TUDOPROSA

Crônicas, ensaios, contos, crítica literária, música… Tudo com um dedo de prosa. Porque “a vida inventa! A gente principia as coisas no não saber por quê… a vida é mutirão de todos, por todos remexida e temperada”. (Guimarães Rosa)

23/4/08

CHEGANÇA - II

Noite adentro

A seu modo, cada um dos dois amantes tratava de cuidar da sua apresentação, que não necessariamente teria de ser reduzida ao visual, mas que deveria revelar todo um modo de ser conveniente à conquista, toda uma sedução implícita no conjunto. Ambos, já vividos, sabiam que toda essa plumagem com que os amantes costumam pavonear-se, a seu tempo, oferece alguns desequilíbrios próprios das relações amorosas. Como trapezistas em ação, arriscaram agarrar, talvez, a barra errada.
Mas naquela noite a racionalidade era aborrecida e a novidade era mais persuasiva do que cada um deles para o outro. Etienne não era só o homem maduro, simpático e magnético que se destacava dentre os comuns. Era Etienne com todas as ordens e contra-ordens que disparava a quem estava próximo, era o animado contador de casos e comentarista para todos os assuntos, era a voz que tinha que predominar na cozinha e nas voltas do salão, o trocadilho picante que fazia rir e, ainda, a centelha trágica e mágica das horas que importam.
Stefânia, de seu lado, também cuidava de sua apresentação. Tratou de escolher uma roupa despretensiosa, mas que sugeria muita pretensão. O vestido, veladamente ambicioso, vestiu salto alto. Não muito; apenas o suficiente para reforçar a fêmea que estava por trás do pudor. Cuidou por fim do cheiro que deveria anunciar sua presença e ainda disputar com os aromas apetitosos fabricados por Etienne.
Nesse tempo de preparação, especulava para si quais os gestos mais adequados, as perguntas que poderiam retardar uma despedida, o olhar que anunciaria o desejo… Um e outro, no fundo, sabiam que havia ali uma certa desonestidade social e afetiva, ora justificada e aceita em nome das conquistas e da esperança de qualquer amante.

O gosto de ser

Na sala de refeições, quase todos os hóspedes já estavam imersos nas conversas animadas com vários acentos e sons musicais. Mais uma vez, ele conseguiu e justificou sua reputação: não estavam em nenhum café parisiense, mas aquilo já era uma festa, regada a vinhos, batidas de frutas da terra, sucos e a grande sensação da ouverture – as xícaras de café que rodopiavam abundantemente pelo salão, com caldo de peixe misturado à pinga, salpicado com salsinha. A novidade anunciava os sabores noturnos, provocava exclamações amáveis e arrancou do quarto a pronta mulher. A transitoriedade dos afetos e prazeres fora iniciada.
De posse de seu saboroso aperitivo e escorada pelo braço do verdadeiro anfitrião da noite, ela juntou-se ao grupo e aos assuntos que aproximavam os sujeitos.
De volta à cozinha, Etienne era assediado por seu público devoto. Stefânia permaneceu cativa do olhar dele e de seu projeto de sedução, tanto quanto o envolvia em seus sorrisos programados desde a definição de seu sexo. O pleito amoroso tem lá suas regras e prazos próprios.
Em paralelo, a culinária de Etienne tomava forma e dava fôrma à gula, conforme os acabamentos iam sendo dados e cozidos pelas suas mãos. Ele era toda alegria, porque entendia que nutrir o outro era um ato de generosidade. Em tempos de fácil individualização, desfrutar conjuntamente a riqueza do ócio, dos afetos, ansiedades, amizades, gostos, tornou-se quase uma experiência lúdica. Tempos difíceis esses.

Será que é bem, será que é mal

O ponto alto foi o momento em que o artesão da alegria dispôs no balcão que dividia a cozinha do salão de refeição, as saladas, na primeira fila, e os peixes com acompanhamentos, logo atrás.
Aquela oferta gastronômica, colorida, cheirosa e estimulante da felicidade era pura sedução, difícil não dedicar toda atenção. Mas o homem generoso que compôs na palheta-culinária as cores, os sopros, as texturas e sabores que se apresentavam ali em paralelo, ganhara de todos, mais do que atenção, o reconhecimento. Diante da acolhida efusiva dos presentes, uma alegria atravessara seu corpo e sua existência; talvez porque viesse acompanhada do sentimento de pertencimento.
Todos circulavam e disputavam brechas frente às travessas, sem pratos, sem pressa, esquecidos dos hábitos. Eram só olhos e entreolhares, silêncios individuais rompidos pelo esforço de adjetivar. Etienne registrava cada expressão que lhe era dirigida e dava a largada, entregando os pratos a cada convidado seu daquela noite. E eram todos, sem exceção.
Quando da vez de Stefância, ele entrou no percurso do jantar segurando o prato e acompanhando-a no corso que se estabeleceu. Sem consultá-la, foi servindo-a primeiro com as saladas, num prato menor. Numa segunda volta, ordenou o peixe e camarões ao molho de champagne, de um lado do prato, o purê de maça e o arroz com castanhas da região, de outro. Molho à parte e à sua medida. Ela sabia que ia gostar, ela estava gostando.
O mestre cozinheiro nada comeu. Repousou os braços sobre a mesa e seu olhar sobre o entusiasmo dela, aguardando um veredicto, uma daquelas análises detalhadas, quase técnicas, que ela sabia formular tão bem. Surpreendeu-se com apenas – “que bom estar aqui” – em voz baixa, estado confessional. Ele puxou para si um guardanapo de papel e escreveu “que bom que a conheci”. Ambos sabiam que havia ali um interlúdio amoroso.
Outros hóspedes sentados na mesma mesa, perguntavam onde ele havia aprendido a fazer coisas tão deliciosas. “Vivendo por aí e bem”, respondeu sem deixar de imprimir no comentário uma chancela narcisista. E acrescentou “o bom cozinheiro é, antes de tudo, um homem com talentos para comer bons pratos e saborear momentos”.
Seguiu-se aí um discurso sem palanque e oposição, com uma audiência, mais do que atenta, agradecida pelo que recebeu. Em pé, defendeu o direito à embriaguez sadia. Sentada, ela cruzou os talheres embriagada de desejos palpáveis.
Abandonando seguidores e admiradores, o homem grande e cheio das grandezas que o jantar lhe reservou, com uma barriga de respeito e mãos determinadas, delicadamente levou a convidada para um canto do salão sem cantos. Queria saborear agora… momentos.

criado por sydowmonica    15:15 — Arquivado em: Crônicas

26/2/08

A FIBRA, A VIDA, A PALAVRA

Carda – instrumento que serve para desembaraçar o cânhamo,
a lã, a fibra;

Cardar – desembaraçar ou pentear com carda; extorquir;
repreender com aspereza;

Cardápio – lista com preços, lista de pratos.

O chão é de terra. É barro, tijolo ou daquela poeira que a chuva mistura sem lavar. Lama mesmo. A cobertura é pequena, pouca. Nunca necessário foi ter teto. Melhor ter mãos, mesmo que estragadas. Mãos cortadas e calos pagos com a miséria.

Qualquer natureza sabe a mão faturar, obter dela coisa vária. Tem o jeito, o volteio, força de converter o que é natura em forma própria do homem. Mãos obreiras. E corpo cansado de viver. Um viver banal, que é também pentear a imperfeição.

E no ir e vir das mãos treinadas, põe-se a cardar. Desembaraça fibra por fibra. Desembaraça até os pensamentos que deixou ter.

Planta difícil essa, que, no fim dos esforços das mãos, é beleza fácil de se achar e cara de se ter. Planta local e parte dos seus horizontes. É o sisal. Resulta em formas de corda que apertam ou adornam as vidas que se tem. Outras vidas. Diferentes vidas. Distantes de todas as geografias.

Mas é preciso desarmar a dor para que não se desarme o amor, crenças. Também as esperanças tiradas do nada . E a distração das mãos nas horas neutras é listar palavras, uma após a outra. Armar conjuntos de palavras por seus sons, memórias, dons de inspirar…

Casa, capota, carta, Carlota e ainda carma, que é o seu. Tem tudo o mesmo iniciar. Pois que a escuta comprova o que o não saber ler impede.

Meia e meio, mel de melar, mó de moer e cortar. Mesma maneira de seu nome começar. O mesmo aperto dos lábios necessário para lhe chamar. Mulher.

E nas listas que formula na sua memória invariável, cientifica sobre sua preferência, gosto e vocação. Neste seu rol rolam dizeres a espera de um personagem; rodopiam nomes ainda por serem batizados; fluem idéias todas por serem arrumadas como o cânhamo, a lã, a fibra diária que a natureza impõe. E há que cardar.

As fibras em corte, em arranjo e em cor, por suas mãos amparam os desejos de outros, outras pessoas. São agora coisas; têm nomes e funções, lugares próprios e recomendados. Têm admiração e preço. E depois de tudo isso terem, não chegam a interpelar por sua vida. Mulher.
Coisas feitas por essa mulher que também viram listas, palavras escritas. Dizem, vira rol de produtos. Listas de preços. Tudo o que fermenta a fantasia de gente que vive no pleno.

Tudo muito longe das mãos que mascaram o sofrimento nato e os velhos esforços.

E já nas vitrines de outros mundos, as coisas manufaturadas estão expostas e compostas, acompanhadas de cardápios, nos quais as combinações estão listadas, ou sugeridas, e os preços cravados ao lado.

Cardápio que sugere uma indigestão consumista, moderna, onde os produtos não precisam ser descritos, não têm história nem origem.

Mas têm, ora vejam!, nomes, marcas, selos, grifes… E diferente dos restaurantes, ante as vitrines, há quem consuma o cardápio ao invés dos pratos que designa. Por isso a sensação de vazio, que chuva nenhuma lava e preenche, que carda alguma desembaraça.

criado por sydowmonica    19:02 — Arquivado em: Crônicas
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