5/5/08
SEM LENÇO, SEM DOCUMENTO
Sabe aqueles dias de sol que convidam o deprimido a rever sua capital decisão, ou o detento a se sentir prisioneiro da má sorte, enfim, um dia perfeito para estar ao ar livre, na rua, na vida, na vontade de radiar com a luz?
Assim era. Uma manhã de outono na geografia tropical, pronta para receber as boas intenções.
Neste cenário, Anna Rocha pôs-se a caminhar por ruas locais, arborizadas, munida de jornais e o livro da vez. Buscava uma fachada simpática que pudesse regar sua manhã com generosos cafés, ou quem sabe sucos; à margem da tarde, uma cerveja talvez. Que seja; algum lugar para se encostar e se enroscar no mundo impresso e à mão.
Sentou-se numa mesa próxima à janela, pois as cores solares queriam ser vistas; depois fez o pedido e acomodou-se na sua manhã de sossego e entretenimento.
O local era grande, um misto de confeitaria, padaria, café e adega tão comum nos dias atuais, em que até essas fronteiras comerciais foram borradas. Anna esqueceu-se das horas e foi esquecida pelas atendentes, tal sua conformidade com o local e tão absorta em sua leitura inaugural.
Depois dos cafés e capuccinos imaginados e cumpridos, desgarrou-se da mesa e de seus pertences e seguiu para o toalete. Outro espaço amplo, limpo, claro e bem aparelhado para oferecer segurança aos inseguros .
Minutos depois, o inesperado.
Ao virar a chave que utilizara para fechar a porta, esta acompanhava obediente o movimento da mão, mas a tranca teimava em cumprir sua sina; perdeu a conta de quantas tentativas fez para constatar que estava presa no banheiro.
Antes que a mão ficasse deformada, acomodou-se no vaso dizendo para si que bastava esperar um movimento externo, ou outro cliente cativo de sua bexiga, para anunciar sua condição carcerária.
Logo de princípio ponderou que não havia razão para apreensões ou perda do polimento social; as circunstâncias voltariam a seu favor.
Nessa espera involuntária, deteve-se mais à configuração do seu cárcere e constatou que o banheiro era iluminado, mas não tinha janela; era grande, mas distante de todos os outros ambientes do local; estava limpo de ferir as narinas com o produto mais barato do mercado. Ainda nessa espera, Anna passou a dizer para si que a serenidade, própria da racionalidade, era sua melhor aliada. Também começou a especular outras saídas e foi assim que deu conta de que estava sem sua bolsa, celular, palm etc.
Exilada de sua identidade e direção.
Ou seja, com certo desconforto, entendeu que não existia ! Ninguém sabia onde estava, em que circunstâncias, tampouco poderia ser localizada, mesmo que fosse por uma chamada.
Aquela inevitável constatação, unida ao distante ruído da clientela, ascendeu a luz amarela. As horas pingavam, agora lentamente, na mesma medida que uma pressão no abdômem crescia. Uma pressão que embaraçava sua racionalidade cada vez mais duvidosa.
Passou a ponderar sobre a validade da boa educação e do equilíbrio – tão valorizados na teoria – que lhe impunham agora uma espera opressiva e mantinham sua inexistência.
É isto. Entendeu que nenhum documento, endereço, telefone…denunciam a existência humana, não nos acolhem ou nos localizam no mundo; tampouco sua ausência à mesa era capaz de denotar sua existência. O que nos anuncia, enquanto vivos e presentes, é a linguagem.
A existência depende de um testemunho ancorado nas linguagens ? Testemunho?
Sem mais constrangimentos, Anna começou a chamar alguém comedidamente; persistindo sua ausência ante a nenhum testemunho de sua situação, passou a gritar como uma louca, esmurrando uma porta inocente e inerte. Em coro com seu desespero, a explosão sonora de pontapés nos baldes, encurralados nas quatro paredes, quase destruídos.
De repente, uma resposta: “nossa!…tem alguém preso no banheiro. Espera, senhora, vou chamar a gerente.” Como instantâneo, Anna serenou e calmamente sentou-se no vaso coberto.
Existia ! Foi testemunhada.
E com uma polidez urgente, completou: “não se preocupem; tenham calma. Eu espero.”
criado por sydowmonica
15:08 — Arquivado em: 

Sensacional
Bela crônica
Estória real?? Pelo visto sim.
Foi alçada para a ficção. É mais real agora….rsr
Comentário por ciente — 6 de maio de 2008 @ 14:39
Anna querida adorei.
(…)Se ela não tivesse colocado o seu nome, para mim não teria importância. Eu reconheceria você já na abertura, só pela descrição da alegria de viver da personagem e como ela conduziu e solucionou o problema.
Comentário por D.Pereira — 6 de maio de 2008 @ 14:42
QUE DELICIA DE CRONICA, ANNA. ADOREI! DE OS PARABENS A AUTORA. ALIAS, O PERSONAGEM DANDO PARABENS A AUTORA. HEHE!
Comentário por Alberto Teixeira — 6 de maio de 2008 @ 16:40