TUDOPROSA

Crônicas, ensaios, contos, crítica literária, música… Tudo com um dedo de prosa. Porque “a vida inventa! A gente principia as coisas no não saber por quê… a vida é mutirão de todos, por todos remexida e temperada”. (Guimarães Rosa)

9/6/08

VADIO E PEDINTE

Cruzou por mim, Veio Ter Comigo, Numa Rua da Baixa

Veio ter comigo, numa
Rua da Baixa
Aquele homem mal vestido, pedinte por
profissão que se lhe vê na cara,
Que simpatiza comigo e eu simpatizo
com ele;
E reciprocamente, num gesto largo,
Transbordante, dei-lhe tudo que tinha. 
Sinto uma simpatia por essa gente toda,
Sobretudo quando não merece simpatia.
Sim, eu sou também vadio e pedinte,
E sou-o também por minha culpa.
Ser vadio e pedinte não é ser vadio e pedinte:
É estar ao lado da escala social,
É não ser adaptável às normas da vida,
Às normas reais ou sentimentais da vida -
Não ser juiz do Supremo, empregado certo,
prostituta,
Não ser pobre a valer, operário explorado,
Não ser doente de uma doença incurável,
Não ser sedento de justiça, ou capitão da
cavalaria,
Não ser, enfim, aquelas pessoas sociais dos novelistas
Que se fartam de letras porque não têm razão
para chorar lágrimas,
E se revoltam contra a vida social porque
têm razão para isso supor.
Não: tudo menos ter razão!
Tudo menos importar-me com a humanidade!
Tudo menos ceder ao humanitarismo!
De que serve uma sensação se há uma
razão exterior para ela?
Sim, ser vadio e pedinte, como eu sou,
Não é ser vadio e pedinte, o que é corrente:
É ser isolado na alma, e isso é que é ser vadio,
É ter de pedir aos dias que passem, e nos deixem,
e isso é que é ser pedinte.
Sou vadio e pedinte a valer, isto é,
no sentido translato,
E estou me rebolando numa grande
caridade por mim (…)”

Álvaro de Campos

Pode me chamar de preguiçoso, descançado, vadio… Tudo me qualifica melhor do que o desdém natural que sinto por mim. E também não me importo se, acompanhado desses juízos prévios, dispara teu sorriso predatório em minha direção. Este não é diferente dos olhares que gelam minhas impressões cotidianas.

Sou fraco, reconheço, porque qualquer forma de prisão enfraquece o espírito mais radical. Principalmente, essa prisão sem grades, sem sentença, sem apelo ou revogação. A indiferença.
Amigo, afirmo: não é nada fácil carregar o silêncio, tampouco perceber-me um vadio num mundo no qual não faço a menor diferença no horizonte humano.

A vida faz troça de minhas parcas esperanças e quer me convencer de que os desertos são para os fortes. Por tudo isso, tenho certa nostalgia de um destino diferente, mais irrigado de atenções.

Há poucos meses o cenário era bem diferente; se concorda, coloco-me à caminho da recordação. Tinha uma rotina enxuta, um ofício dedicado à repetição, uma rotina tão cuidadosa quanto confortável, restrita às venturas e  refratária às inovações vindas do alheio. Digamos que me incorporei à pátina do previsível.

Sentia-me ancorado numa utilidade decente e, sem perceber, descartável. Tinha um agônico interesse por tudo que se passava na minha periferia e, não nego, resistia a encarar os afetos como possibilidades.

Era uma existência fácil, uma escolha sem opções, que se resumia em muitas horas congeladas no ofício de digitar e outras poucas dissolvidas na espera do sono. Eis a rotina que me coube, defendida como se fosse o melhor dos mundos. Quanto mais me concentrava nessa rotina mais me perdia nela; quanto mais enredado no desinteresse, mais desterrado de minha própria vida social. Apenas uma coisa permitia reconhecer os limites daquela existência tão restrita: os contornos da tela, qualquer tela. O importante era ver, trabalhar, jogar – não interessa!! - a partir de fronteiras que poderiam ser acendidas ou apagadas por minha indiferença.

Nessas fronteiras julgava-me príncipe; e também estas cresceram como muros de prisão.

Nos ambientes que frequentava, poucos, passei a ser notado quando a luz artificial do mundo acendia à minha frente. Mas esta luz não chegava a iluminar a noite que persistia. Os diálogos e conversas – também poucos – que aquela rotina exigia eram mediados pela linguagem que a tela autorizava. E assim vivia no fio da mediocridade.

Desta feita, a vida me parecia infalível, até que se mostrou certeira em negar-se a acender meu dia. Sonegou-me ser o que sempre fui. E, diante da constatação de que tudo, afinal, é falível, busquei a luz natural e sua realidade disforme. Percebi claramente o elo que nos unia: novamente, a indiferença.

A minha opacidade existencial foi, ano após ano, fazendo tranças com a indiferença à minha volta, a mesma que parecia ser tão bem-vinda. E esta passou a ser os meus limites. Quando a tela não mais acendeu, os outros viram-me como um inútil decente, o descartável da vez. E foram tão persuasivos, que me convenci ser um príncipe da marginalidade. Também um pedinte.

Por isso sou vago e vadio, descansado de tanto negar-me. Indiferente para com a sua opinião a meu respeito.
Porque você também não faz a menor diferença.

criado por sydowmonica    17:04 — Arquivado em: Crônicas

2 Comentários »

  1. Monica,
    Sempre tive medo da indiferença dos outros; depois de ler a crônica, penso se a minha indiferença não cresce em silêncio.
    Muito densa.
    Abraço.

    Comentário por Julio — 12 de junho de 2008 @ 16:36

  2. Pensei na indiferença, lendo essa cronica e fiquei pensando será que a indiferença e o silencio não faz a diferença?
    Amei
    Beijos em seu coração,

    Comentário por Silvia — 15 de junho de 2008 @ 22:37

Deixe um comentário

Report abuse Close
Am I a spambot? yes definately
http://tudoprosa.blog.terra.com.br
 
 
 
Thank you Close

Sua denúncia foi enviada.

Em breve estaremos processando seu chamado para tomar as providências necessárias. Esperamos que continue aproveitando o servio e siga participando do Terra Blog.