5/5/08
LYGIA FAGUNDES TELLES
CIRANDA DE PEDRA
Prof. Alfredo Monte
Então teremos uma nova versão para a tevê de Ciranda de Pedra, o primeiro dos quatro excelentes romances de Lygia Fagundes Telles (que, além disso, é exímia contista). O que será que vai acontecer com a trama, revelada através do olhar de Virginia, filha bastarda de uma mãe que abandonou o lar para viver com o homem amado e que entretanto acaba vivendo com o falso pai? Um ponto-de-vista que servia em 1954 como instrumento de desmascaramento da hipocrisia e da podridão da sociedade burguesa tradicional.
Decerto há muito tempo os alicerces da burguesia já foram carcomidos. Ainda será surpresa para o leitor (e o espectador) de hoje descobrir que os jovens que encantam Virginia, alimentando seu sentimento de inferioridade e exclusão, vão se revelar ídolos com pés de barro? Conrado, seu amor infantil (e um tipo recorrente na obra da autora), é impotente; a virtuosa Bruna, uma das suas meio-irmãs, e a que mais condenava o comportamento materno, casa-se, mas mantém um caso com o tenista Rogério, o qual fica atraído por Virginia assim como o marido de Bruna, Afonso; Otávia, a outra irmã, é quase um símbolo do descaso e da desfaçatez; Letícia, a irmã de Conrado, optou pelo lesbianismo e também se interessa por Virginia, que passara a conviver novamente com todos, após anos num internato, e que dessa forma é insistentemente convidada a entrar na “estranha ciranda! Eram solidários e no entanto se traíam. Eram amigos e contudo se detestavam.”
Esse lado mais epidérmico, mais condicionado pela expectativa de um enredo ousado e transgressor, é superado totalmente pela brilhante construção do chamado “foco narrativo”. Ciranda de Pedra é uma das obras mais bem elaboradas e talentosas, quanto à técnica narrativa, da nossa ficção, e sem o aparato laborioso e afetado de autores que se esforçaram por alcançar tal sofisticação, caso de um José Geraldo Vieira, por exemplo. Nele pratica-se o “discurso indireto livre”, colando o discurso do narrador à percepção e linguagem da sua heroína de forma a garantir a adesão total do leitor ao seu processo de decifração dos códigos que regem a ciranda do seu grupo de familiares e amigos (e de um modo mais geral, do estrato social a que pertencem).
Mas Lygia vai mais além: praticamente em todos os capítulos, ao mesmo tempo em que acontece a cena presente, emergem reminiscências do passado, intuições do futuro, fantasias, recalques, de maneira “natural” e quase imperceptível. Cada momento se torna, assim, riquíssimo e ampliado. E também perfeitamente adequado a uma personagem que diz:“…sinto os meus mortos em redor. Eles continuam, embora nenhuma força consiga governá-los. Mortos e vivos estão todos por aí, completamente soltos. E a confusão é geral.”
criado por sydowmonica
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