P/ Fiódor Pávlovitch
Plagiando o poeta Carlos Drummond, no amor, reconheço que sou o próprio sistema de erros procurando um acerto. Com a merecida e devida dose de ilusão, é claro, pois por trás de formas fogosas, pernas que te fazem marear, olhares capazes de dissolver a medula das pedras e lábios de Jolie, há sempre outro sistema de erros momentaneamente crente que sou o protagonista do Evangelho em sua perfeição.
Esse filme, ou qualquer romance, foi visto e revisto em vários idiomas e tempos, e seus finais adoçam ou arranham nossa memória.
Pois que, então, declaro solenemente que este cinquentão derrapou na curva. Mais uma vez, Drummond. E que curvas!!
Não leitor, não ceda à fácil tentação de associar minha derrapada às curvas de uma mulher jovem em folha, fresca e ainda otimista para com a dependência masculina. Não. Desta vez, a ilusão foi sua.
As curvas dela são menos angulosas e a superfície… digamos…, é a superfície de quem tem uma biografia. Como sou a própria preponderância polissaturada, em nada posso criticar as formas dessa mulher. E quanto às outras, com baixa quilometragem de vida, só me cabe ou nos cabe mirar com a ilusão, que permite supor que faríamos loucuras com tal beldade nos braços.
Len-ta-men-te, vivo um abatimento delicioso, antes e junto daquele cerco amoroso que só as maduras forjam com sutilezas. E com a mesma velocidade, esta mulher faz uma entrada olímpica na minha vida tardia e tão amadora.
E eis o que ela encontra: um amante envergonhado de amar ; um mal arranjado sobrevivente da dor, embriagado, ora vejam!, de sentimentos já lidos, vistos, surpreendidos, mas… quando vividos? Bem arranjado estou, embriagado de ternuras.
Sabe do que me dou conta neste estágio? Que com as moçoilas (digamos as mulheres que nós, “vividos”, conquistamos na flor da idade – DELAS), tenho todo um vocabulário pronto, literatura de orelha e de orelhas, retórica apurada e argumentos testados em outras frentes, para operar sobre ouvidos, olhos e corpos devotos porque inexperientes. Convenhamos, e me penitencio aqui, o resultado me é sempre favorável no final do jogo.
No entanto, aqui, ou melhor, agora, esta senhora me convida a renunciar ao jogo e, como adulto, inventar a vida.
Tenho medo. Desenha ilusões para seu público cativo quem afirma não ter medo. E cria, por isso, uma estética do fracasso.
Amar como conversão existencial. Serei capaz ? Tenho medo. Talvez porque justamente tenha tanta experiência, habilidade, história e a finitude à espreita.
Olho essa mulher, sinto esta conversão, e me apequeno. Porque, quiçá, somos todos pequenos frente a frente com a vida. E mais do que uma abstração, a vida passou a ter endereço, celular, peso e altura, faz hemogramas trimestrais e alongamentos pela manhã, tem mais o que fazer do que me esperar… e acredita que eu possa entrar em ressonância com seu corpo e alma.
Insisto, tenho medo. Mas reconheço que diante do que me acontece, diante desta paixão mais que amorosa, muitas paixões anteriores — de que tanto me orgulhei e discorri à minha ilusão — muitas foram próteses afetivas.
Arre, dei um pulo dentro de mim mesmo, não ? Volto à tona não só para concluir, mas também para respirar : cansei de tanta coisa ter de ser… Até de ser da oposição, já cansei. Cansei de amar com solavancos.
Borrado de medo, tendo a reunir sim as pontas da vivência a dois. Mordido pela dúvida, quero tocar nessa pele e também paradoxo da existência. Aceito pagar o preço da existência.
O erro a fazer tranças com o medo — eis o preço. Esta realidade que me abraça com perfume de mulher, este sistema de erros, quer nos parir.
E eu me ponho a berrar como um louco.