12/2/09
OS IRMÃOS KARAMÁZOV
Prof. Alfredo Monte
Com o lançamento de Os Irmãos Karamázov chega ao ponto mais alto a série de traduções que Paulo Bezerra está fazendo (diretas do russo) da obra de Dostoiévski, já que se trata do maior romance da literatura mundial, ao lado de Guerra & Paz e Madame Bovary.
É a história de um parricídio: o brutal, grosseiro e bufão Fiódor Pávlovitch (um personagem meio shakesperiano, meio balzaquiano, absolutamente extraordinário) é assassinado e a culpa recai sobre o filho mais velho, o sensual e desbragado Dmitri, mas os outros filhos também poderiam ter cometido o crime: o místico e suave Aliócha (que seria o suposto “herói” da narrativa), o hiperintelectualizado e niilista Ivan e o bastardo Smierdiákov (uma mistura de Iago com Caliban).
Além de ser um painel perturbador das contradições sociais e espirituais da Rússia imperial, um alucinante clima simbólico perpassa Os Irmãos Karamázov, com Dostoiévski mostrando extremos da condição humana. Dois personagens reúnem-se aos Karamázov para que o livro consiga esse efeito: Grúchenka, pomo da discórdia entre Fiódor e Dmitri, e o stárietz Zossima, um santo homem. Através do triângulo formado pelo assassinado, Dmitri e Grúchenka descortina-se o papel das pulsões sexuais na nossa existência, mesmo que as racionalizemos (como fez a cultura ocidental por séculos). O stárietz, por sua vez, representa o dilema da espiritualidade, o salto da fé, e nem ele, humano, demasiado humano, é poupado: quando morre, seu corpo começa a feder de maneira intolerável e blasfema. Zóssima é o contraponto de Fiódor Pávlovitch para que Aliócha possa se tornar o princípio positivo do romance. Aliás, a obra-prima suprema de Dostoiévski foi um marco na literatura ao mostrar inequivocavemente que nós somos porque nos confrontamos com a consciência alheia. É o que o grande pensador russo Mikhail Bakhtin (o qual escreveu um estudo fundamental sobre a poética de Dostoiévski) denomina dialogismo, fazendo da vocação mais significativa do romance (enquanto arte narrativa) a polifonia: a estratificação da narrativa em várias vozes que se entrechocam, entredevoram-se (nenhuma delas tendo preponderância hierárquica sobre as outras) e criam um efeito de amplitude como nunca se viu antes na milenar atividade de contar histórias.
Quando se escreve sobre Os Irmãos Karamázov (e ainda mais nestes tempos dominados pelo pensamento e pela figura de Nietzsche, o Dostoiévski da filosofia) nunca se deixa de ter em mente o desnorteante capítulo sobre O Grande Inquisidor, no qual Dostoiévski demole as igrejas enquanto instituições, colocando-as como a grande impostura da Humanidade. A certa altura, afirma-se que o paraíso não vale uma lágrima de criança. E atinge-se aquela revolta que Albert Camus considerava a mais nobre virtude do homem: “Por que entre eles [padres] não poderia aparecer nenhum sofredor, atormentado pela grande tristeza, e que amasse a humanidade? Supõe que entre esses que só desejam bens materiais e sórdidos tenha aparecido ao menos um como meu velho Inquisidor, que comeu ele mesmo raízes no deserto e desatinou tentando vencer a própria carne para se tornar livre e perfeito, mas, não obstante, depois de passar a vida inteira amando a humanidade, de repente lhe deu o estalo e percebeu que é bem reles o deleite moral de atingir a perfeição da vontade para certificar-se ao mesmo tempo de que para os milhões de outras criaturas de Deus sobrou apenas o escárnio, de que estas nunca terão condições de dar conta de sua liberdade, de que miseres rebeldes nunca virarão gigantes para construir a torre, de que não foi para esses espertalhões que o grande idealista sonhou a sua harmonia”.
criado por sydowmonica
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