TUDOPROSA

Crônicas, ensaios, contos, crítica literária, música… Tudo com um dedo de prosa. Porque “a vida inventa! A gente principia as coisas no não saber por quê… a vida é mutirão de todos, por todos remexida e temperada”. (Guimarães Rosa)

6/10/08

COLUNA SOCIAL

 


As chamadas “notas” são para se fazer notar. Mas há ainda, os avisos, comentários, fotos enfileiradas, tudo para dispor a vida social em seus retalhos. Seletivos, claro.

As notas plantam os acontecimentos na conformidade que se quer ou espera, mas que não se tem ao fechar o jornal. Os avisos profetizam o que estará conforme no futuro próximo. Quanto aos comentários, contam breves histórias que as imagens autorizam; “…fulano conversa sobre a feira de livros com sicrana...”. A partir deles, é possível criar toda sorte de crônicas e contos, porque tudo é possível e nada é toda a verdade.

Chegamos às fotos. Muitas. Coloridas e diversas.
Tão naturais… Diante delas, não se deve buscar coerência com nossas vidas; são descontínuas, porém em harmonia com o bem-viver.
Então, vejamos.

Nesta primeira foto, empunhando copos e sorrisos, estão dois jovens. Mas não são os jovens da vida ordinária que freqüento; são jovens com traços e vestes dignos de resenha. Ali, cheios de contentamento em flúor, parecem desocupados da vida ocupada. Não são apenas dignos da embriaguez social, são merecedores de atenção viscosa, porque são personalidades de destaque. Atores de cinema, diz a legendinha.

Em duas linhas a coluna informa os nomes, onde estavam, quais filmes gravam e porquê se divertiam tanto.

Esta outra foto, menor, enquadra uma mulher que — ora vejam, que surpresa! — é linda, elegante e feliz. Outras pessoas ao fundo são apenas fundo. Novamente, nome, local, data e o registro de seu interesse em ficar entre colunáveis.
Abaixo, duas fotos reveladoras. Na primeira, dois homens ilustres brindam ao champagne; e na foto ao lado, duas esposas de políticos folheiam um livro de boas maneiras sociais. Etiqueta. Qual social?

Em ambas as fotos, percebo que sofrem de viver. E fico com a sensação de que padeço de vida.
Num esforço para escapar das garras do tédio, fixo-me neste enquadramento da vida noturna que não desfruto, e bem sei.

Faltam duas fotos. Grandes. Também alegres em sustentar copos e flashs, dois casais se espremem entre os limites da vida social impressa e se projetam, felizes de dar dó, às minhas vistas. Muitos nomes, local e… não deu o espaço.

E na última foto — fácil de adivinhar — há um jovem e moderno casal, sem copos, com largos sorrisos, despreocupados, sustentando no braço paterno o filho. Transbordam de orgulho social. Esta criança me chama atenção, porque está cheia de enfado e isto não combina com a infância.

Graúdos e miúdos mantém diariamente os desejos alimentados de soslaio, à noite, sob lua fria e irônica como testemunha.

Nada viola o equilíbrio daquela vida em jornal, e eu me vejo como um alvo fácil para o esquecimento. Vai ver quando eu tiver legenda descarno o social.

criado por sydowmonica    17:48 — Arquivado em: Crônicas

SARAMAGO

 Prof. Dr. Alfredo Monte

“… está visto que aqui já ninguém pode se salvar; a cegueira também é isto, viver num mundo onde se tenha acabado a esperança”.
…mais necessidade teríamos que estão vivos de ressurgir de si mesmos, e não o fazem. Já estamos meio mortos, disse o médico, Ainda estamos meio vivos, respondeu a mulher”.

Já repeti muitas vezes aqui nesta coluna que Ensaio sobre a Cegueira é o meu livro favorito de José Saramago, apesar de achar O ano da morte de Ricardo Reis sua maior obra, seguida de perto por Memorial do Convento e O Evangelho segundo Jesus Cristo. De qualquer maneira, esse romance de 1995, que agora volta à baila com a versão para o cinema de Fernando Meirelles, é um marco na produção do genial escritor português: a partir dele começou a se operar uma tendência à alegorização (algo geralmente estigmatizado pela crítica literária): trocando em miúdos, um núcleo alegórico é desenvolvido até as últimas conseqüências; em contrapartida, assiste-se igualmente a um processo pedagógico, no qual –entre perdas e danos— algo se aprende e fica com o leitor para sempre. Assim foi também com Todos os nomes, A caverna, Ensaio sobre a Lucidez (que prolonga o Ensaio sobre a Cegueira), As intermitências da morte. Essa série de livros representa o encontro mais conseqüente entre o ético e o estético dentro do panorama contemporâneo e me causa espanto que as pessoas se preocupem mais com a suposta estranheza da pontuação saramaguiana.
Como se sabe, Ensaio sobre a Cegueira narra uma epidemia de “cegueira branca” que leva o governo a isolar, num manicômio, os atingidos que, ali, vivenciarão os horrores daquilo a que se convencionou chamar de universo concentracionário (podemos lembrar imediatamente dos campos de concentração nazistas e stalinistas e, mais perto de nós, Guantanamo e Abu Ghraib): falta de respeito, descaso, estupidez, violência por parte das autoridades, picuinha pessoais, higiene precária e até mesmo uma quadrilha de cegos que toma o poder, extorquindo dinheiro e favores sexuais.
Duas pessoas ali estão e não são vítimas da “cegueira branca”: a esposa de um oftalmologista que insistiu em permanecer com o marido, e um cego normal, que ingressa na quadrilha.
Um incêndio jogará a mulher e um grupo de cegos nos escombros da civilização, pois o mal se alastrou, embora não seja definitivo (como é o apocalíptico universo mostrado no também esplêndido A estrada, de Cormac McCarthy).
Um grupo pungente, que tem como acréscimo um cão que passa a acompanhá-los e que bebe lágrimas (Saramago é um dos autores que mais pertinentemente incorporaram animais ao seu universo ficcional; não é à toa que um dos pontos mais fortes do seu “processo contra Deus” no Evangelho segundo Jesus Cristo seja a crueldade para com eles, basta lembrar dos sacrifícios no Templo).
Um grupo que, apesar de ninguém ser nomeado, vai se personalizando cada vez mais para o leitor, transcendendo o horror da massa indivisa e amorfa, tal como vemos em cenas como a seguinte: “As caixas de comida estavam juntas, empilhadas, mais ou menos no sítio onde a mulher do médico recolhera a enxada. Avancem, avancem, mandou o sargento. De modo confuso, os cegos procuravam pôr-se em fila para poderem avançar ordenadamente, mas o sargento gritou-lhes, As caixas não estão aí, larguem a corda, larguem-na, desloquem-se para a direita, a vossa, a vossa, estúpidos, não é preciso ter olhos para saber de que lado está a mão direita. O aviso foi dado a tempo, alguns cegos de espírito rigoroso tinham entendido a ordem à letra, se era a direita, logicamente teria de ser a direita de quem falava, por isso tentavam passar por debaixo da corda para irem à procura das caixas sabe Deus onde. Em circunstâncias diferentes, o grotesco espetáculo teria feito rir à gargalhada o mais sisudo dos observadores, era de morrer, uns quantos cegos a avançaram de gatas, de cara rente ao chão como suínos, uns braços adiante rasoirando o ar, enquanto outros, talvez com medo de que o espaço branco, fora da proteção do teto, os engolisse, se mantinham desesperadamente aferrados à corda e apuravam o ouvido, à espera da primeira exclamação que assinalaria o achamento das caixas. A vontade dos soldados era apontar as armas e fuzilar deliberadamente, friamente, aqueles imbecis que se moviam diante dos seus olhos como caranguejos coxos, agitando as pinças trôpegas à procura da perna que lhes faltava”.
Mas, como já afirmei em outras oportunidades, é improcedente pensar em Kafka e seguidores (Canetti, por exemplo), ou em autores do teatro do absurdo, entre os quais a cegueira é um assunto curiosamente bastante presente. A leitura de Saramago não leva ao desespero nem ao sentimento de impotência. Isso se deve principalmente à esposa de médico que não perde a visão e mesmo assim se submete ao apartheid sofrido por eles. Fiquei muito feliz quando soube que seria interpretada pela fantástica Julianne Moore (que além de ser uma grande estrela, ainda tem o hábito de roubar os filmes em que é coadjuvante), já que se trata da maior personagem feminina da ficção de nosso tempo.

criado por sydowmonica    17:44 — Arquivado em: Literatura
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