TUDOPROSA

Crônicas, ensaios, contos, crítica literária, música… Tudo com um dedo de prosa. Porque “a vida inventa! A gente principia as coisas no não saber por quê… a vida é mutirão de todos, por todos remexida e temperada”. (Guimarães Rosa)

26/3/09

EU, MEU PSICANALISTA E A DOR

 

Tenho o olhar em frangalhos, a alma trôpega e pressa para desatar esta angústia atada no vazio.

São seis horas da tarde. Eu lhe falei que era urgente, que viria imediatamente. Eis-me aqui e ninguém para atender. Onde está o profissionalismo? Estes consultores da alma fazem coisas assim porque não há para quem reclamar, não há pesquisas de opinião a preencher, ou uma sigla como SAC a nos iludir.

Marcam a consulta, atestam nossa necessidade, nos aninham na ansiedade e… se atrasam. E… não chegam. E…

De outra, para tentar se ver livre de minha agitação incontida, a assistente, de um temerário desequilíbrio, retira-me de seu foco e me acomoda na sala dele, tão vazia como eu, e transmigra sabe-se lá para onde.

Acomodar-se é um luxo; quanto mais acomodar-se na vida. Esta vida que nem mesmo escolhi apesar de me acusarem de livre-arbítrio. Mas como ter um psicanalista é meu luxo necessário, acomodo-me então na sua poltrona.

Quem sabe daqui, neste contorno e perspectiva profissionais, não descubro o que ele sabe sobre mim, qual arquivo sensível acumulou de minhas horas de transbordamento.

O poeta de múltiplos nomes disse que agir é repousar ; e mais, que quando nos pomos a vaguear andamos certo e seguros. Pois então aqui ficarei, neste repouso com direito a divagações, esperando o próximo assalto. Indefeso, porém acomodado.

Por que assalto? Porque sou um homem do mundo, ativo e empreendedor; bem preparado para as coisas várias do mundo, para promover mudanças. Isto— para promover mudanças ! Tenho o poder, não do mando e do desmando, mas o poder da mudança.

Na minha órbita tudo se movimenta, porque sei e posso mover espíritos, desejos e agendas de vida. É verdade que tanto movimento causa fricção… Mas é isto a vida ; gosto de viver neste liquidificador existencial. Tem gente que tem psicanalista e drogas para movimentar-se na própria vida, para experimentar a euforia do movimento. Pois tenho ambos para despressurizar, para me alinhar. Segundo o ausente da hora, causo fricção demais e bebo do atrito.

Isto é o que diz ; se concordo, é outra coisa. Se aceito esta aporrinhação da espera, nesta sala inerte e sorumbática, é por causa dos assaltos que sofro, ora vejam!, assaltos do tédio.

Isso mesmo. Não, não me pergunte por quê. Pois venho aqui me humilhar três vezes por semana justamente para aprender a me safar desse desacelerador humano.

Como posso defini-lo? Vejamos, afinal, hoje estou em posição de discorrer e analisar esse tédio inconveniente, já que mudei de lugar e perspectiva.

Vejo-o como uma descontração oportunista; sim, porque se aproveita das oscilações do movimento e da adorável atividade contínua, para impor um vazio, uma ausência de mim no mundo. É assim: fico muito presente em mim mesmo, não sei o que fazer comigo.

O movimento me distrai; já o tédio coloca-me no foco, no centro da razão de viver. E sou assaltado, isto mesmo — sou assaltado pela minha vida.

Se o ausente estivesse presente nesta consulta solitária, diria ele que sou assaltado pela minha vida real e a chama, o pobre homem, de vida interior. Pode haver algo mais vago, mais tedioso… Como posso ter vida interior se não domino seu movimento? Qual movimento?

Daqui, desta perspectiva de consolador de almas, tampouco entendo o tédio. Mas tenho uma certeza : este ocupa mais espaço quanto mais avanço na idade. Mais moços, BEM mais moços, movemo-nos em águas marítimas a todo instante para manter-nos à tona, para descobrir os segredos e encantos dos horizontes. E com a idade, estes horizontes nos pedem a contemplação; e o movimento, a deliciosa atividade, tem de submeter-se… submeter-se ao…, acho que ao… submeter-se ao ser.

Gosto da vida ativa; e aquele poeta indeciso ainda disse que agir é repousar. Disse mais, que o visionário é o verdadeiro homem ativo.

Escapa à minha compreensão. O ausente insiste que não conheço a experiência, que não sei vivê-la, ela escorre de meus dias pelas fendas da atividade.

E ainda pago para ouvir isto. Na minha idade, dizer que não vivo experiências…; que não sei percebê-las ou concretizá-las.

Confesso que por vezes sinto náuseas. O tédio me causa grande náusea. É como se ele chamasse minha atenção pela reação e sofrimento físicos.

É como… como…, seria…

- Mas… claro !, como nunca pensei nisso antes? Ele quer chamar minha atenção e quer que eu aceite o desafio. Quer chocar os ovos de minhas experiências. Claro!, o tédio me quer para me devolver ao extraordinário.

Céus, como tenho sido ordinário… Como tenho sido sempre o mesmo em atividade.

Que dor !!

criado por sydowmonica    16:30 — Arquivado em: Sem categoria

4/9/08

DOSSIÊ FREUD

Prof. Dr. Alfredo Monte

Em 1908, enquanto O caráter e o erotismo anal atraía indignação e ridículo ao ser publicado, a chamada “Sociedade Psicológica das Quarta-feiras”, círculo que se reunia em Viena em torno do autor do ousado ensaio, Sigmund Freud (1856-1939), tornou-se a “Sociedade Psicanalítica de Viena”; e em abril do mesmo ano ocorrerá o Primeiro Congresso Internacional de Psicanálise, já com 42 participantes, diante dos quais um nada ridicularizado e nada coberto de ridículo “Pai” do movimento psicanalítico apresentará suas Observações sobre um caso de Neurose Obsessiva, relatando o famoso caso do Homem dos Ratos.
Muita gente pensa ser difícil ler Freud sem o devido instrumental. Não é. Como Harold Bloom já demonstrou, trata-se de um grande escritor, além do maior gênio do último século. Mesmo assim, há uma “oscura selva” formada pelos vários períodos em que os conceitos freudianos foram sendo apresentados e revistos, e mesmo a leitura de obras como A interpretação dos sonhos; Psicopatologia da vida quotidiana; O chiste e sua relação com o inconsciente; Totem e Tabu; Luto e Melancolia ou O ego e o id, que considero essenciais, representa um investimento intelectual parcial e fragmentário. O que me ajudou muito foram alguns livros que serviram para compensar em parte minhas lacunas, como Freud, uma vida para o nosso tempo, de Peter Gay; As idéias de Freud, de Richard Wolheim; Freud, além da alma, de Jean-Paul Sartre (que forneceu a matéria prima para o extraordinário filme de John Huston, com Montgomery Clift); A negação da morte, de Ernest Becker; Freud: a trama dos conceitos & Freud, pensador da cultura, de Renato Mezan. Só que são todos aventuras de leitura, isto é, livros totalizantes e tantalizantes que demandam muita concentração e agregam muitas outras leituras consigo.
Para o leitor comum, desejoso de uma introdução mais simples e prática, porém não completamente esquemática, há uma opção simpática que saiu recentemente: Dossiê Freud, de Elizabeth Mednicoff 1 , onde podemos encontrar os acertos e erros dos trabalhos de divulgação.
O livro é dividido em quatro partes. A primeira é mais biográfica, contextualizando Freud em sua época e cidade, e sintetizando os percalços da sua carreira e da constituição do movimento psicanalítico. Há coisas banais e rasas como uma seção de triviais “frases famosas” (pobre Freud, cuja escrita era tão elegante e complexa!) e uma incômoda falta de polimento, como se o texto fosse escrito aos trambolhões e não houvesse um esforço maior de revisão, de forma a evitar repetições da mesma informação (pior ainda, com a mesma formulação) e escorregadas para o tom de revista Marie Claire, do tipo: “Mostrava-se muitas vezes um homem inseguro, inibido, possessivo e ciumento. Apesar de suas idéias revolucionárias na época, era conservador com relação às mulheres, fazendo comentários que enalteciam os serviços das mulheres dentro de casa e não fora dela”. Após ter escrito tal trecho, sem a menor transição lemos em seguida: “Freud, acima de tudo, foi corajoso, determinado e desbravador.” Ora, ora, ora, ela acabara de fazer uma observação que abre uma fissura contraditória na personalidade (fascinante, aliás) de Freud e depois faz tal panegírico tosco, e desconexo completamente com as afirmações imediatamente anteriores!
A segunda já é mais redentora (embora com a mesma falta de cuidado com a escrita que horrorizaria o autor de O futuro de uma ilusão), com uma exposição clara dos principais conceitos elaborados por Freud, desde a sua concepção neurológica, arrojada para a sua época, do cérebro, com neurônios e descargas de energia, que se associou ao estudo inicial do fenômeno da histeria e dos estados psicopatológicos, até o aprofundamento de uma divisão da vida simbólica do indivíduo, desde a mais remota infância, um processo caracterizado pela repressão e pelas chamadas fases (oral, anal, fálica e genital), que constroem o universalmente conhecido “Complexo de Édipo”, e polarizado pela pressão exercida sobre o ego pelo id e pelo superego:

“O id é o sistema original, a matriz, de onde o ego e o superego vão se desenvolver posteriormente. É formado pelos aspectos psicológicos herdados e presentes no nascimento, incluindo os instintos… está voltado a satisfazer nossas necessidades básicas. Sua atividade consiste em impulsos que buscam o prazer, procurando adquirir a gratificação e não suportando a frustração. É aquele nosso lado instintivo que não mede as conseqüências dos atos para se satisfazer. Os conteúdos do id são quase todos inconscientes e incluem aspectos que nunca se tornaram conscientes e outros que foram considerados inaceitáveis pelo consciente (…) Entretanto, à medida que a criança vai crescendo, aprende que precisa se adaptar às exigências e condições impostas pelo meio em que vive, pois nem tudo que deseja consegue. O id não deixa de existir, ele nos acompanha e permanece em nossa vida adulta. Mas para que ocorra essa adaptação [ao princípio da Realidade, subjugando o princípio do Prazer], uma nova parte do aparelho psíquico se desenvolve a partir do id: o ego, cuja principal função é agir como intermediário entre o id e o mundo externo. É o ego que aprende a controlar e regular os impulsos do id… A criança continua a se desenvolvendo e descobre que existem normas, regras, padrões, de moralidade tanto dos pais quanto da sociedade. Então começa a ouvir as proibições, o que é feio, o que é vergonhoso, e assim acaba incorporando essas crenças à estrutura psíquica, formando, a partir do ego, o superego, o qual, então, passa a exercer um papel, vamos dizer assim [sic] de censura imediata… O superego, portanto, é o oposto do id. Enquanto o id vive satisfazendo as necessidades imediatas, o superego funciona reprimindo. Nenhum deles é realista e imaginem a confusão, já que duas partes da nossa personalidade são completamente opostas e, assim, geradora de conflitos. Com o passar do tempo, tais conflitos emocionais, problemas mal resolvidos e as disputas entre o id e o superego na infância vão gerando as neuroses que temos quando adultos.”

A terceira parte descreve os métodos desenvolvidos por Freud a partir do abandono da hipnose (para curar os sintomas histéricos, na pré-história da Psicanálise), já que suas teorias também envolvem a prática clínica.
O achado mais feliz é colocar na quarta parte alguns casos clínicos famosos, que ajudaram Freud na constituição e revisão dos seus maiores insights (Anna O., a qual foi paciente de Josef Breuer, um dos mentores de Freud, e que teve a duvidosa honra de ter sido escolhido por Irvin D. Yalon como protagonista de Quando Nietzsche chorou; O homem dos ratos; o pequeno Hans; Elizabeth Von R.; Dora; o homem dos lobos). Depois, há uma bobagem típica da nossa era de iluminações-miojo e auto-ajuda fast food: conselhos para uma auto-análise psicanalítica. Tudo bem que foi assim que Freud revolucionou a si mesmo, escrevendo o seu belíssimo Interpretação dos sonhos, porém da maneira como a receitinha é proposta só vai fazer Nietzsche chorar mais ainda.

criado por sydowmonica    15:24 — Arquivado em: Sem categoria
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