TUDOPROSA

Crônicas, ensaios, contos, crítica literária, música… Tudo com um dedo de prosa. Porque “a vida inventa! A gente principia as coisas no não saber por quê… a vida é mutirão de todos, por todos remexida e temperada”. (Guimarães Rosa)

19/6/08

TESTAMENTO

 

“Você não possui mais no mundo
o grande espaço que ocupava antigamente.
Você não mete mais medo em ninguém.
O inferno aparece agora apenas no último ato.
Você não assombra mais o espírito dos homens.”

                      Paul Valéry (Meu Fausto)

Passei esta minha existência incerta entre o natural e o estudado, sendo comentado e até mesmo temido. Tive e tenho muitos apelidos e biografias; mas a verdade deste presente tempo é que sou um pobre diaboAssim, com letra minúscula.

Não que me deixem de lado. Não. Fiz um bom trabalho; cresci em importância. E hoje estou presente nas variações desse mundinho humano: nas crenças, artes, literatura, política… Despertei até um certo ciúme em outras mais Altas apelações.

E de tanto conviver com tanta humanidade, acho que peguei seu jeito.
Nos meus começos, meus diabólicos começos, tecia a desgraça, a mentira; me metia no meio das boas intenções para mostrar que havia o outro lado.  E como me diverti com essas pequenas perversões…

Comigo boca não tinha voz, mas o timbre da culpa ou da indecência. Enroscava e me apertava nas grandes e nobres intenções com meu pensamento miúdo, como miúdas são as entranhas. Outras vezes, ficava metido na bruma da embriaguez do ego, e desconsertava o reto.
Jogava areia nas ondas das grandes ações humanas, para que chegassem sempre morrendo na praia.

Visitei, tantas vezes, o peito carregado da nobreza, porque é nele que todo sonho cabe. E, claro, desacreditei a humanidade de seus sonhos.
Tanto fiz e competente fui!

Mas isto é já lá passado. Passado humano, porque não me prendo nestes tempos medidos. Este meu passado de que padeço é, sim, o próprio fracasso.
Desumanizei o mal…

Fiquei tão íntimo da indiferença humana, que não faço mais a menor diferença.
Antes, esses homens viviam sem mim, este pobre diabo. Depois, séculos de glória tive e em rivalidade com o Emérito. Agora, vejo e experimento a decadência. A inutilidade.

Sabem o que dizem?; que “tenho muito o que aprender…”. Transformei-me numa biografia sem existência, sem vida.
Fui à lona no pugilato dos valores humanos.

Tem mais, desconfio que humanizei. Até flato de anjo me sensibiliza…
Então, antes que o nada se iguale a mim, deixo registrado em testamento que desembarco do mal, pois que já sou considerado de primeira geração. Ultrapassado.

E este pobre diabo que vos escreve, deixa à humanidade o futuro. Quanto a este, só Deus sabe!

“No final das contas, pode ser que
não sirva mais para nada.
Eu fui construído sobre uma idéia errada,
segundo a qual as pessoas não são
malvadas o suficiente para se perderem
sozinhas, com seus próprios meios.”
              Paul Valéry (Meu Fausto)

criado por sydowmonica    17:12 — Arquivado em: Crônicas

9/6/08

VADIO E PEDINTE

Cruzou por mim, Veio Ter Comigo, Numa Rua da Baixa

Veio ter comigo, numa
Rua da Baixa
Aquele homem mal vestido, pedinte por
profissão que se lhe vê na cara,
Que simpatiza comigo e eu simpatizo
com ele;
E reciprocamente, num gesto largo,
Transbordante, dei-lhe tudo que tinha. 
Sinto uma simpatia por essa gente toda,
Sobretudo quando não merece simpatia.
Sim, eu sou também vadio e pedinte,
E sou-o também por minha culpa.
Ser vadio e pedinte não é ser vadio e pedinte:
É estar ao lado da escala social,
É não ser adaptável às normas da vida,
Às normas reais ou sentimentais da vida -
Não ser juiz do Supremo, empregado certo,
prostituta,
Não ser pobre a valer, operário explorado,
Não ser doente de uma doença incurável,
Não ser sedento de justiça, ou capitão da
cavalaria,
Não ser, enfim, aquelas pessoas sociais dos novelistas
Que se fartam de letras porque não têm razão
para chorar lágrimas,
E se revoltam contra a vida social porque
têm razão para isso supor.
Não: tudo menos ter razão!
Tudo menos importar-me com a humanidade!
Tudo menos ceder ao humanitarismo!
De que serve uma sensação se há uma
razão exterior para ela?
Sim, ser vadio e pedinte, como eu sou,
Não é ser vadio e pedinte, o que é corrente:
É ser isolado na alma, e isso é que é ser vadio,
É ter de pedir aos dias que passem, e nos deixem,
e isso é que é ser pedinte.
Sou vadio e pedinte a valer, isto é,
no sentido translato,
E estou me rebolando numa grande
caridade por mim (…)”

Álvaro de Campos

Pode me chamar de preguiçoso, descançado, vadio… Tudo me qualifica melhor do que o desdém natural que sinto por mim. E também não me importo se, acompanhado desses juízos prévios, dispara teu sorriso predatório em minha direção. Este não é diferente dos olhares que gelam minhas impressões cotidianas.

Sou fraco, reconheço, porque qualquer forma de prisão enfraquece o espírito mais radical. Principalmente, essa prisão sem grades, sem sentença, sem apelo ou revogação. A indiferença.
Amigo, afirmo: não é nada fácil carregar o silêncio, tampouco perceber-me um vadio num mundo no qual não faço a menor diferença no horizonte humano.

A vida faz troça de minhas parcas esperanças e quer me convencer de que os desertos são para os fortes. Por tudo isso, tenho certa nostalgia de um destino diferente, mais irrigado de atenções.

Há poucos meses o cenário era bem diferente; se concorda, coloco-me à caminho da recordação. Tinha uma rotina enxuta, um ofício dedicado à repetição, uma rotina tão cuidadosa quanto confortável, restrita às venturas e  refratária às inovações vindas do alheio. Digamos que me incorporei à pátina do previsível.

Sentia-me ancorado numa utilidade decente e, sem perceber, descartável. Tinha um agônico interesse por tudo que se passava na minha periferia e, não nego, resistia a encarar os afetos como possibilidades.

Era uma existência fácil, uma escolha sem opções, que se resumia em muitas horas congeladas no ofício de digitar e outras poucas dissolvidas na espera do sono. Eis a rotina que me coube, defendida como se fosse o melhor dos mundos. Quanto mais me concentrava nessa rotina mais me perdia nela; quanto mais enredado no desinteresse, mais desterrado de minha própria vida social. Apenas uma coisa permitia reconhecer os limites daquela existência tão restrita: os contornos da tela, qualquer tela. O importante era ver, trabalhar, jogar – não interessa!! - a partir de fronteiras que poderiam ser acendidas ou apagadas por minha indiferença.

Nessas fronteiras julgava-me príncipe; e também estas cresceram como muros de prisão.

Nos ambientes que frequentava, poucos, passei a ser notado quando a luz artificial do mundo acendia à minha frente. Mas esta luz não chegava a iluminar a noite que persistia. Os diálogos e conversas – também poucos – que aquela rotina exigia eram mediados pela linguagem que a tela autorizava. E assim vivia no fio da mediocridade.

Desta feita, a vida me parecia infalível, até que se mostrou certeira em negar-se a acender meu dia. Sonegou-me ser o que sempre fui. E, diante da constatação de que tudo, afinal, é falível, busquei a luz natural e sua realidade disforme. Percebi claramente o elo que nos unia: novamente, a indiferença.

A minha opacidade existencial foi, ano após ano, fazendo tranças com a indiferença à minha volta, a mesma que parecia ser tão bem-vinda. E esta passou a ser os meus limites. Quando a tela não mais acendeu, os outros viram-me como um inútil decente, o descartável da vez. E foram tão persuasivos, que me convenci ser um príncipe da marginalidade. Também um pedinte.

Por isso sou vago e vadio, descansado de tanto negar-me. Indiferente para com a sua opinião a meu respeito.
Porque você também não faz a menor diferença.

criado por sydowmonica    17:04 — Arquivado em: Crônicas

6/6/08

CALDERÓN DE LA BARCA

 

Rei (espantado): Pois o Mundo o que fui tão cedo ignora?
Mundo: …volte a si, torne, saia tua pessoa
nua outra vez da farsa desta vida.
Rei: Tu não me deste adornos tão amados?
Como me tiras o que já me deste?
Mundo: Pois emprestados foram, mas não dados,
durante o tempo que o papel fizeste…
Rei: Que tenho de lucrar em meu proveito
de haver, no mundo, o rei representado?
                                 (Calderón de La Barca, O Grande Teatro do Mundo)

Na grande alegoria, escrita por volta de 1633, da qual foram tiradas as falas acima, o Autor chama o Mundo para mandar diversas personagens (Rei, Formosura, Discrição, Lavrador, Rico, Pobre, Criança, Lei) entrar e sair de cena. Quando o papel “acaba”, todos se igualam, para espanto do Rei. Assim, na metáfora do “grande teatro do mundo” o que se depreende é a chamada visão criatural ser humano, descrita por Auerbach, isto é, o rebaixamento da condição humana, onde todos se igualam pelo destino comum: a morte. É o velho tema do Eclesiastes: o caráter vão de todas as coisas.
O leitor brasileiro pode conhecer outra volta do parafuso no tema (talvez superior do ponto de vista da realização artística) escrita cerca de dois ou três anos mais tarde: saiu pela Hedra a tradução de Renata Pallotini de A vida é sonho, a qual, nos seus três atos (ou jornadas), se chegou a ser conhecida por Freud, certamente fez as delícias do criador da psicanálise como demonstração perfeita, quase matemática em sua poesia (alternada com a prosa), do “retorno do reprimido”.
Na primeira jornada, a moscovita Rosaura (acompanhada por Clarim, o alívio cômico, com sua visão chã e pícara dos acontecimentos) chega à Polônia disfarçada de homem (quer vingar sua honra) e conhece Segismundo, o qual vive numa masmorra desde o seu nascimento, vigiado por Clotaldo (que nomes deliciosos!). Duas inversões: uma, cara à tradição teatral, da moça disfarçada de homem; a outra, mais peculiar, a do moço guardado como uma donzela.
Qual o crime de Segismundo?
Mas eu nasci, e compreendo
que o crime foi cometido
pois delito maior
do homem é ter nascido.
Clotaldo, o verdadeiro pai de Rosaura, é obrigado a aprisioná-la e levá-la a Basílio, o Rei, que decidirá sua sorte, pois ninguém poderia saber da existência de Segismundo, a quem o Rei temia, mesmo sendo seu filho, pois lera nas estrelas que seu herdeiro lhe destruiria o reino; aprisionando-o, ele tenta suster os vaticínios celestes. Ao mesmo tempo, chega Astolfo, pretendente ao trono, fazendo a corte a Estrela, a outra herdeira (cuja mãe chamava Clorilene, irmã da “altaneira” Recisunda, mãe de Astolfo; e todos descendem de Eustórgio III). Acontece que foi Astolfo quem desonrou Rosaura…
Pois bem, Basílio decide libertar o filho e poupa Rosaura (que, instruída por Clotaldo, se disfarça em dama de companhia de Estrela). Como o Rei teme as ações de Segismundo, ele urde um plano: toda a sua estadia na Corte terá um “ar de sonho” e caso a experiência não se mostre bem sucedida, o herdeiro do trono será reconduzido à sua masmorra, acreditando que sonhara tudo.
A segunda jornada é talvez o ponto alto (altíssimo) de A vida é sonho. Clotaldo cumpre as determinações do Rei (“Deste modo poderemos verificar duas coisas: a primeira é a sua natureza, porque ele, acordado, pode fazer quanto pensa ou imagina; a segunda, é o consolo, pois ainda que agora seja obedecido e depois torne a sua prisão, poderá entender que sonhou, e isto lhe fará bem. De resto, Clotaldo, no mundo, todos os que vivem, sonham”) e Segismundo acorda príncipe após ter vivido como prisioneiro toda a vida. É um id que sempre esteve sob o jugo do superego (e nunca houve um ego formado, já que ele nunca viveu no mundo da experiência) e agora não há freios. Resultado: crueldade, desfaçatez, até um homicídio (um criado o admoesta e ele retruca: “Contra o meu gosto, nada me parece conveniente e justo”, mais tarde replica ao Rei: “Ainda que não te agrade/hei de prosseguir aqui/ Sei quem sou e o que já vi/ por mais que isso te enfade/…Se estive em prisão, primeiro/ morto de frio e de fome/ foi por não saber quem era/ mas como informado estou/ de quem sou, já que sou/misto de homem e de fera”), além da infame tentativa de estupro da já desonrada Rosaura, que acaba sendo defendida por Astolfo.
Dessa forma, Segismundo é dominado e reconduzido ao cárcere. No seu solilóquio final é que está a passagem mais famosa da peça, justificando amplamente seu título; antes disso, ele se auto-diagnostica com precisão para seu guardião Clotaldo: “Eu era senhor de todos, e a todos pedia desforra”.
Apesar da intensidade da 2ª jornada, a terceira mantém a qualidade e o brilho. Há uma revolta popular (o povo é visto como uma força negativa, é “desabrido e cego”) e parte do exército liberta Segismundo. Ele lidera então uma luta armada para derrubar seu pai do trono. Ao sair da prisão, Segismundo tem uma fala maravilhosa (prenúncio de sua mudança, ao final), dessa vez em prosa: “…já que a vida ´tão curta, sonhemos, alma, sonhemos outra vez, mas com a precaução de despertar deste engano na melhor altura, e de ver que ele acaba. Assim, consciente, será menor a desilusão… Atrevamo-nos a tudo, pois todo poder é emprestado e há de tornar ao seu legítimo dono.” Astolfo se une a Basílio, mas o exército de Segismundo os derrota (Clarim morre em combate: “De pouco vale tentar/da morte se defender/ sempre acaba por morrer/aquele que Deus mandar”). Segismundo, adotando o princípio da realidade, e não apenas guiando-se pelo princípio do prazer, restabelece o equilíbrio (“Porque espero obter outras grandes vitórias, vou alcançar a mais custosa hoje: vencer-me a mim próprio”): reconcilia-se com o pai, casa Astolfo com Rosaura (e Clotaldo revela ser o pai dela) e ele pede a mão de Estrela. Tudo está bem quando acaba bem. E quando funciona tão bem num texto ágil e jovem de quase 400 anos.

criado por sydowmonica    16:33 — Arquivado em: Literatura
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