12/2/09
ETERNO VERÃO
Final das férias, fim das previsões, fim do Carnaval. Começa o ano. Finalmente!
Esse prolongamento do ano, sempre festivo, do Natal — incluídas as confraternizações de fim-de-ano, os festejos religiosos e mundanos, a exposição ao sol e às noites a que o período de férias calorento convida — até o anárquico Carnaval datado, está quase institucionalizado no inconsciente e na ciente rotina de todos nós.
Esse prolongamento do ano, sempre festivo, do Natal — incluídas as confraternizações de fim-de-ano, os festejos religiosos e mundanos, a exposição ao sol e às noites a que o período de férias calorento convida — até o anárquico Carnaval datado, está quase institucionalizado no inconsciente e na ciente rotina de todos nós.
Ora ora, e por que não? Da parte de Espargildo, não havia problema em assim encarar o calendário, tampouco em navegar nesse modo cultural de viver. As religiões têm seus calendários, a receita federal idem, escolas… Todos têm seus respectivos anos. Por que, então, a gente brasileira não pode desfrutar do seu sem culpas? E assim iniciou-se, em fevereiro, o primeiro dia do ano deste devoto da vida.
O corpo é mesmo o Senhor das possibilidades. Ao acordar, a consciência e suas projeções vão à frente, despertas, aprumadas para o início da semana e este doce cárcere, o corpo, reivindica um despertar mais macio, tardio. Pois há que se dar oportunidade de adaptação ao organismo, programá-lo para o novo tempo.
No entanto, a cabeça impera. Assim, o protagonista da vez arrasta seus grilhões à beira da cama, ainda com vagar, porque a certa idade os movimentos passam a ser solenes, sentidos, por vezes emperrados. Enfim, Espargildo mesmo sentado foi articulando as juntas e a agenda num último momento de ociosidade.
Então, deu-se o surpreendente. Ao levantar, ato contínuo, quis andar até o banheiro como de praxe. Digo quis andar porque ele tentou, mas caiu sentado novamente na cama. E digo novamente porque tentou várias vezes e não conseguiu. Cair sentado na cama era sempre a resposta teimosa do corpo. Qual !?
Aquilo, para além de esquisito, era inédito e foi deixando atordoado o ativo Espargildo. A solidez de seus dias, seu autocontrole, tantos vícios de bem viver, de repente, tudo reduzido a sentar-se na cama. Não podia ser…
Como bom empresário, empreendeu algumas tentativas mais atentas e foi entendendo, estupefato, que era possível levantar, girar com cuidado para os lados e, socorro!, andar para trás. Nunca para frente. Aquele corpo verdugo subjugava sua vontade, sua auto-estima, sua agenda. E não se conteve…
— Porra! Tô fodido.
Sem escolha e desconfiado, foi tateando pelo quarto meio escuro ora como pião, ora em marcha a ré. Levou consigo algumas quinas e viveu o equilíbrio às avessas. Acertou como pôde o corpo algoz na mira da porta do banheiro e entrou na forma fast forward. Barrado pela pia, acertou a direção do vaso. Não seria o primeiro grande desafio, mas foi humilhante.
Maldizia a construção do apartamento, que aperta em poucos metros quadrados os equipamentos da primeira hora; tentou se encaixar aqui e ali para poder virar e aliviar-se, mas parecia uma conspiração dos utilitários contra a vida útil. Sempre havia um baldinho, um cestinho, um porta-toalhas de chão, tapetes…Coisas demais e paredes de menos para apoiar-se. E premido pela natureza, sem mais tempo para sentar-se, batizou o box .
Arrasado, tratou de rapidamente calcular os espaços, distâncias, obstáculos, para superar o metro à frente até o chuveiro. Com cuidado, concluiu a trajetória andando de costas sem acidentes; apenas algumas topadas. E descobriu a fragilidade do calcanhar.
Em seguida, entre voltas no mesmo eixo — seu corpo — concluiu um banho malfeito e iniciou a peregrinação de volta. Agora, molhado. Como a memória prática ainda era do tempo de andar para frente, foi ao chuveiro sem levar a toalha. Resignado, calculou o risco e, passo trás passo, chegou ao alcance da pia. Deu um giro — estava cada vez melhor nos giros em si mesmo — e viu-se no espelho.
Nada de diferente; no entanto, nada era igual. Enquanto, estacado no mesmo lugar, tentava dar fim àquela assepsia ordinária pensava no que, afinal, acontecia com ele. Sentia um misto de pânico e incompreensão da realidade. Entendeu o que era a ignorância. Entendeu também que a nova empreitada era vestir-se. Para tanto, teria que encarar armários, gavetas, portas etc.
Desta vez, aprendeu a lidar com a limitação imposta e com as possibilidades à volta. Nu, seco, limpo e determinado, empunhou o espelho da esposa, engatou a inexistente marcha a ré e voltou ao quarto pisando em ovos. Balizando-se com o auxílio de um espelho desfocado, porque era de maquiagem, chegou aos armários. Ao imaginar o que viria pela frente, ou por trás, ao se vestir e em tudo que teria de fazer durante o dia, jogou literalmente a toalha. Contentou-se em vestir a mesma roupa do dia anterior, instalar-se em algum lugar seguro e pedir ajuda.
Foi o que fez. E enquanto esta não chegava em casa, na pessoa de sua esposa, resgatou um pouco de coragem e boa vontade para dar trégua à sua fome. Mais uma vez, com passos de cágado manco e orientado mal e mal pelo espelho de maquiagem (prometeu-se, logo que possível, instalar um GPS em forma de ship no seu débil corpo), foi à cozinha. De giro em giro, viu-se frente a frente com a geladeira e com a possibilidade de comer. Por segundos, temeu que também o sentido da digestão no seu corpo estivesse às avessas. Efeito do pânico.
Depois de comer sentiu-se melhor; repassou o dia anterior e tentou entender o que lhe acontecia. Foi garimpar na memória imagens e histórias familiares que pudessem explicar alguma tendência, mal genético, insanidade tardia, qualquer coisa que parecesse uma resposta. Mas esta não surgia; apenas muita tristeza por nunca mais ver o mundo de frente, por nunca mais se adiantar, não poder encarar pessoas e coisas, mas ser encarado. Ter pouca perspectiva.
Ficou ali inerte, sentado à mesa, prostrado, sem vontade sequer de imaginar. De forma involuntária, consultou o relógio que deveria estar no pulso e fora esquecido no quarto. Constatada a ausência, procurou aquele que pertence a qualquer cozinha que preste e conferiu a hora. Já era tarde. Como nada mais tinha a fazer, resolveu treinar seu novo modus operandi e ir colocar seu relógio; decidiu esperar a esposa, que tratava de atravessar a metrópole para entender aquela loucura toda, distraindo-se com uma leitura. Sim, faria isto.
Encheu-se de uma precária disposição e voltou para o quarto. Desta vez mais parecia o arrastão do pescador, pois que os objetos atrás de si não resistiram aos desequilíbrios e à desorientação de braços e mãos cegos. Aquilo o entristeceu mais.
Finalmente chegou ao quarto, ao ponto de partida — a cama, ainda desfeita, na qual se sentou — e, fácil, estavam o relógio e o livro eleito. Fechou o primeiro no pulso e ali mesmo acomodou-se na leitura. Por causa de alguma passagem lida, lembrou-se que no dia anterior havia terminado o horário de verão e, assim, teria que ajustar os relógios. Lembrou-se também que sua condição atual só lhe permitia atrasar o seu; imediatamente voltou para trás o ponteiro.
Também em seguida, chegou o socorro em forma de desconfiança. Sua esposa entrou em casa chamando-o, um pouco aflita. E eis que o garbo, sem perceber de imediato, foi ao seu encontro, com uma involuntária corrida, abandonando livro, cama e o reverso.
Quando ela entrou no quarto, já encontrou um homem ajustado ao seu corpo, ao seu tempo, ao seu novo ano. Na medida. Tão incrédulo quanto ela e jurando nunca mais contrariar as horas. Porque, como cantam as boas línguas, a falta de medida revela o incapaz.
criado por sydowmonica
15:35 — Arquivado em: 
