TUDOPROSA

Crônicas, ensaios, contos, crítica literária, música… Tudo com um dedo de prosa. Porque “a vida inventa! A gente principia as coisas no não saber por quê… a vida é mutirão de todos, por todos remexida e temperada”. (Guimarães Rosa)

18/2/09

O COELHO CONTINUARÁ - JOHN UPDIKE

Prof. Alfredo Monte
 
 
Nas últimas décadas, John Updike e Philip Roth foram os dois grandes rivais ao título de maior escritor norte-americano vivo, em carreiras paralelas, ambos prolíficos e brilhantes. Guardadas as devidas proporções, um pouco como Tolstói e Dostoiévski na Rússia do século XIX. Agora, com a morte de Updike, com certeza o judeu Roth deve estar se sentindo mais sozinho no mundo, sem a sua “sombra”, seu Outro protestante.

    Updike publicou em diversas áreas, entretanto não há dúvidas de que se destacou como um mestre do romance. Quando eu o li pela primeira vez (O Golpe), achei-o tão ruim que me chocou a afirmação de alguém (já não lembro quem) de que era um escritor tão bom quanto Flaubert. Por isso, demorei um pouco para reconhecer que a afirmação não estava tão longe assim da verdade, mas aí tive a sorte de me ocupar com uma série de belíssimos romances (Coelho corre, Roger´s Version, O sabá das feiticeiras).
    Sua grande realização foi a tetralogia a respeito de Harry Angstrom (da qual boa parte da crítica não gosta), na qual faz um retrato definitivo da 2ª. metade do século nos EUA: Coelho corre (1960), Coelho em crise (1971), o sensacional Coelho cresce (1981) e Coelho cai (1990). Há um epílogo em forma mais breve, numa coletânea de histórias, Coelho se cala (2000), que eu não li ainda. Não quero ficar órfão do Coelho tão cedo…
       Nessa linha, há os admiráveis Casais trocados (este, de 1968, apresenta certa irregularidade, que é preciso relativizar para o leitor brasileiro, já que foi mal e porcamente traduzido e editado) e Na beleza dos lírios (1996), este talvez seu romance mais bonito (talvez seja o meu favorito), ao acompanhar uma família durante um século, da perda de fé de um pastor até a estranha conexão entre fundamentalismo e armas que sustenta uma parcela do triunfalismo da ideologia norte-americana. Essa perda da transcendência e o vácuo espiritual em que nos movimentamos também geraram romances como Um mês só de domingos (1971), Roger´s Version (1987; Pai Nosso Computador, aqui no Brasil!!!??), S. (1988) e o recentíssimo Terrorista (2006). Não se pode esquecer também do seu “quase romance”, seu momento “quase Roth”, Bech no beco, cuja última versão é de 1998, e que eu também não terminei, não querendo ficar órfão de Bech tão cedo… 

    De vez em quando, Updike fazia experimentações: escreveu o incompreensível O centauro (1963), criou um país africano em O golpe (1978), fez uma atualização da história de Tristão e Isolda ambientada no nosso país (Brazil, 1994), recriou as vidas de personagens de Hamlet, em Gertrudes e Cláudio (2000). Honestamente, algo desandou nesses textos (porém, o livro mais chato que li dele foi mesmo Memórias em branco- Memories of the Ford administration, de 1992), apesar do capricho da prosa; o bom era ver que ele não sossegava, sempre procurava novas estratégias, como se tentasse fugir do mundo sufocante do seu Coelho que corria, entrava em crise, crescia, caía e depois se calava. Em 1984, essa fuga do realismo e ao mesmo tempo as obsessões updikianas se uniram num livro maravilhoso e original, O sabá das feiticeiras, do qual extraíram o filme As bruxas de Eastwick, só que estamos num território totalmente diferente daquele em que Jack Nicholson pode exibir seu histrionismo repetitivo em meio a efeitos especiais um tanto gratuitos. Humor, densidade, a vida nas cidadezinhas americanas, o vazio espiritual, experimentação ficcional, tudo transforma esse sabá num superior exercício de literatura.
    E agora, Philip Roth? Dostoiévski fica sem Tolstói (invertendo o que aconteceu com a dupla russa). Bech num beco sem saída?
 
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O COELHO CONTINUARÁ - JOHN UPDIKE

Prof. Alfredo Monte
 
 
Nas últimas décadas, John Updike e Philip Roth foram os dois grandes rivais ao título de maior escritor norte-americano vivo, em carreiras paralelas, ambos prolíficos e brilhantes. Guardadas as devidas proporções, um pouco como Tolstói e Dostoiévski na Rússia do século XIX. Agora, com a morte de Updike, com certeza o judeu Roth deve estar se sentindo mais sozinho no mundo, sem a sua “sombra”, seu Outro protestante.

    Updike publicou em diversas áreas, entretanto não há dúvidas de que se destacou como um mestre do romance. Quando eu o li pela primeira vez (O Golpe), achei-o tão ruim que me chocou a afirmação de alguém (já não lembro quem) de que era um escritor tão bom quanto Flaubert. Por isso, demorei um pouco para reconhecer que a afirmação não estava tão longe assim da verdade, mas aí tive a sorte de me ocupar com uma série de belíssimos romances (Coelho corre, Roger´s Version, O sabá das feiticeiras).
    Sua grande realização foi a tetralogia a respeito de Harry Angstrom (da qual boa parte da crítica não gosta), na qual faz um retrato definitivo da 2ª. metade do século nos EUA: Coelho corre (1960), Coelho em crise (1971), o sensacional Coelho cresce (1981) e Coelho cai (1990). Há um epílogo em forma mais breve, numa coletânea de histórias, Coelho se cala (2000), que eu não li ainda. Não quero ficar órfão do Coelho tão cedo…
       Nessa linha, há os admiráveis Casais trocados (este, de 1968, apresenta certa irregularidade, que é preciso relativizar para o leitor brasileiro, já que foi mal e porcamente traduzido e editado) e Na beleza dos lírios (1996), este talvez seu romance mais bonito (talvez seja o meu favorito), ao acompanhar uma família durante um século, da perda de fé de um pastor até a estranha conexão entre fundamentalismo e armas que sustenta uma parcela do triunfalismo da ideologia norte-americana. Essa perda da transcendência e o vácuo espiritual em que nos movimentamos também geraram romances como Um mês só de domingos (1971), Roger´s Version (1987; Pai Nosso Computador, aqui no Brasil!!!??), S. (1988) e o recentíssimo Terrorista (2006). Não se pode esquecer também do seu “quase romance”, seu momento “quase Roth”, Bech no beco, cuja última versão é de 1998, e que eu também não terminei, não querendo ficar órfão de Bech tão cedo… 

    De vez em quando, Updike fazia experimentações: escreveu o incompreensível O centauro (1963), criou um país africano em O golpe (1978), fez uma atualização da história de Tristão e Isolda ambientada no nosso país (Brazil, 1994), recriou as vidas de personagens de Hamlet, em Gertrudes e Cláudio (2000). Honestamente, algo desandou nesses textos (porém, o livro mais chato que li dele foi mesmo Memórias em branco- Memories of the Ford administration, de 1992), apesar do capricho da prosa; o bom era ver que ele não sossegava, sempre procurava novas estratégias, como se tentasse fugir do mundo sufocante do seu Coelho que corria, entrava em crise, crescia, caía e depois se calava. Em 1984, essa fuga do realismo e ao mesmo tempo as obsessões updikianas se uniram num livro maravilhoso e original, O sabá das feiticeiras, do qual extraíram o filme As bruxas de Eastwick, só que estamos num território totalmente diferente daquele em que Jack Nicholson pode exibir seu histrionismo repetitivo em meio a efeitos especiais um tanto gratuitos. Humor, densidade, a vida nas cidadezinhas americanas, o vazio espiritual, experimentação ficcional, tudo transforma esse sabá num superior exercício de literatura.
    E agora, Philip Roth? Dostoiévski fica sem Tolstói (invertendo o que aconteceu com a dupla russa). Bech num beco sem saída?
 
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12/2/09

OS IRMÃOS KARAMÁZOV

Prof. Alfredo Monte

Com o lançamento de Os Irmãos Karamázov chega ao ponto mais alto a série de traduções que Paulo Bezerra está fazendo (diretas do russo) da obra de Dostoiévski, já que se trata do maior romance da literatura mundial, ao lado de Guerra & Paz e Madame Bovary.
É a história de um parricídio: o brutal, grosseiro e bufão Fiódor Pávlovitch (um personagem meio shakesperiano, meio balzaquiano, absolutamente extraordinário) é assassinado e a culpa recai sobre o filho mais velho, o sensual e desbragado Dmitri, mas os outros filhos também poderiam ter cometido o crime: o místico e suave Aliócha (que seria o suposto “herói” da narrativa), o hiperintelectualizado e niilista Ivan e o bastardo Smierdiákov (uma mistura de Iago com Caliban).
Além de ser um painel perturbador das contradições sociais e espirituais da Rússia imperial, um alucinante clima simbólico perpassa Os Irmãos Karamázov, com Dostoiévski mostrando extremos da condição humana. Dois personagens reúnem-se aos Karamázov para que o livro consiga esse efeito: Grúchenka, pomo da discórdia entre Fiódor e Dmitri, e o stárietz Zossima, um santo homem. Através do triângulo formado pelo assassinado, Dmitri e Grúchenka descortina-se o papel das pulsões sexuais na nossa existência, mesmo que as racionalizemos (como fez a cultura ocidental por séculos). O stárietz, por sua vez, representa o dilema da espiritualidade, o salto da fé, e nem ele, humano, demasiado humano, é poupado: quando morre, seu corpo começa a feder de maneira intolerável e blasfema. Zóssima é o contraponto de Fiódor Pávlovitch para que Aliócha possa se tornar o princípio positivo do romance. Aliás, a obra-prima suprema de Dostoiévski foi um marco na literatura ao mostrar inequivocavemente que nós somos porque nos confrontamos com a consciência alheia. É o que o grande pensador russo Mikhail Bakhtin (o qual escreveu um estudo fundamental sobre a poética de Dostoiévski) denomina dialogismo, fazendo da vocação mais significativa do romance (enquanto arte narrativa) a polifonia: a estratificação da narrativa em várias vozes que se entrechocam, entredevoram-se (nenhuma delas tendo preponderância hierárquica sobre as outras) e criam um efeito de amplitude como nunca se viu antes na milenar atividade de contar histórias.
Quando se escreve sobre Os Irmãos Karamázov (e ainda mais nestes tempos dominados pelo pensamento e pela figura de Nietzsche, o Dostoiévski da filosofia) nunca se deixa de ter em mente o desnorteante capítulo sobre O Grande Inquisidor, no qual Dostoiévski demole as igrejas enquanto instituições, colocando-as como a grande impostura da Humanidade. A certa altura, afirma-se que o paraíso não vale uma lágrima de criança. E atinge-se aquela revolta que Albert Camus considerava a mais nobre virtude do homem: “Por que entre eles [padres] não poderia aparecer nenhum sofredor, atormentado pela grande tristeza, e que amasse a humanidade? Supõe que entre esses que só desejam bens materiais e sórdidos tenha aparecido ao menos um como meu velho Inquisidor, que comeu ele mesmo raízes no deserto e desatinou tentando vencer a própria carne para se tornar livre e perfeito, mas, não obstante, depois de passar a vida inteira amando a humanidade, de repente lhe deu o estalo e percebeu que é bem reles o deleite moral de atingir a perfeição da vontade para certificar-se ao mesmo tempo de que para os milhões de outras criaturas de Deus sobrou apenas o escárnio, de que estas nunca terão condições de dar conta de sua liberdade, de que miseres rebeldes nunca virarão gigantes para construir a torre, de que não foi para esses espertalhões que o grande idealista sonhou a sua harmonia”.

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6/10/08

SARAMAGO

 Prof. Dr. Alfredo Monte

“… está visto que aqui já ninguém pode se salvar; a cegueira também é isto, viver num mundo onde se tenha acabado a esperança”.
…mais necessidade teríamos que estão vivos de ressurgir de si mesmos, e não o fazem. Já estamos meio mortos, disse o médico, Ainda estamos meio vivos, respondeu a mulher”.

Já repeti muitas vezes aqui nesta coluna que Ensaio sobre a Cegueira é o meu livro favorito de José Saramago, apesar de achar O ano da morte de Ricardo Reis sua maior obra, seguida de perto por Memorial do Convento e O Evangelho segundo Jesus Cristo. De qualquer maneira, esse romance de 1995, que agora volta à baila com a versão para o cinema de Fernando Meirelles, é um marco na produção do genial escritor português: a partir dele começou a se operar uma tendência à alegorização (algo geralmente estigmatizado pela crítica literária): trocando em miúdos, um núcleo alegórico é desenvolvido até as últimas conseqüências; em contrapartida, assiste-se igualmente a um processo pedagógico, no qual –entre perdas e danos— algo se aprende e fica com o leitor para sempre. Assim foi também com Todos os nomes, A caverna, Ensaio sobre a Lucidez (que prolonga o Ensaio sobre a Cegueira), As intermitências da morte. Essa série de livros representa o encontro mais conseqüente entre o ético e o estético dentro do panorama contemporâneo e me causa espanto que as pessoas se preocupem mais com a suposta estranheza da pontuação saramaguiana.
Como se sabe, Ensaio sobre a Cegueira narra uma epidemia de “cegueira branca” que leva o governo a isolar, num manicômio, os atingidos que, ali, vivenciarão os horrores daquilo a que se convencionou chamar de universo concentracionário (podemos lembrar imediatamente dos campos de concentração nazistas e stalinistas e, mais perto de nós, Guantanamo e Abu Ghraib): falta de respeito, descaso, estupidez, violência por parte das autoridades, picuinha pessoais, higiene precária e até mesmo uma quadrilha de cegos que toma o poder, extorquindo dinheiro e favores sexuais.
Duas pessoas ali estão e não são vítimas da “cegueira branca”: a esposa de um oftalmologista que insistiu em permanecer com o marido, e um cego normal, que ingressa na quadrilha.
Um incêndio jogará a mulher e um grupo de cegos nos escombros da civilização, pois o mal se alastrou, embora não seja definitivo (como é o apocalíptico universo mostrado no também esplêndido A estrada, de Cormac McCarthy).
Um grupo pungente, que tem como acréscimo um cão que passa a acompanhá-los e que bebe lágrimas (Saramago é um dos autores que mais pertinentemente incorporaram animais ao seu universo ficcional; não é à toa que um dos pontos mais fortes do seu “processo contra Deus” no Evangelho segundo Jesus Cristo seja a crueldade para com eles, basta lembrar dos sacrifícios no Templo).
Um grupo que, apesar de ninguém ser nomeado, vai se personalizando cada vez mais para o leitor, transcendendo o horror da massa indivisa e amorfa, tal como vemos em cenas como a seguinte: “As caixas de comida estavam juntas, empilhadas, mais ou menos no sítio onde a mulher do médico recolhera a enxada. Avancem, avancem, mandou o sargento. De modo confuso, os cegos procuravam pôr-se em fila para poderem avançar ordenadamente, mas o sargento gritou-lhes, As caixas não estão aí, larguem a corda, larguem-na, desloquem-se para a direita, a vossa, a vossa, estúpidos, não é preciso ter olhos para saber de que lado está a mão direita. O aviso foi dado a tempo, alguns cegos de espírito rigoroso tinham entendido a ordem à letra, se era a direita, logicamente teria de ser a direita de quem falava, por isso tentavam passar por debaixo da corda para irem à procura das caixas sabe Deus onde. Em circunstâncias diferentes, o grotesco espetáculo teria feito rir à gargalhada o mais sisudo dos observadores, era de morrer, uns quantos cegos a avançaram de gatas, de cara rente ao chão como suínos, uns braços adiante rasoirando o ar, enquanto outros, talvez com medo de que o espaço branco, fora da proteção do teto, os engolisse, se mantinham desesperadamente aferrados à corda e apuravam o ouvido, à espera da primeira exclamação que assinalaria o achamento das caixas. A vontade dos soldados era apontar as armas e fuzilar deliberadamente, friamente, aqueles imbecis que se moviam diante dos seus olhos como caranguejos coxos, agitando as pinças trôpegas à procura da perna que lhes faltava”.
Mas, como já afirmei em outras oportunidades, é improcedente pensar em Kafka e seguidores (Canetti, por exemplo), ou em autores do teatro do absurdo, entre os quais a cegueira é um assunto curiosamente bastante presente. A leitura de Saramago não leva ao desespero nem ao sentimento de impotência. Isso se deve principalmente à esposa de médico que não perde a visão e mesmo assim se submete ao apartheid sofrido por eles. Fiquei muito feliz quando soube que seria interpretada pela fantástica Julianne Moore (que além de ser uma grande estrela, ainda tem o hábito de roubar os filmes em que é coadjuvante), já que se trata da maior personagem feminina da ficção de nosso tempo.

criado por sydowmonica    17:44 — Arquivado em: Literatura

4/8/08

JANE AUSTEN: POPULARIDADE E GENIALIDADE

 

Prof. Dr. Alfredo Monte

 

Abordando geralmente gente provinciana, com interesses limitados e pequenas intrigas, é impressionante como Jane Austen desperta interesse e, segundo os livreiros, mantém invejável vendagem para quem morreu há quase duzentos anos (em 1817). O recente fenômeno de Persuasão, até então um dos seus livros menos conhecidos, mostrou isso. Nem Dickens, que há poucas décadas era o gênio inglês e universal do século XIX, é agora páreo para a autora de Emma. É a popularidade unida à genialidade

Orgulho e Preconceito reaparece agora em edição bilíngüe e bem cuidada, embora com uma capa apelativa (chamando a atenção para a recente e fraquinha adaptação cinematográfica). O trunfo dessa obra-prima de 1813 é sua heroína Elizabeth Bennet. Ela pertence a uma família com muitas filhas (cinco), todas sem dote, e cuja propriedade, com a morte do preguiçoso pai, passará para um distante e insuportável parente masculino, Mr. Collins (o qual, a certa altura da trama, resolve pedir a mão de Elizabeth, como se fosse um grande favor que fizesse a ela, e na mente de todos era mesmo): “A senhora deve levar em conta que, apesar dos seus múltiplos atrativos, nada garante que outra proposta de casamento lhe seja feita algum dia”.

Assim como o Machado de Assis de A mão e a luva (um romance que poderia ter sido assinado por Austen), é implacável a precisão e lucidez com que ela caracteriza uma sociedade em que cada um é prisioneiro da sua condição social e sexual, em que o mais rasteiro cálculo materialista dita as regras, e que talvez seja (ao contrário do que se pensa) menos hipócrita do que a nossa, regida da mesma forma, porém colocando em prática outros discursos.
Quem tem perfeita consciência disso é Charlotte, a melhor amiga da Elizabeth que acaba casada com o tal Mr. Collins: “o casamento era ainda a forma mais agradável de se preservar da necessidade”.

O charme do enredo vem, com certeza, da transformação dos sentimentos mútuos entre Elizabeth e o a princípio antipático Mr. Darcy. Os diálogos entre ambos são páreos para o Shakespeare das melhores comédias dramáticas como O mercador de Veneza e Como gostais, que têm heroínas carismáticas também, Pórcia e Rosalind.
Quase rouba a cena o irônico e indolente pai dela, Mr. Bennet, que só faz a filha sofrer porque é um péssimo marido, cáustico e desdenhoso. Entretanto, só o amor de filha perdoaria uma mãe tão chata, que merece uma tirada como a seguinte, resposta à sua queixa da pouca compaixão do esposo pelos seus pobres nervos: “Está enganada, minha cara. Tenho um alto respeito pelos seus nervos. São meus velhos amigos. Ouço-a mencioná-los com consideração há pelo menos vinte anos”.


Quando será que relançarão Mansfield Park, a única grande obra de Austen que há anos está desaparecida das livrarias? Aí o leitor verá um espaço narrativo mais reduzido e concentrado ainda (uma propriedade), e o lado mais angustiado e denso do universo austeniano, sem o anteparo da espirituosidade. Que, no entanto, é sempre bem-vinda.

criado por sydowmonica    16:36 — Arquivado em: Literatura

6/6/08

CALDERÓN DE LA BARCA

 

Rei (espantado): Pois o Mundo o que fui tão cedo ignora?
Mundo: …volte a si, torne, saia tua pessoa
nua outra vez da farsa desta vida.
Rei: Tu não me deste adornos tão amados?
Como me tiras o que já me deste?
Mundo: Pois emprestados foram, mas não dados,
durante o tempo que o papel fizeste…
Rei: Que tenho de lucrar em meu proveito
de haver, no mundo, o rei representado?
                                 (Calderón de La Barca, O Grande Teatro do Mundo)

Na grande alegoria, escrita por volta de 1633, da qual foram tiradas as falas acima, o Autor chama o Mundo para mandar diversas personagens (Rei, Formosura, Discrição, Lavrador, Rico, Pobre, Criança, Lei) entrar e sair de cena. Quando o papel “acaba”, todos se igualam, para espanto do Rei. Assim, na metáfora do “grande teatro do mundo” o que se depreende é a chamada visão criatural ser humano, descrita por Auerbach, isto é, o rebaixamento da condição humana, onde todos se igualam pelo destino comum: a morte. É o velho tema do Eclesiastes: o caráter vão de todas as coisas.
O leitor brasileiro pode conhecer outra volta do parafuso no tema (talvez superior do ponto de vista da realização artística) escrita cerca de dois ou três anos mais tarde: saiu pela Hedra a tradução de Renata Pallotini de A vida é sonho, a qual, nos seus três atos (ou jornadas), se chegou a ser conhecida por Freud, certamente fez as delícias do criador da psicanálise como demonstração perfeita, quase matemática em sua poesia (alternada com a prosa), do “retorno do reprimido”.
Na primeira jornada, a moscovita Rosaura (acompanhada por Clarim, o alívio cômico, com sua visão chã e pícara dos acontecimentos) chega à Polônia disfarçada de homem (quer vingar sua honra) e conhece Segismundo, o qual vive numa masmorra desde o seu nascimento, vigiado por Clotaldo (que nomes deliciosos!). Duas inversões: uma, cara à tradição teatral, da moça disfarçada de homem; a outra, mais peculiar, a do moço guardado como uma donzela.
Qual o crime de Segismundo?
Mas eu nasci, e compreendo
que o crime foi cometido
pois delito maior
do homem é ter nascido.
Clotaldo, o verdadeiro pai de Rosaura, é obrigado a aprisioná-la e levá-la a Basílio, o Rei, que decidirá sua sorte, pois ninguém poderia saber da existência de Segismundo, a quem o Rei temia, mesmo sendo seu filho, pois lera nas estrelas que seu herdeiro lhe destruiria o reino; aprisionando-o, ele tenta suster os vaticínios celestes. Ao mesmo tempo, chega Astolfo, pretendente ao trono, fazendo a corte a Estrela, a outra herdeira (cuja mãe chamava Clorilene, irmã da “altaneira” Recisunda, mãe de Astolfo; e todos descendem de Eustórgio III). Acontece que foi Astolfo quem desonrou Rosaura…
Pois bem, Basílio decide libertar o filho e poupa Rosaura (que, instruída por Clotaldo, se disfarça em dama de companhia de Estrela). Como o Rei teme as ações de Segismundo, ele urde um plano: toda a sua estadia na Corte terá um “ar de sonho” e caso a experiência não se mostre bem sucedida, o herdeiro do trono será reconduzido à sua masmorra, acreditando que sonhara tudo.
A segunda jornada é talvez o ponto alto (altíssimo) de A vida é sonho. Clotaldo cumpre as determinações do Rei (“Deste modo poderemos verificar duas coisas: a primeira é a sua natureza, porque ele, acordado, pode fazer quanto pensa ou imagina; a segunda, é o consolo, pois ainda que agora seja obedecido e depois torne a sua prisão, poderá entender que sonhou, e isto lhe fará bem. De resto, Clotaldo, no mundo, todos os que vivem, sonham”) e Segismundo acorda príncipe após ter vivido como prisioneiro toda a vida. É um id que sempre esteve sob o jugo do superego (e nunca houve um ego formado, já que ele nunca viveu no mundo da experiência) e agora não há freios. Resultado: crueldade, desfaçatez, até um homicídio (um criado o admoesta e ele retruca: “Contra o meu gosto, nada me parece conveniente e justo”, mais tarde replica ao Rei: “Ainda que não te agrade/hei de prosseguir aqui/ Sei quem sou e o que já vi/ por mais que isso te enfade/…Se estive em prisão, primeiro/ morto de frio e de fome/ foi por não saber quem era/ mas como informado estou/ de quem sou, já que sou/misto de homem e de fera”), além da infame tentativa de estupro da já desonrada Rosaura, que acaba sendo defendida por Astolfo.
Dessa forma, Segismundo é dominado e reconduzido ao cárcere. No seu solilóquio final é que está a passagem mais famosa da peça, justificando amplamente seu título; antes disso, ele se auto-diagnostica com precisão para seu guardião Clotaldo: “Eu era senhor de todos, e a todos pedia desforra”.
Apesar da intensidade da 2ª jornada, a terceira mantém a qualidade e o brilho. Há uma revolta popular (o povo é visto como uma força negativa, é “desabrido e cego”) e parte do exército liberta Segismundo. Ele lidera então uma luta armada para derrubar seu pai do trono. Ao sair da prisão, Segismundo tem uma fala maravilhosa (prenúncio de sua mudança, ao final), dessa vez em prosa: “…já que a vida ´tão curta, sonhemos, alma, sonhemos outra vez, mas com a precaução de despertar deste engano na melhor altura, e de ver que ele acaba. Assim, consciente, será menor a desilusão… Atrevamo-nos a tudo, pois todo poder é emprestado e há de tornar ao seu legítimo dono.” Astolfo se une a Basílio, mas o exército de Segismundo os derrota (Clarim morre em combate: “De pouco vale tentar/da morte se defender/ sempre acaba por morrer/aquele que Deus mandar”). Segismundo, adotando o princípio da realidade, e não apenas guiando-se pelo princípio do prazer, restabelece o equilíbrio (“Porque espero obter outras grandes vitórias, vou alcançar a mais custosa hoje: vencer-me a mim próprio”): reconcilia-se com o pai, casa Astolfo com Rosaura (e Clotaldo revela ser o pai dela) e ele pede a mão de Estrela. Tudo está bem quando acaba bem. E quando funciona tão bem num texto ágil e jovem de quase 400 anos.

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5/5/08

LYGIA FAGUNDES TELLES

CIRANDA DE PEDRA

Prof. Alfredo Monte

Então teremos uma nova versão para a tevê de Ciranda de Pedra, o primeiro dos quatro excelentes romances de Lygia Fagundes Telles (que, além disso, é exímia contista). O que será que vai acontecer com a trama, revelada através do olhar de Virginia, filha bastarda de uma mãe que abandonou o lar para viver com o homem amado e que entretanto acaba vivendo com o falso pai? Um ponto-de-vista que servia em 1954 como instrumento de desmascaramento da hipocrisia e da podridão da sociedade burguesa tradicional.
Decerto há muito tempo os alicerces da burguesia já foram carcomidos. Ainda será surpresa para o leitor (e o espectador) de hoje descobrir que os jovens que encantam Virginia, alimentando seu sentimento de inferioridade e exclusão, vão se revelar ídolos com pés de barro? Conrado, seu amor infantil (e um tipo recorrente na obra da autora), é impotente; a virtuosa Bruna, uma das suas meio-irmãs, e a que mais condenava o comportamento materno, casa-se, mas mantém um caso com o tenista Rogério, o qual fica atraído por Virginia assim como o marido de Bruna, Afonso; Otávia, a outra irmã, é quase um símbolo do descaso e da desfaçatez; Letícia, a irmã de Conrado, optou pelo lesbianismo e também se interessa por Virginia, que passara a conviver novamente com todos, após anos num internato, e que dessa forma é insistentemente convidada a entrar na “estranha ciranda! Eram solidários e no entanto se traíam. Eram amigos e contudo se detestavam.”
Esse lado mais epidérmico, mais condicionado pela expectativa de um enredo ousado e transgressor, é superado totalmente pela brilhante construção do chamado “foco narrativo”. Ciranda de Pedra é uma das obras mais bem elaboradas e talentosas, quanto à técnica narrativa, da nossa ficção, e sem o aparato laborioso e afetado de autores que se esforçaram por alcançar tal sofisticação, caso de um José Geraldo Vieira, por exemplo. Nele pratica-se o “discurso indireto livre”, colando o discurso do narrador à percepção e linguagem da sua heroína de forma a garantir a adesão total do leitor ao seu processo de decifração dos códigos que regem a ciranda do seu grupo de familiares e amigos (e de um modo mais geral, do estrato social a que pertencem).
Mas Lygia vai mais além: praticamente em todos os capítulos, ao mesmo tempo em que acontece a cena presente, emergem reminiscências do passado, intuições do futuro, fantasias, recalques, de maneira “natural” e quase imperceptível. Cada momento se torna, assim, riquíssimo e ampliado. E também perfeitamente adequado a uma personagem que diz:“…sinto os meus mortos em redor. Eles continuam, embora nenhuma força consiga governá-los. Mortos e vivos estão todos por aí, completamente soltos. E a confusão é geral.”

 

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26/2/08

EMILY DICKINSON

Prof. Dr. Alfredo Monte

Uma cena que nunca esqueci do filme As setes faces do Dr. Lao é, por acaso, uma das poucas que a obra-prima de George Pal aproveitou fielmente do romance de Charles G. Finney, O circo do Dr. Lao: o protagonista, o misterioso chinês que chega com seu espetáculo a uma cidadezinha do Arizona, está descrevendo as características de uma de suas atrações principais, a Medusa. Uma robusta senhora o vitupera: “Não acredito em uma só palavra do que o senhor está dizendo. Nunca ouvi tanta bobagem junta em toda a minha vida. Gente virar pedra! Que idéia! Seu marido ainda tenta intervir, mas ela insiste: “Cale a boca, Luther. Digo o que quero e quando bem entender.” Para então ouvir a resposta do Dr. Lao: “Madame, a atitude de ceticismo não lhe cai bem. Há coisas no mundo que nem a experiência de toda uma vida passada em Abalone pode conceber.”
Pois bem, se o Dr. Lao armasse seu circo-mundo em Amherst, Massachussets, provavelmente não faria tal censura, pois toda uma vida ali passada não impediu que Emily Dickinson (1830-1886) escrevesse a poesia menos provinciana, mais desafiadoramente conceitual, concisa e arrojada, quase que se poderia dizer filosófica, repensando tudo em seus próprios termos (ela tem um arsenal terminológico peculiaríssimo) e dando a seus curtos poemas um aspecto inaugural, de renomeação do mundo, dos sentimentos, das idéias:

A Relva pouco tem a fazer-
Uma esfera de simples Verdura-
Com Borboletas somente a cuidar
E Abelhas a entreter-

E ondular o dia todo aos bonitos Sons
Que as Brisas arrastam-
E no colo do Raio de Sol
Cumprimentar cada coisa-

E trançar, cada noite, como Pérolas-
E fazendo isso com esmero
Que uma Duquesa não saberia
Estabelecer a diferença-

E então ao morrer- passar
Para Aromas tão divinos-
De Especiarias, curtidos-
Ou de Nardos, periclitantes-

E então, em Altivos Celeiros, restar-
E, sonhando, os Dias Findarem-
A Relva pouco tem a fazer
Eu desejaria ser Feno.

Duas novas seleções, vinte anos após a memorável centena de poemas na tradução de Dora Ferreira da Silva, permitem ao leitor brasileiro explorar um pouco mais esse cosmo criado pela genial e enigmática imaginação trancafiada por toda uma vida em Amherst: Poemas Escolhidos (L&PM) e Alguns Poemas (Iluminuras). Ainda longe a tradução integral dos 1.775 poemas, mas pelo número de textos incluídos em ambas as coletâneas (ambas bilíngües) já temos um avanço perceptível.

Eu moro na Possibilidade-
Uma Casa mais aprazível que a Prosa-
Mais numerosas Janelas-
E superior- em Portas-

De Câmaras como Cedros-
Inacessíveis ao Olhar-
E tendo como Perene Forro
Os Telhados do Céu-

Visitantes- os melhores-
Por Ocupação- Isto-
Abrir amplamente minhas estreitas Mãos
Para agarrar o Paraíso

Talvez só a poesia do seu conterrâneo, o igualmente original Wallace Stevens tenha certa similaridade, na economia da forma, na estranheza lexical e conceitual, na aparência de “neutralidade” que nos faz cair num estado de tabula rasa que logo se transforma em algo que não nos sai da cabeça por um bom tempo:

Quando você varrer aquele sagrado Armário-
Intitulado “Memória”-
Escolha uma reverente Vassoura-
E o faça em silêncio.

Será um Labor de surpresas-
Além da Identidade
De outros Interlocutores
Uma possibilidade-

Augusta a Poeira desse Domínio-
Intocada- deixe-a em repouso-
Você não pode removê-la
Mas ela pode silenciar você-

O Dr. Lao compreenderia de imediato, com sua sutileza e sabedoria, que encontrou a Medusa em Abalone, em vez de levá-la para lá. Corremos o risco de petrificar-nos com o olhar poético da Madame de Sade de Amherst, para utilizar a feliz expressão de Camille Paglia, que no seu fabuloso Personas Sexuais não deixa por menos: “Emily Dickinson e Walt Whitman, aparentemente tão dessemelhantes, são confederados tardo-românticos da União americana… Ambos são perversos canibais da identidade dos outros, Whitman em seus gulosos auto-empanturramentos e invasões dos quartos dos que dormem e estão doentes, Emily em seus pêsames ritualísticos e seu lúbrico connoisseurismo da morte. Voyeurismo, vampirismo, necrofilia, lesbianismo, sadomasoquismo, surrealismo sexual: a Madame de Sade de Amherst ainda espera que seus leitores a conheçam”
Não seja por isso, Madame Camille (afinal, estamos falando de alguém que escreveu: “Morri pela Beleza- mas estava somente/ Acomodada na Tumba…”):

O catavento um pouco a Leste
Afugenta Almas de Musselina – para longe-
Se corações de Seda são firmes-
Mais do que os de Organdi-

A quem culpar? Ao Tecelão?
Ah, os enganadores fios!
As Tapeçarias do Paraíso-
Invisivelmente- são tecidas.

E para encerrar, antes que fiquemos iguais à pobre estúpida senhora de Abalone, que paga para ver: “Bem, vou mostrar uma coisa. Vou desmascará-lo diante de toda essa gente, ora se vou”. Ela mete a cabeça no cubículo da “atração”: “…antes de poder pronunciar outra palavra já estava petrificada”:

Do Drama a mais Vívida Expressão é o Dia Comum
Que levanta e repousa sobre Nós-
Outra Tragédia

Dissipada na Declamação-
Isto – a melhor encenação-
Quando a Platéia se dispersa
E a Bilheteria fecha-

“Hamlet” seria Hamlet-
Ainda que não por Shakespeare escrito-
E “Romeu”, não através da Lembrança
De sua Julieta,

Seria infinitamente encenado
No Coração Humano-
Único teatro conhecido
Não fechado pelo Proprietário.

criado por sydowmonica    19:13 — Arquivado em: Literatura
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