TUDOPROSA

Crônicas, ensaios, contos, crítica literária, música… Tudo com um dedo de prosa. Porque “a vida inventa! A gente principia as coisas no não saber por quê… a vida é mutirão de todos, por todos remexida e temperada”. (Guimarães Rosa)

4/8/08

A NOITE À ESPREITA

Dizem — a cidade tem rugas!
Quanto mais o tempo passa e a história se faz, as suas rugas se estendem, multiplicam e permanecem. Permanecem sulcando as vidas noturnas.
Refiro-me, é claro, às ruas, essas vias públicas que ora são o espaço dos ocupados ora entretenimento dos infelizes. Podem enrugar de alegria aqueles que têm disposição para tanto ou ocultar a mediocridade transeunte.
As ruas ou rugas urbanas cercam a todos; quem nelas vive deve ter o espírito vagabundo e a rejeição como verdadeira sarjeta.

Delas qualquer um pode me ver à noite; ou melhor, pode testemunhar uma vida insone. Para a maioria, a noite é recolhimento; para outros, uma chance, uma oportunidade. Sobram aqueles, como eu, que tecem a vida desperta. Essa minha vida insone, há tempos, passou a ser voluntária, esperada ao fim da luz natural.
Gosto tanto do que a insônia me oferece que dispenso tratamentos, pílulas e mandingas. Empoleirada, desfruto da vadiagem ao observar com rigor, quase profissionalismo, os ajuntamentos noturnos. Dedicada, também atravesso histórias noturnas que me entretêm, provocam, desfilam à minha frente e pedem algum sentido. Assim adio o dia, a claridade que nos mostra e denuncia.
Estacada na janela deste sobrado, com a discrição profissional que citei, acompanho as histórias privadas em moldura pública. Eis um recorte.

Começarei pelos mais assíduos, verdadeiros flâneurs: moradores de rua, mendigos ou os desatados dos vínculos — dizem — sociais. Aqui nas ruas eles se reúnem e perambulam cheios de sabedoria noturna, têm espírito risonho e estão convencidos da inutilidade de ser possuidores. Não importa do quê. Por isso, notam o que os outros não podem vislumbrar nem com um par de Varilux.
São também desconfiados, porque exaustos de experiência. Por outro lado, vivem sem promessas, sem expectativas, sem as nossas frouxas crenças. Livres do ideal que nos desconsola, brindam a valer com seus tragos sem o mérito da sede ou da comemoração. Em verdade, circulam pela província da dor com abundante rejeição. E posso identificá-los, por vezes, como desempregados públicos ou réus da justiça que democraticamente tarda. Noites seguidas, ao se juntarem na via social, formam o vozerio dos excluídos, e nas conversas ficam teimosamente inventando lembranças.

Mas em dias atuais, existem outros também assíduos, porém com alguma cobertura social. Refiro-me aos encontros dos jovens que não aprenderam ainda a encontrar.
Animadíssimos. Falam, gargalham e se confrontam sem se preocuparem com rugas e marcas. Afinal, na juventude, a dor, a pressa e a morte são coisas para uso alheio.
Vejo-os como liberados à cretinice e são capazes de desfrutar da amnésia social, porque nas ruas ora suas margeiam a aventura até a renúncia à estafante liberdade. Há noites em que invejo essa capacidade de ficarem à beira da vida a sério. Giram e giram, descoordenados, nos calcanhares de suas fraquezas, livres como bestas, lindas e inefáveis bestas.

Volto agora à outra rua que me tem mais próxima, com suas árvores bem vestidas, ofertando sombras aos encontros humanos, quase diários, de zeladores, guardas noturnos, faxineiros em turno, com as empregadas desterradas, ancoradas em lares patronais, que com seus olhares de zeladoria também reivindicam atenção noturna.
As moças, meninas ainda, cruzam à minha frente com seus corpos provedores de afeto. Os parceiros, nostálgicos, sentem uma saudade sem objeto e confortam-se, acomodam-se, nos cheiros, regaços e beiços da vez. Tudo na pressa da noite, sem danos colaterais imediatos.
Elas, quando se achegam à rua, à grade ou ao portão a ser conquistado, são chacinadas com os olhos. Comprometem-se com palavras fáceis e amanhecem desfalcadas dos amores prometidos.
Amar, amam todos. Todas as noites. Nas esquinas, cantos, garagens apertadas, pilastras ou bancos cheios de memórias. Apressam o dia para abraçar a próxima noite, mesmo que não encontrem esperança. O importante é que a noite venha, fique, esparrame seu esperma estelar, rasgue a solidão, cerre seus olhos e ofereça a si mesma como possibilidade.
Assim é — os amantes, quaisquer amantes, moram na possibilidade.

É então a rua e tudo que nela se encontra (inclusive eu) espaço onde cada um é ninguém no meio de todos, com sua humildade fria e desleixada. Um invólucro vulgar do mundano. Seja o que for, é perspectiva desta observadora.

Há, no entanto, uma história que me agrilhoa noite após noite, quase como se fosse minha: são amantes metódicos e entregues à poesia que talvez desconheçam. Um casal infalível nos seus encontros. Como se fosse cronometrado, chegam juntos e dão a impressão de que entre eles não pode haver esperas: não se cumprimentam, se pegam com determinação; não se falam, se beijam com desejo público.
Não nego que a cada encontro fico em suspenso naquele desejo audível, porque poderia ser meu. Em suspenso e com medo de espantar aquela visão. Viver um amor de rua é conviver com a aridez da publicidade; no entanto, todas as noites, aquele encontro marcado e amor cumprido hidratam minha esperança.

Pois bem, ao fim de algumas horas, testemunho a ressaca de bocas e beijos; os amantes trocam afagos finais como rosas murchas, depois de viajarem sem mapas por sulcos e fendas afetivas.
À respiração atrevida da primeira pegada, agregam as fomes que compartilham, exibem suores e ficam impregnados de realidade. É um amor sem solavancos, com a leveza do transitório. Tesão e medo amoitados nos cantos e sombras do que é público.

Enfim, com as cores do dia, as ruas e suas vidas mudam de interesse, velocidade e volume. Já as rugas desta vida privada se acentuam, se comprimem, ficam finalmente públicas até o céu sangrar novamente e a noite ficar à espreita.

criado por sydowmonica    16:42 — Arquivado em: Crônicas

JANE AUSTEN: POPULARIDADE E GENIALIDADE

 

Prof. Dr. Alfredo Monte

 

Abordando geralmente gente provinciana, com interesses limitados e pequenas intrigas, é impressionante como Jane Austen desperta interesse e, segundo os livreiros, mantém invejável vendagem para quem morreu há quase duzentos anos (em 1817). O recente fenômeno de Persuasão, até então um dos seus livros menos conhecidos, mostrou isso. Nem Dickens, que há poucas décadas era o gênio inglês e universal do século XIX, é agora páreo para a autora de Emma. É a popularidade unida à genialidade

Orgulho e Preconceito reaparece agora em edição bilíngüe e bem cuidada, embora com uma capa apelativa (chamando a atenção para a recente e fraquinha adaptação cinematográfica). O trunfo dessa obra-prima de 1813 é sua heroína Elizabeth Bennet. Ela pertence a uma família com muitas filhas (cinco), todas sem dote, e cuja propriedade, com a morte do preguiçoso pai, passará para um distante e insuportável parente masculino, Mr. Collins (o qual, a certa altura da trama, resolve pedir a mão de Elizabeth, como se fosse um grande favor que fizesse a ela, e na mente de todos era mesmo): “A senhora deve levar em conta que, apesar dos seus múltiplos atrativos, nada garante que outra proposta de casamento lhe seja feita algum dia”.

Assim como o Machado de Assis de A mão e a luva (um romance que poderia ter sido assinado por Austen), é implacável a precisão e lucidez com que ela caracteriza uma sociedade em que cada um é prisioneiro da sua condição social e sexual, em que o mais rasteiro cálculo materialista dita as regras, e que talvez seja (ao contrário do que se pensa) menos hipócrita do que a nossa, regida da mesma forma, porém colocando em prática outros discursos.
Quem tem perfeita consciência disso é Charlotte, a melhor amiga da Elizabeth que acaba casada com o tal Mr. Collins: “o casamento era ainda a forma mais agradável de se preservar da necessidade”.

O charme do enredo vem, com certeza, da transformação dos sentimentos mútuos entre Elizabeth e o a princípio antipático Mr. Darcy. Os diálogos entre ambos são páreos para o Shakespeare das melhores comédias dramáticas como O mercador de Veneza e Como gostais, que têm heroínas carismáticas também, Pórcia e Rosalind.
Quase rouba a cena o irônico e indolente pai dela, Mr. Bennet, que só faz a filha sofrer porque é um péssimo marido, cáustico e desdenhoso. Entretanto, só o amor de filha perdoaria uma mãe tão chata, que merece uma tirada como a seguinte, resposta à sua queixa da pouca compaixão do esposo pelos seus pobres nervos: “Está enganada, minha cara. Tenho um alto respeito pelos seus nervos. São meus velhos amigos. Ouço-a mencioná-los com consideração há pelo menos vinte anos”.


Quando será que relançarão Mansfield Park, a única grande obra de Austen que há anos está desaparecida das livrarias? Aí o leitor verá um espaço narrativo mais reduzido e concentrado ainda (uma propriedade), e o lado mais angustiado e denso do universo austeniano, sem o anteparo da espirituosidade. Que, no entanto, é sempre bem-vinda.

criado por sydowmonica    16:36 — Arquivado em: Literatura
Report abuse Close
Am I a spambot? yes definately
http://tudoprosa.blog.terra.com.br
 
 
 
Thank you Close

Sua denúncia foi enviada.

Em breve estaremos processando seu chamado para tomar as providências necessárias. Esperamos que continue aproveitando o servio e siga participando do Terra Blog.