelos aspectos psicológicos herdados e presentes no nascimento, incluindo os instintos… está voltado a satisfazer nossas necessidades básicas. Sua atividade consiste em impulsos que buscam o prazer, procurando adquirir a gratificação e não suportando a frustração. É aquele nosso lado instintivo que não mede as conseqüências dos atos para se satisfazer. Os conteúdos do id são quase todos inconscientes e incluem aspectos que nunca se tornaram conscientes e outros que foram considerados inaceitáveis pelo consciente (…) Entretanto, à medida que a criança vai crescendo, aprende que precisa se adaptar às exigências e condições impostas pelo meio em que vive, pois nem tudo que deseja consegue. O id não deixa de existir, ele nos acompanha e permanece em nossa vida adulta. Mas para que ocorra essa adaptação [ao princípio da Realidade, subjugando o princípio do Prazer], uma nova parte do aparelho psíquico se desenvolve a partir do id: o ego, cuja principal função é agir como intermediário entre o id e o mundo externo. É o ego que aprende a controlar e regular os impulsos do id… A criança continua a se desenvolvendo e descobre que existem normas, regras, padrões, de moralidade tanto dos pais quanto da sociedade. Então começa a ouvir as proibições, o que é feio, o que é vergonhoso, e assim acaba incorporando essas crenças à estrutura psíquica, formando, a partir do ego, o superego, o qual, então, passa a exercer um papel, vamos dizer assim [sic] de censura imediata… O superego, portanto, é o oposto do id. Enquanto o id vive satisfazendo as necessidades imediatas, o superego funciona reprimindo. Nenhum deles é realista e imaginem a confusão, já que duas partes da nossa personalidade são completamente opostas e, assim, geradora de conflitos. Com o passar do tempo, tais conflitos emocionais, problemas mal resolvidos e as disputas entre o id e o superego na infância vão gerando as neuroses que temos quando adultos.”

A terceira parte descreve os métodos desenvolvidos por Freud a partir do abandono da hipnose (para curar os sintomas histéricos, na pré-história da Psicanálise), já que suas teorias também envolvem a prática clínica.
O achado mais feliz é colocar na quarta parte alguns casos clínicos famosos, que ajudaram Freud na constituição e revisão dos seus maiores insights (Anna O., a qual foi paciente de Josef Breuer, um dos mentores de Freud, e que teve a duvidosa honra de ter sido escolhido por Irvin D. Yalon como protagonista de Quando Nietzsche chorou; O homem dos ratos; o pequeno Hans; Elizabeth Von R.; Dora; o homem dos lobos). Depois, há uma bobagem típica da nossa era de iluminações-miojo e auto-ajuda fast food: conselhos para uma auto-análise psicanalítica. Tudo bem que foi assim que Freud revolucionou a si mesmo, escrevendo o seu belíssimo Interpretação dos sonhos, porém da maneira como a receitinha é proposta só vai fazer Nietzsche chorar mais ainda.

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4/8/08

A NOITE À ESPREITA

Dizem — a cidade tem rugas!
Quanto mais o tempo passa e a história se faz, as suas rugas se estendem, multiplicam e permanecem. Permanecem sulcando as vidas noturnas.
Refiro-me, é claro, às ruas, essas vias públicas que ora são o espaço dos ocupados ora entretenimento dos infelizes. Podem enrugar de alegria aqueles que têm disposição para tanto ou ocultar a mediocridade transeunte.
As ruas ou rugas urbanas cercam a todos; quem nelas vive deve ter o espírito vagabundo e a rejeição como verdadeira sarjeta.

Delas qualquer um pode me ver à noite; ou melhor, pode testemunhar uma vida insone. Para a maioria, a noite é recolhimento; para outros, uma chance, uma oportunidade. Sobram aqueles, como eu, que tecem a vida desperta. Essa minha vida insone, há tempos, passou a ser voluntária, esperada ao fim da luz natural.
Gosto tanto do que a insônia me oferece que dispenso tratamentos, pílulas e mandingas. Empoleirada, desfruto da vadiagem ao observar com rigor, quase profissionalismo, os ajuntamentos noturnos. Dedicada, também atravesso histórias noturnas que me entretêm, provocam, desfilam à minha frente e pedem algum sentido. Assim adio o dia, a claridade que nos mostra e denuncia.
Estacada na janela deste sobrado, com a discrição profissional que citei, acompanho as histórias privadas em moldura pública. Eis um recorte.

Começarei pelos mais assíduos, verdadeiros flâneurs: moradores de rua, mendigos ou os desatados dos vínculos — dizem — sociais. Aqui nas ruas eles se reúnem e perambulam cheios de sabedoria noturna, têm espírito risonho e estão convencidos da inutilidade de ser possuidores. Não importa do quê. Por isso, notam o que os outros não podem vislumbrar nem com um par de Varilux.
São também desconfiados, porque exaustos de experiência. Por outro lado, vivem sem promessas, sem expectativas, sem as nossas frouxas crenças. Livres do ideal que nos desconsola, brindam a valer com seus tragos sem o mérito da sede ou da comemoração. Em verdade, circulam pela província da dor com abundante rejeição. E posso identificá-los, por vezes, como desempregados públicos ou réus da justiça que democraticamente tarda. Noites seguidas, ao se juntarem na via social, formam o vozerio dos excluídos, e nas conversas ficam teimosamente inventando lembranças.

Mas em dias atuais, existem outros também assíduos, porém com alguma cobertura social. Refiro-me aos encontros dos jovens que não aprenderam ainda a encontrar.
Animadíssimos. Falam, gargalham e se confrontam sem se preocuparem com rugas e marcas. Afinal, na juventude, a dor, a pressa e a morte são coisas para uso alheio.
Vejo-os como liberados à cretinice e são capazes de desfrutar da amnésia social, porque nas ruas ora suas margeiam a aventura até a renúncia à estafante liberdade. Há noites em que invejo essa capacidade de ficarem à beira da vida a sério. Giram e giram, descoordenados, nos calcanhares de suas fraquezas, livres como bestas, lindas e inefáveis bestas.

Volto agora à outra rua que me tem mais próxima, com suas árvores bem vestidas, ofertando sombras aos encontros humanos, quase diários, de zeladores, guardas noturnos, faxineiros em turno, com as empregadas desterradas, ancoradas em lares patronais, que com seus olhares de zeladoria também reivindicam atenção noturna.
As moças, meninas ainda, cruzam à minha frente com seus corpos provedores de afeto. Os parceiros, nostálgicos, sentem uma saudade sem objeto e confortam-se, acomodam-se, nos cheiros, regaços e beiços da vez. Tudo na pressa da noite, sem danos colaterais imediatos.
Elas, quando se achegam à rua, à grade ou ao portão a ser conquistado, são chacinadas com os olhos. Comprometem-se com palavras fáceis e amanhecem desfalcadas dos amores prometidos.
Amar, amam todos. Todas as noites. Nas esquinas, cantos, garagens apertadas, pilastras ou bancos cheios de memórias. Apressam o dia para abraçar a próxima noite, mesmo que não encontrem esperança. O importante é que a noite venha, fique, esparrame seu esperma estelar, rasgue a solidão, cerre seus olhos e ofereça a si mesma como possibilidade.
Assim é — os amantes, quaisquer amantes, moram na possibilidade.

É então a rua e tudo que nela se encontra (inclusive eu) espaço onde cada um é ninguém no meio de todos, com sua humildade fria e desleixada. Um invólucro vulgar do mundano. Seja o que for, é perspectiva desta observadora.

Há, no entanto, uma história que me agrilhoa noite após noite, quase como se fosse minha: são amantes metódicos e entregues à poesia que talvez desconheçam. Um casal infalível nos seus encontros. Como se fosse cronometrado, chegam juntos e dão a impressão de que entre eles não pode haver esperas: não se cumprimentam, se pegam com determinação; não se falam, se beijam com desejo público.
Não nego que a cada encontro fico em suspenso naquele desejo audível, porque poderia ser meu. Em suspenso e com medo de espantar aquela visão. Viver um amor de rua é conviver com a aridez da publicidade; no entanto, todas as noites, aquele encontro marcado e amor cumprido hidratam minha esperança.

Pois bem, ao fim de algumas horas, testemunho a ressaca de bocas e beijos; os amantes trocam afagos finais como rosas murchas, depois de viajarem sem mapas por sulcos e fendas afetivas.
À respiração atrevida da primeira pegada, agregam as fomes que compartilham, exibem suores e ficam impregnados de realidade. É um amor sem solavancos, com a leveza do transitório. Tesão e medo amoitados nos cantos e sombras do que é público.

Enfim, com as cores do dia, as ruas e suas vidas mudam de interesse, velocidade e volume. Já as rugas desta vida privada se acentuam, se comprimem, ficam finalmente públicas até o céu sangrar novamente e a noite ficar à espreita.

criado por sydowmonica    16:42 — Arquivado em: Crônicas

JANE AUSTEN: POPULARIDADE E GENIALIDADE

 

Prof. Dr. Alfredo Monte

 

Abordando geralmente gente provinciana, com interesses limitados e pequenas intrigas, é impressionante como Jane Austen desperta interesse e, segundo os livreiros, mantém invejável vendagem para quem morreu há quase duzentos anos (em 1817). O recente fenômeno de Persuasão, até então um dos seus livros menos conhecidos, mostrou isso. Nem Dickens, que há poucas décadas era o gênio inglês e universal do século XIX, é agora páreo para a autora de Emma. É a popularidade unida à genialidade

Orgulho e Preconceito reaparece agora em edição bilíngüe e bem cuidada, embora com uma capa apelativa (chamando a atenção para a recente e fraquinha adaptação cinematográfica). O trunfo dessa obra-prima de 1813 é sua heroína Elizabeth Bennet. Ela pertence a uma família com muitas filhas (cinco), todas sem dote, e cuja propriedade, com a morte do preguiçoso pai, passará para um distante e insuportável parente masculino, Mr. Collins (o qual, a certa altura da trama, resolve pedir a mão de Elizabeth, como se fosse um grande favor que fizesse a ela, e na mente de todos era mesmo): “A senhora deve levar em conta que, apesar dos seus múltiplos atrativos, nada garante que outra proposta de casamento lhe seja feita algum dia”.

Assim como o Machado de Assis de A mão e a luva (um romance que poderia ter sido assinado por Austen), é implacável a precisão e lucidez com que ela caracteriza uma sociedade em que cada um é prisioneiro da sua condição social e sexual, em que o mais rasteiro cálculo materialista dita as regras, e que talvez seja (ao contrário do que se pensa) menos hipócrita do que a nossa, regida da mesma forma, porém colocando em prática outros discursos.
Quem tem perfeita consciência disso é Charlotte, a melhor amiga da Elizabeth que acaba casada com o tal Mr. Collins: “o casamento era ainda a forma mais agradável de se preservar da necessidade”.

O charme do enredo vem, com certeza, da transformação dos sentimentos mútuos entre Elizabeth e o a princípio antipático Mr. Darcy. Os diálogos entre ambos são páreos para o Shakespeare das melhores comédias dramáticas como O mercador de Veneza e Como gostais, que têm heroínas carismáticas também, Pórcia e Rosalind.
Quase rouba a cena o irônico e indolente pai dela, Mr. Bennet, que só faz a filha sofrer porque é um péssimo marido, cáustico e desdenhoso. Entretanto, só o amor de filha perdoaria uma mãe tão chata, que merece uma tirada como a seguinte, resposta à sua queixa da pouca compaixão do esposo pelos seus pobres nervos: “Está enganada, minha cara. Tenho um alto respeito pelos seus nervos. São meus velhos amigos. Ouço-a mencioná-los com consideração há pelo menos vinte anos”.


Quando será que relançarão Mansfield Park, a única grande obra de Austen que há anos está desaparecida das livrarias? Aí o leitor verá um espaço narrativo mais reduzido e concentrado ainda (uma propriedade), e o lado mais angustiado e denso do universo austeniano, sem o anteparo da espirituosidade. Que, no entanto, é sempre bem-vinda.

criado por sydowmonica    16:36 — Arquivado em: Literatura

19/6/08

TESTAMENTO

 

“Você não possui mais no mundo
o grande espaço que ocupava antigamente.
Você não mete mais medo em ninguém.
O inferno aparece agora apenas no último ato.
Você não assombra mais o espírito dos homens.”

                      Paul Valéry (Meu Fausto)

Passei esta minha existência incerta entre o natural e o estudado, sendo comentado e até mesmo temido. Tive e tenho muitos apelidos e biografias; mas a verdade deste presente tempo é que sou um pobre diaboAssim, com letra minúscula.

Não que me deixem de lado. Não. Fiz um bom trabalho; cresci em importância. E hoje estou presente nas variações desse mundinho humano: nas crenças, artes, literatura, política… Despertei até um certo ciúme em outras mais Altas apelações.

E de tanto conviver com tanta humanidade, acho que peguei seu jeito.
Nos meus começos, meus diabólicos começos, tecia a desgraça, a mentira; me metia no meio das boas intenções para mostrar que havia o outro lado.  E como me diverti com essas pequenas perversões…

Comigo boca não tinha voz, mas o timbre da culpa ou da indecência. Enroscava e me apertava nas grandes e nobres intenções com meu pensamento miúdo, como miúdas são as entranhas. Outras vezes, ficava metido na bruma da embriaguez do ego, e desconsertava o reto.
Jogava areia nas ondas das grandes ações humanas, para que chegassem sempre morrendo na praia.

Visitei, tantas vezes, o peito carregado da nobreza, porque é nele que todo sonho cabe. E, claro, desacreditei a humanidade de seus sonhos.
Tanto fiz e competente fui!

Mas isto é já lá passado. Passado humano, porque não me prendo nestes tempos medidos. Este meu passado de que padeço é, sim, o próprio fracasso.
Desumanizei o mal…

Fiquei tão íntimo da indiferença humana, que não faço mais a menor diferença.
Antes, esses homens viviam sem mim, este pobre diabo. Depois, séculos de glória tive e em rivalidade com o Emérito. Agora, vejo e experimento a decadência. A inutilidade.

Sabem o que dizem?; que “tenho muito o que aprender…”. Transformei-me numa biografia sem existência, sem vida.
Fui à lona no pugilato dos valores humanos.

Tem mais, desconfio que humanizei. Até flato de anjo me sensibiliza…
Então, antes que o nada se iguale a mim, deixo registrado em testamento que desembarco do mal, pois que já sou considerado de primeira geração. Ultrapassado.

E este pobre diabo que vos escreve, deixa à humanidade o futuro. Quanto a este, só Deus sabe!

“No final das contas, pode ser que
não sirva mais para nada.
Eu fui construído sobre uma idéia errada,
segundo a qual as pessoas não são
malvadas o suficiente para se perderem
sozinhas, com seus próprios meios.”
              Paul Valéry (Meu Fausto)

criado por sydowmonica    17:12 — Arquivado em: Crônicas

9/6/08

VADIO E PEDINTE

Cruzou por mim, Veio Ter Comigo, Numa Rua da Baixa

Veio ter comigo, numa
Rua da Baixa
Aquele homem mal vestido, pedinte por
profissão que se lhe vê na cara,
Que simpatiza comigo e eu simpatizo
com ele;
E reciprocamente, num gesto largo,
Transbordante, dei-lhe tudo que tinha. 
Sinto uma simpatia por essa gente toda,
Sobretudo quando não merece simpatia.
Sim, eu sou também vadio e pedinte,
E sou-o também por minha culpa.
Ser vadio e pedinte não é ser vadio e pedinte:
É estar ao lado da escala social,
É não ser adaptável às normas da vida,
Às normas reais ou sentimentais da vida -
Não ser juiz do Supremo, empregado certo,
prostituta,
Não ser pobre a valer, operário explorado,
Não ser doente de uma doença incurável,
Não ser sedento de justiça, ou capitão da
cavalaria,
Não ser, enfim, aquelas pessoas sociais dos novelistas
Que se fartam de letras porque não têm razão
para chorar lágrimas,
E se revoltam contra a vida social porque
têm razão para isso supor.
Não: tudo menos ter razão!
Tudo menos importar-me com a humanidade!
Tudo menos ceder ao humanitarismo!
De que serve uma sensação se há uma
razão exterior para ela?
Sim, ser vadio e pedinte, como eu sou,
Não é ser vadio e pedinte, o que é corrente:
É ser isolado na alma, e isso é que é ser vadio,
É ter de pedir aos dias que passem, e nos deixem,
e isso é que é ser pedinte.
Sou vadio e pedinte a valer, isto é,
no sentido translato,
E estou me rebolando numa grande
caridade por mim (…)”

Álvaro de Campos

Pode me chamar de preguiçoso, descançado, vadio… Tudo me qualifica melhor do que o desdém natural que sinto por mim. E também não me importo se, acompanhado desses juízos prévios, dispara teu sorriso predatório em minha direção. Este não é diferente dos olhares que gelam minhas impressões cotidianas.

Sou fraco, reconheço, porque qualquer forma de prisão enfraquece o espírito mais radical. Principalmente, essa prisão sem grades, sem sentença, sem apelo ou revogação. A indiferença.
Amigo, afirmo: não é nada fácil carregar o silêncio, tampouco perceber-me um vadio num mundo no qual não faço a menor diferença no horizonte humano.

A vida faz troça de minhas parcas esperanças e quer me convencer de que os desertos são para os fortes. Por tudo isso, tenho certa nostalgia de um destino diferente, mais irrigado de atenções.

Há poucos meses o cenário era bem diferente; se concorda, coloco-me à caminho da recordação. Tinha uma rotina enxuta, um ofício dedicado à repetição, uma rotina tão cuidadosa quanto confortável, restrita às venturas e  refratária às inovações vindas do alheio. Digamos que me incorporei à pátina do previsível.

Sentia-me ancorado numa utilidade decente e, sem perceber, descartável. Tinha um agônico interesse por tudo que se passava na minha periferia e, não nego, resistia a encarar os afetos como possibilidades.

Era uma existência fácil, uma escolha sem opções, que se resumia em muitas horas congeladas no ofício de digitar e outras poucas dissolvidas na espera do sono. Eis a rotina que me coube, defendida como se fosse o melhor dos mundos. Quanto mais me concentrava nessa rotina mais me perdia nela; quanto mais enredado no desinteresse, mais desterrado de minha própria vida social. Apenas uma coisa permitia reconhecer os limites daquela existência tão restrita: os contornos da tela, qualquer tela. O importante era ver, trabalhar, jogar – não interessa!! - a partir de fronteiras que poderiam ser acendidas ou apagadas por minha indiferença.

Nessas fronteiras julgava-me príncipe; e também estas cresceram como muros de prisão.

Nos ambientes que frequentava, poucos, passei a ser notado quando a luz artificial do mundo acendia à minha frente. Mas esta luz não chegava a iluminar a noite que persistia. Os diálogos e conversas – também poucos – que aquela rotina exigia eram mediados pela linguagem que a tela autorizava. E assim vivia no fio da mediocridade.

Desta feita, a vida me parecia infalível, até que se mostrou certeira em negar-se a acender meu dia. Sonegou-me ser o que sempre fui. E, diante da constatação de que tudo, afinal, é falível, busquei a luz natural e sua realidade disforme. Percebi claramente o elo que nos unia: novamente, a indiferença.

A minha opacidade existencial foi, ano após ano, fazendo tranças com a indiferença à minha volta, a mesma que parecia ser tão bem-vinda. E esta passou a ser os meus limites. Quando a tela não mais acendeu, os outros viram-me como um inútil decente, o descartável da vez. E foram tão persuasivos, que me convenci ser um príncipe da marginalidade. Também um pedinte.

Por isso sou vago e vadio, descansado de tanto negar-me. Indiferente para com a sua opinião a meu respeito.
Porque você também não faz a menor diferença.

criado por sydowmonica    17:04 — Arquivado em: Crônicas

6/6/08

CALDERÓN DE LA BARCA

 

Rei (espantado): Pois o Mundo o que fui tão cedo ignora?
Mundo: …volte a si, torne, saia tua pessoa
nua outra vez da farsa desta vida.
Rei: Tu não me deste adornos tão amados?
Como me tiras o que já me deste?
Mundo: Pois emprestados foram, mas não dados,
durante o tempo que o papel fizeste…
Rei: Que tenho de lucrar em meu proveito
de haver, no mundo, o rei representado?
                                 (Calderón de La Barca, O Grande Teatro do Mundo)

Na grande alegoria, escrita por volta de 1633, da qual foram tiradas as falas acima, o Autor chama o Mundo para mandar diversas personagens (Rei, Formosura, Discrição, Lavrador, Rico, Pobre, Criança, Lei) entrar e sair de cena. Quando o papel “acaba”, todos se igualam, para espanto do Rei. Assim, na metáfora do “grande teatro do mundo” o que se depreende é a chamada visão criatural ser humano, descrita por Auerbach, isto é, o rebaixamento da condição humana, onde todos se igualam pelo destino comum: a morte. É o velho tema do Eclesiastes: o caráter vão de todas as coisas.
O leitor brasileiro pode conhecer outra volta do parafuso no tema (talvez superior do ponto de vista da realização artística) escrita cerca de dois ou três anos mais tarde: saiu pela Hedra a tradução de Renata Pallotini de A vida é sonho, a qual, nos seus três atos (ou jornadas), se chegou a ser conhecida por Freud, certamente fez as delícias do criador da psicanálise como demonstração perfeita, quase matemática em sua poesia (alternada com a prosa), do “retorno do reprimido”.
Na primeira jornada, a moscovita Rosaura (acompanhada por Clarim, o alívio cômico, com sua visão chã e pícara dos acontecimentos) chega à Polônia disfarçada de homem (quer vingar sua honra) e conhece Segismundo, o qual vive numa masmorra desde o seu nascimento, vigiado por Clotaldo (que nomes deliciosos!). Duas inversões: uma, cara à tradição teatral, da moça disfarçada de homem; a outra, mais peculiar, a do moço guardado como uma donzela.
Qual o crime de Segismundo?
Mas eu nasci, e compreendo
que o crime foi cometido
pois delito maior
do homem é ter nascido.
Clotaldo, o verdadeiro pai de Rosaura, é obrigado a aprisioná-la e levá-la a Basílio, o Rei, que decidirá sua sorte, pois ninguém poderia saber da existência de Segismundo, a quem o Rei temia, mesmo sendo seu filho, pois lera nas estrelas que seu herdeiro lhe destruiria o reino; aprisionando-o, ele tenta suster os vaticínios celestes. Ao mesmo tempo, chega Astolfo, pretendente ao trono, fazendo a corte a Estrela, a outra herdeira (cuja mãe chamava Clorilene, irmã da “altaneira” Recisunda, mãe de Astolfo; e todos descendem de Eustórgio III). Acontece que foi Astolfo quem desonrou Rosaura…
Pois bem, Basílio decide libertar o filho e poupa Rosaura (que, instruída por Clotaldo, se disfarça em dama de companhia de Estrela). Como o Rei teme as ações de Segismundo, ele urde um plano: toda a sua estadia na Corte terá um “ar de sonho” e caso a experiência não se mostre bem sucedida, o herdeiro do trono será reconduzido à sua masmorra, acreditando que sonhara tudo.
A segunda jornada é talvez o ponto alto (altíssimo) de A vida é sonho. Clotaldo cumpre as determinações do Rei (“Deste modo poderemos verificar duas coisas: a primeira é a sua natureza, porque ele, acordado, pode fazer quanto pensa ou imagina; a segunda, é o consolo, pois ainda que agora seja obedecido e depois torne a sua prisão, poderá entender que sonhou, e isto lhe fará bem. De resto, Clotaldo, no mundo, todos os que vivem, sonham”) e Segismundo acorda príncipe após ter vivido como prisioneiro toda a vida. É um id que sempre esteve sob o jugo do superego (e nunca houve um ego formado, já que ele nunca viveu no mundo da experiência) e agora não há freios. Resultado: crueldade, desfaçatez, até um homicídio (um criado o admoesta e ele retruca: “Contra o meu gosto, nada me parece conveniente e justo”, mais tarde replica ao Rei: “Ainda que não te agrade/hei de prosseguir aqui/ Sei quem sou e o que já vi/ por mais que isso te enfade/…Se estive em prisão, primeiro/ morto de frio e de fome/ foi por não saber quem era/ mas como informado estou/ de quem sou, já que sou/misto de homem e de fera”), além da infame tentativa de estupro da já desonrada Rosaura, que acaba sendo defendida por Astolfo.
Dessa forma, Segismundo é dominado e reconduzido ao cárcere. No seu solilóquio final é que está a passagem mais famosa da peça, justificando amplamente seu título; antes disso, ele se auto-diagnostica com precisão para seu guardião Clotaldo: “Eu era senhor de todos, e a todos pedia desforra”.
Apesar da intensidade da 2ª jornada, a terceira mantém a qualidade e o brilho. Há uma revolta popular (o povo é visto como uma força negativa, é “desabrido e cego”) e parte do exército liberta Segismundo. Ele lidera então uma luta armada para derrubar seu pai do trono. Ao sair da prisão, Segismundo tem uma fala maravilhosa (prenúncio de sua mudança, ao final), dessa vez em prosa: “…já que a vida ´tão curta, sonhemos, alma, sonhemos outra vez, mas com a precaução de despertar deste engano na melhor altura, e de ver que ele acaba. Assim, consciente, será menor a desilusão… Atrevamo-nos a tudo, pois todo poder é emprestado e há de tornar ao seu legítimo dono.” Astolfo se une a Basílio, mas o exército de Segismundo os derrota (Clarim morre em combate: “De pouco vale tentar/da morte se defender/ sempre acaba por morrer/aquele que Deus mandar”). Segismundo, adotando o princípio da realidade, e não apenas guiando-se pelo princípio do prazer, restabelece o equilíbrio (“Porque espero obter outras grandes vitórias, vou alcançar a mais custosa hoje: vencer-me a mim próprio”): reconcilia-se com o pai, casa Astolfo com Rosaura (e Clotaldo revela ser o pai dela) e ele pede a mão de Estrela. Tudo está bem quando acaba bem. E quando funciona tão bem num texto ágil e jovem de quase 400 anos.

criado por sydowmonica    16:33 — Arquivado em: Literatura

27/5/08

VERSADO EM MORTE

 

Estou morrendo! É isto, eu antecipo, estou morrendo!
Você entendeu? Eu sei. Aparelhos e tristes olhares atestam. Sinto, como explicar?, um distanciamento desta consciência de seus membros; estão mais leves, ou menos meus. Vejo-os sobre a cama e lençóis, mas não os encontro em mim. Será isto a falência?

Um crescente e lento frio me dissolve nos seus braços… Não quero que me toquem. Ninguém. Não quero banho ou medicação. Deixem-me quieto! Tenho direito ainda de assistir esta desencarnação, o desprender-se daquilo que levei anos para acostumar, tolerar; desprender-me dessa figura agora tão estranha chamada vida.

Por que tantas visitas? Para que tanta audiência nestes metros quadrados de agonia? As expressões mal disfarçam uma pena protocolar, deslocada, ante ao meu penar. Talvez, o último.

Aqui chega…Vilarino. Trancou nos lábios sua carência de lágrimas a derramar por sua própria vida, esta que permanecerá, quente e contraditória. Mas tem um álibi — este féretro que logo percorrerá ruas vivas, quentes; te autorizo a usar-me para contrair e contrariar sua dor pessoal. Podes lastimar, chorar até. Eu não mereço mais do que essa hipocrisia, mas tens a ti para encarar sem tanta consideração.

E tu, Misericórdia? Veio irritar-me com um último adeus?
Teimosa em ser a obesa da família; nosso monstro sagrado da irmandade, que padece nas profanas igrejas da cidade, qualquer cidade. Misericórdia que dobra joelhos de dia em nome do Senhor e também à noite por conta dos préstimos da beata mor que te seduz. Arrasta tuas carnes inflacionadas pelos altares templários e abre as mesmas carnes para o dilúvio feminino que tens. Chora por este quase-morto que de nojo te cobriu em vida.

Não acredito no que estes olhos meus, no derradeiro, têm ainda de codificar… Leonice. Tenho de reconhecer o poder cataléptico da morte. Enquanto evento, assisto, quanto é gregária, quanto desperta de fantasmas entre vivos.
Ora vejam…Leonice, que se apoderou de bons e saudáveis anos de minha vida, travou lutas contra nós e nocateou-me frente aos filhos nos tribunais. Juntou-se a mim para impedir a realização de um propagado “nós”.

Claro; mas esta é uma versão de quem estréia o estertor, e não é momento de versar sobre o casamento que se escolheu.
Leonice está muito bem, tirante este olhar de já vai tarde que dispara ao leito. O corpo a abandonou, é verdade, mas tem ainda um rosto faceiro, de grandes possibilidades, o que me obriga a reconhecer que a odeio! Entendeu?
Desprezo esta sua presença tardia; tenho esta raiva última, que oxigena-me em vida final. Principalmente, porque vais ficar.

Feito um papagaio de pirata, surge junto dela Heitor, meu filho. O verdadeiro Heitor dos prazeres que tanto financiei. Chega com esta morte, meu filho, a tua fatura; desta vez, a vida irá te cobrar em dobro e não serei mais teu anteparo.
Estou livre. Estou livre do teu peso alegre, sensual, que cadenciou minha falência. Inclusive emocional.

Gelado; eu sinto assim. Quase não me percebo num corpo, mas percebo outros corpos à volta. Muita contrição, toques em membros escravizados por sondas e soro, choros sutilmente contidos, socialmente liberados. Vez ou outra, picadas que não me atingem mais, que dão conta apenas das normas da medicina, que prometem a boa morte.
Mas é sempre ela, a morte.

Quem é agora? Geína… A boa e prestativa Geína dos últimos tempos. Continua com seu olhar maternal, que aplacou meus constrangimentos em banhos e troca de fraudas diárias. Comoventes. A última mulher a me ter e alimentar, a quem devo um Muito Obrigado!
Geína fez-me esquecer que era objeto de seu ganha-pão, mesma quando era hora, derramada hora, de recolher minha baba, o mijo, as lágrimas da vergonha de ainda viver.

No entanto, neste meu epílogo, eis que lamento renunciar à vida ou ser expulso da minha. Resisto sem forças, ignorante ainda do que seja, afinal, vida e morte. Compreendo, na última versão de mim, agora mesmo, o que é o egoísmo em forma pura.

E antes que tudo acabe e eu me transforme num verso impresso em placa de túmulo, tenho de dizer da minha decepção em Ti. Vejo que Você se cansou de sua deplorável cópia, ou vira a cara ao teu erro de projeto. É aqui, nesta morte que me tem por direito e dever, que entendo o quanto Tu não existe e assiste o fim. Vou finalmente expelir a solidão que me destes, vou aterrar-me na escuridão que evitei em toda minha medíocre vida. E estarei livre de Ti, de Tua possibilidade.
Então, seja feita a Tua vontade.

criado por sydowmonica    16:41 — Arquivado em: Crônicas

5/5/08

LYGIA FAGUNDES TELLES

CIRANDA DE PEDRA

Prof. Alfredo Monte

Então teremos uma nova versão para a tevê de Ciranda de Pedra, o primeiro dos quatro excelentes romances de Lygia Fagundes Telles (que, além disso, é exímia contista). O que será que vai acontecer com a trama, revelada através do olhar de Virginia, filha bastarda de uma mãe que abandonou o lar para viver com o homem amado e que entretanto acaba vivendo com o falso pai? Um ponto-de-vista que servia em 1954 como instrumento de desmascaramento da hipocrisia e da podridão da sociedade burguesa tradicional.
Decerto há muito tempo os alicerces da burguesia já foram carcomidos. Ainda será surpresa para o leitor (e o espectador) de hoje descobrir que os jovens que encantam Virginia, alimentando seu sentimento de inferioridade e exclusão, vão se revelar ídolos com pés de barro? Conrado, seu amor infantil (e um tipo recorrente na obra da autora), é impotente; a virtuosa Bruna, uma das suas meio-irmãs, e a que mais condenava o comportamento materno, casa-se, mas mantém um caso com o tenista Rogério, o qual fica atraído por Virginia assim como o marido de Bruna, Afonso; Otávia, a outra irmã, é quase um símbolo do descaso e da desfaçatez; Letícia, a irmã de Conrado, optou pelo lesbianismo e também se interessa por Virginia, que passara a conviver novamente com todos, após anos num internato, e que dessa forma é insistentemente convidada a entrar na “estranha ciranda! Eram solidários e no entanto se traíam. Eram amigos e contudo se detestavam.”
Esse lado mais epidérmico, mais condicionado pela expectativa de um enredo ousado e transgressor, é superado totalmente pela brilhante construção do chamado “foco narrativo”. Ciranda de Pedra é uma das obras mais bem elaboradas e talentosas, quanto à técnica narrativa, da nossa ficção, e sem o aparato laborioso e afetado de autores que se esforçaram por alcançar tal sofisticação, caso de um José Geraldo Vieira, por exemplo. Nele pratica-se o “discurso indireto livre”, colando o discurso do narrador à percepção e linguagem da sua heroína de forma a garantir a adesão total do leitor ao seu processo de decifração dos códigos que regem a ciranda do seu grupo de familiares e amigos (e de um modo mais geral, do estrato social a que pertencem).
Mas Lygia vai mais além: praticamente em todos os capítulos, ao mesmo tempo em que acontece a cena presente, emergem reminiscências do passado, intuições do futuro, fantasias, recalques, de maneira “natural” e quase imperceptível. Cada momento se torna, assim, riquíssimo e ampliado. E também perfeitamente adequado a uma personagem que diz:“…sinto os meus mortos em redor. Eles continuam, embora nenhuma força consiga governá-los. Mortos e vivos estão todos por aí, completamente soltos. E a confusão é geral.”

 

criado por sydowmonica    15:12 — Arquivado em: Literatura

SEM LENÇO, SEM DOCUMENTO

Sabe aqueles dias de sol que convidam o deprimido a rever sua capital decisão, ou o detento a se sentir prisioneiro da má sorte, enfim, um dia perfeito para estar ao ar livre, na rua, na vida, na vontade de radiar com a luz?
Assim era. Uma manhã de outono na geografia tropical, pronta para receber as boas intenções.
Neste cenário, Anna Rocha  pôs-se a caminhar por ruas locais, arborizadas, munida de jornais e o livro da vez. Buscava uma fachada simpática que pudesse regar sua manhã com generosos cafés, ou quem sabe sucos; à margem da tarde, uma cerveja talvez. Que seja; algum lugar para se encostar e se enroscar no mundo impresso e à mão.
Sentou-se numa mesa próxima à janela, pois as cores solares queriam ser vistas; depois fez o pedido e acomodou-se na sua manhã de sossego e entretenimento.

O local era grande, um misto de confeitaria, padaria, café e adega tão comum nos dias atuais, em que até essas fronteiras comerciais foram borradas. Anna esqueceu-se das horas e foi esquecida pelas atendentes, tal sua conformidade com o local e tão absorta em sua leitura inaugural.
Depois dos cafés e capuccinos imaginados e cumpridos, desgarrou-se da mesa e de seus pertences e seguiu para o toalete. Outro espaço amplo, limpo, claro e bem aparelhado para oferecer segurança aos inseguros .
Minutos depois, o inesperado.
Ao virar a chave que utilizara para fechar a porta, esta acompanhava obediente o movimento da mão, mas a tranca teimava em cumprir sua sina; perdeu a conta de quantas tentativas fez para constatar que estava presa no banheiro.

Antes que a mão ficasse deformada, acomodou-se no vaso dizendo para si que bastava esperar um movimento externo, ou outro cliente cativo de sua bexiga, para anunciar sua condição carcerária.
Logo de princípio ponderou que não havia razão para apreensões ou perda do polimento social; as circunstâncias voltariam a seu favor.

Nessa espera involuntária, deteve-se mais à configuração do seu cárcere e constatou que o banheiro era iluminado, mas não tinha janela; era grande, mas distante de todos os outros ambientes do local; estava limpo de ferir as narinas com o produto mais barato do mercado. Ainda nessa espera, Anna passou a dizer para si que a serenidade, própria da racionalidade, era sua melhor aliada. Também começou a especular outras saídas e foi assim que deu conta de que estava sem sua bolsa, celular, palm etc.
Exilada de sua identidade e direção.
Ou seja, com certo desconforto, entendeu que não existia ! Ninguém sabia onde estava, em que circunstâncias, tampouco poderia ser localizada, mesmo que fosse por uma chamada.

Aquela inevitável constatação, unida ao distante ruído da clientela, ascendeu a luz amarela. As horas pingavam, agora lentamente, na mesma medida que uma pressão no abdômem crescia. Uma pressão que embaraçava sua racionalidade cada vez mais duvidosa.
Passou a ponderar sobre a validade da boa educação e do equilíbrio – tão valorizados na teoria – que lhe impunham agora uma espera opressiva e mantinham sua inexistência.
É isto. Entendeu que nenhum documento, endereço, telefone…denunciam a existência humana, não nos acolhem ou nos localizam no mundo; tampouco sua ausência à mesa era capaz de denotar sua existência. O que nos anuncia, enquanto vivos e presentes, é a linguagem.

A existência depende de um testemunho ancorado nas linguagens ? Testemunho?

Sem mais constrangimentos, Anna começou a chamar alguém comedidamente; persistindo sua ausência ante a nenhum testemunho de sua situação, passou a gritar como uma louca, esmurrando uma porta inocente e inerte. Em coro com seu desespero, a explosão sonora de pontapés nos baldes, encurralados nas quatro paredes, quase destruídos.
De repente, uma resposta: “nossa!…tem alguém preso no banheiro. Espera, senhora, vou chamar a gerente.” Como instantâneo, Anna serenou e calmamente sentou-se no vaso coberto.

Existia ! Foi testemunhada.
E com uma polidez urgente, completou: “não se preocupem; tenham calma. Eu espero.”

criado por sydowmonica    15:08 — Arquivado em: Crônicas
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Am I a spambot? yes definately
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