6/10/08
SARAMAGO
Prof. Dr. Alfredo Monte
“… está visto que aqui já ninguém pode se salvar; a cegueira também é isto, viver num mundo onde se tenha acabado a esperança”.
…mais necessidade teríamos que estão vivos de ressurgir de si mesmos, e não o fazem. Já estamos meio mortos, disse o médico, Ainda estamos meio vivos, respondeu a mulher”.
Já repeti muitas vezes aqui nesta coluna que Ensaio sobre a Cegueira é o meu livro favorito de José Saramago, apesar de achar O ano da morte de Ricardo Reis sua maior obra, seguida de perto por Memorial do Convento e O Evangelho segundo Jesus Cristo. De qualquer maneira, esse romance de 1995, que agora volta à baila com a versão para o cinema de Fernando Meirelles, é um marco na produção do genial escritor português: a partir dele começou a se operar uma tendência à alegorização (algo geralmente estigmatizado pela crítica literária): trocando em miúdos, um núcleo alegórico é desenvolvido até as últimas conseqüências; em contrapartida, assiste-se igualmente a um processo pedagógico, no qual –entre perdas e danos— algo se aprende e fica com o leitor para sempre. Assim foi também com Todos os nomes, A caverna, Ensaio sobre a Lucidez (que prolonga o Ensaio sobre a Cegueira), As intermitências da morte. Essa série de livros representa o encontro mais conseqüente entre o ético e o estético dentro do panorama contemporâneo e me causa espanto que as pessoas se preocupem mais com a suposta estranheza da pontuação saramaguiana.
Como se sabe, Ensaio sobre a Cegueira narra uma epidemia de “cegueira branca” que leva o governo a isolar, num manicômio, os atingidos que, ali, vivenciarão os horrores daquilo a que se convencionou chamar de universo concentracionário (podemos lembrar imediatamente dos campos de concentração nazistas e stalinistas e, mais perto de nós, Guantanamo e Abu Ghraib): falta de respeito, descaso, estupidez, violência por parte das autoridades, picuinha pessoais, higiene precária e até mesmo uma quadrilha de cegos que toma o poder, extorquindo dinheiro e favores sexuais.
Duas pessoas ali estão e não são vítimas da “cegueira branca”: a esposa de um oftalmologista que insistiu em permanecer com o marido, e um cego normal, que ingressa na quadrilha.
Um incêndio jogará a mulher e um grupo de cegos nos escombros da civilização, pois o mal se alastrou, embora não seja definitivo (como é o apocalíptico universo mostrado no também esplêndido A estrada, de Cormac McCarthy).
Um grupo pungente, que tem como acréscimo um cão que passa a acompanhá-los e que bebe lágrimas (Saramago é um dos autores que mais pertinentemente incorporaram animais ao seu universo ficcional; não é à toa que um dos pontos mais fortes do seu “processo contra Deus” no Evangelho segundo Jesus Cristo seja a crueldade para com eles, basta lembrar dos sacrifícios no Templo).
Um grupo que, apesar de ninguém ser nomeado, vai se personalizando cada vez mais para o leitor, transcendendo o horror da massa indivisa e amorfa, tal como vemos em cenas como a seguinte: “As caixas de comida estavam juntas, empilhadas, mais ou menos no sítio onde a mulher do médico recolhera a enxada. Avancem, avancem, mandou o sargento. De modo confuso, os cegos procuravam pôr-se em fila para poderem avançar ordenadamente, mas o sargento gritou-lhes, As caixas não estão aí, larguem a corda, larguem-na, desloquem-se para a direita, a vossa, a vossa, estúpidos, não é preciso ter olhos para saber de que lado está a mão direita. O aviso foi dado a tempo, alguns cegos de espírito rigoroso tinham entendido a ordem à letra, se era a direita, logicamente teria de ser a direita de quem falava, por isso tentavam passar por debaixo da corda para irem à procura das caixas sabe Deus onde. Em circunstâncias diferentes, o grotesco espetáculo teria feito rir à gargalhada o mais sisudo dos observadores, era de morrer, uns quantos cegos a avançaram de gatas, de cara rente ao chão como suínos, uns braços adiante rasoirando o ar, enquanto outros, talvez com medo de que o espaço branco, fora da proteção do teto, os engolisse, se mantinham desesperadamente aferrados à corda e apuravam o ouvido, à espera da primeira exclamação que assinalaria o achamento das caixas. A vontade dos soldados era apontar as armas e fuzilar deliberadamente, friamente, aqueles imbecis que se moviam diante dos seus olhos como caranguejos coxos, agitando as pinças trôpegas à procura da perna que lhes faltava”.
Mas, como já afirmei em outras oportunidades, é improcedente pensar em Kafka e seguidores (Canetti, por exemplo), ou em autores do teatro do absurdo, entre os quais a cegueira é um assunto curiosamente bastante presente. A leitura de Saramago não leva ao desespero nem ao sentimento de impotência. Isso se deve principalmente à esposa de médico que não perde a visão e mesmo assim se submete ao apartheid sofrido por eles. Fiquei muito feliz quando soube que seria interpretada pela fantástica Julianne Moore (que além de ser uma grande estrela, ainda tem o hábito de roubar os filmes em que é coadjuvante), já que se trata da maior personagem feminina da ficção de nosso tempo.
criado por sydowmonica
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