TUDOPROSA

Crônicas, ensaios, contos, crítica literária, música… Tudo com um dedo de prosa. Porque “a vida inventa! A gente principia as coisas no não saber por quê… a vida é mutirão de todos, por todos remexida e temperada”. (Guimarães Rosa)

27/5/08

VERSADO EM MORTE

 

Estou morrendo! É isto, eu antecipo, estou morrendo!
Você entendeu? Eu sei. Aparelhos e tristes olhares atestam. Sinto, como explicar?, um distanciamento desta consciência de seus membros; estão mais leves, ou menos meus. Vejo-os sobre a cama e lençóis, mas não os encontro em mim. Será isto a falência?

Um crescente e lento frio me dissolve nos seus braços… Não quero que me toquem. Ninguém. Não quero banho ou medicação. Deixem-me quieto! Tenho direito ainda de assistir esta desencarnação, o desprender-se daquilo que levei anos para acostumar, tolerar; desprender-me dessa figura agora tão estranha chamada vida.

Por que tantas visitas? Para que tanta audiência nestes metros quadrados de agonia? As expressões mal disfarçam uma pena protocolar, deslocada, ante ao meu penar. Talvez, o último.

Aqui chega…Vilarino. Trancou nos lábios sua carência de lágrimas a derramar por sua própria vida, esta que permanecerá, quente e contraditória. Mas tem um álibi — este féretro que logo percorrerá ruas vivas, quentes; te autorizo a usar-me para contrair e contrariar sua dor pessoal. Podes lastimar, chorar até. Eu não mereço mais do que essa hipocrisia, mas tens a ti para encarar sem tanta consideração.

E tu, Misericórdia? Veio irritar-me com um último adeus?
Teimosa em ser a obesa da família; nosso monstro sagrado da irmandade, que padece nas profanas igrejas da cidade, qualquer cidade. Misericórdia que dobra joelhos de dia em nome do Senhor e também à noite por conta dos préstimos da beata mor que te seduz. Arrasta tuas carnes inflacionadas pelos altares templários e abre as mesmas carnes para o dilúvio feminino que tens. Chora por este quase-morto que de nojo te cobriu em vida.

Não acredito no que estes olhos meus, no derradeiro, têm ainda de codificar… Leonice. Tenho de reconhecer o poder cataléptico da morte. Enquanto evento, assisto, quanto é gregária, quanto desperta de fantasmas entre vivos.
Ora vejam…Leonice, que se apoderou de bons e saudáveis anos de minha vida, travou lutas contra nós e nocateou-me frente aos filhos nos tribunais. Juntou-se a mim para impedir a realização de um propagado “nós”.

Claro; mas esta é uma versão de quem estréia o estertor, e não é momento de versar sobre o casamento que se escolheu.
Leonice está muito bem, tirante este olhar de já vai tarde que dispara ao leito. O corpo a abandonou, é verdade, mas tem ainda um rosto faceiro, de grandes possibilidades, o que me obriga a reconhecer que a odeio! Entendeu?
Desprezo esta sua presença tardia; tenho esta raiva última, que oxigena-me em vida final. Principalmente, porque vais ficar.

Feito um papagaio de pirata, surge junto dela Heitor, meu filho. O verdadeiro Heitor dos prazeres que tanto financiei. Chega com esta morte, meu filho, a tua fatura; desta vez, a vida irá te cobrar em dobro e não serei mais teu anteparo.
Estou livre. Estou livre do teu peso alegre, sensual, que cadenciou minha falência. Inclusive emocional.

Gelado; eu sinto assim. Quase não me percebo num corpo, mas percebo outros corpos à volta. Muita contrição, toques em membros escravizados por sondas e soro, choros sutilmente contidos, socialmente liberados. Vez ou outra, picadas que não me atingem mais, que dão conta apenas das normas da medicina, que prometem a boa morte.
Mas é sempre ela, a morte.

Quem é agora? Geína… A boa e prestativa Geína dos últimos tempos. Continua com seu olhar maternal, que aplacou meus constrangimentos em banhos e troca de fraudas diárias. Comoventes. A última mulher a me ter e alimentar, a quem devo um Muito Obrigado!
Geína fez-me esquecer que era objeto de seu ganha-pão, mesma quando era hora, derramada hora, de recolher minha baba, o mijo, as lágrimas da vergonha de ainda viver.

No entanto, neste meu epílogo, eis que lamento renunciar à vida ou ser expulso da minha. Resisto sem forças, ignorante ainda do que seja, afinal, vida e morte. Compreendo, na última versão de mim, agora mesmo, o que é o egoísmo em forma pura.

E antes que tudo acabe e eu me transforme num verso impresso em placa de túmulo, tenho de dizer da minha decepção em Ti. Vejo que Você se cansou de sua deplorável cópia, ou vira a cara ao teu erro de projeto. É aqui, nesta morte que me tem por direito e dever, que entendo o quanto Tu não existe e assiste o fim. Vou finalmente expelir a solidão que me destes, vou aterrar-me na escuridão que evitei em toda minha medíocre vida. E estarei livre de Ti, de Tua possibilidade.
Então, seja feita a Tua vontade.

criado por sydowmonica    16:41 — Arquivado em: Crônicas

5/5/08

LYGIA FAGUNDES TELLES

CIRANDA DE PEDRA

Prof. Alfredo Monte

Então teremos uma nova versão para a tevê de Ciranda de Pedra, o primeiro dos quatro excelentes romances de Lygia Fagundes Telles (que, além disso, é exímia contista). O que será que vai acontecer com a trama, revelada através do olhar de Virginia, filha bastarda de uma mãe que abandonou o lar para viver com o homem amado e que entretanto acaba vivendo com o falso pai? Um ponto-de-vista que servia em 1954 como instrumento de desmascaramento da hipocrisia e da podridão da sociedade burguesa tradicional.
Decerto há muito tempo os alicerces da burguesia já foram carcomidos. Ainda será surpresa para o leitor (e o espectador) de hoje descobrir que os jovens que encantam Virginia, alimentando seu sentimento de inferioridade e exclusão, vão se revelar ídolos com pés de barro? Conrado, seu amor infantil (e um tipo recorrente na obra da autora), é impotente; a virtuosa Bruna, uma das suas meio-irmãs, e a que mais condenava o comportamento materno, casa-se, mas mantém um caso com o tenista Rogério, o qual fica atraído por Virginia assim como o marido de Bruna, Afonso; Otávia, a outra irmã, é quase um símbolo do descaso e da desfaçatez; Letícia, a irmã de Conrado, optou pelo lesbianismo e também se interessa por Virginia, que passara a conviver novamente com todos, após anos num internato, e que dessa forma é insistentemente convidada a entrar na “estranha ciranda! Eram solidários e no entanto se traíam. Eram amigos e contudo se detestavam.”
Esse lado mais epidérmico, mais condicionado pela expectativa de um enredo ousado e transgressor, é superado totalmente pela brilhante construção do chamado “foco narrativo”. Ciranda de Pedra é uma das obras mais bem elaboradas e talentosas, quanto à técnica narrativa, da nossa ficção, e sem o aparato laborioso e afetado de autores que se esforçaram por alcançar tal sofisticação, caso de um José Geraldo Vieira, por exemplo. Nele pratica-se o “discurso indireto livre”, colando o discurso do narrador à percepção e linguagem da sua heroína de forma a garantir a adesão total do leitor ao seu processo de decifração dos códigos que regem a ciranda do seu grupo de familiares e amigos (e de um modo mais geral, do estrato social a que pertencem).
Mas Lygia vai mais além: praticamente em todos os capítulos, ao mesmo tempo em que acontece a cena presente, emergem reminiscências do passado, intuições do futuro, fantasias, recalques, de maneira “natural” e quase imperceptível. Cada momento se torna, assim, riquíssimo e ampliado. E também perfeitamente adequado a uma personagem que diz:“…sinto os meus mortos em redor. Eles continuam, embora nenhuma força consiga governá-los. Mortos e vivos estão todos por aí, completamente soltos. E a confusão é geral.”

 

criado por sydowmonica    15:12 — Arquivado em: Literatura

SEM LENÇO, SEM DOCUMENTO

Sabe aqueles dias de sol que convidam o deprimido a rever sua capital decisão, ou o detento a se sentir prisioneiro da má sorte, enfim, um dia perfeito para estar ao ar livre, na rua, na vida, na vontade de radiar com a luz?
Assim era. Uma manhã de outono na geografia tropical, pronta para receber as boas intenções.
Neste cenário, Anna Rocha  pôs-se a caminhar por ruas locais, arborizadas, munida de jornais e o livro da vez. Buscava uma fachada simpática que pudesse regar sua manhã com generosos cafés, ou quem sabe sucos; à margem da tarde, uma cerveja talvez. Que seja; algum lugar para se encostar e se enroscar no mundo impresso e à mão.
Sentou-se numa mesa próxima à janela, pois as cores solares queriam ser vistas; depois fez o pedido e acomodou-se na sua manhã de sossego e entretenimento.

O local era grande, um misto de confeitaria, padaria, café e adega tão comum nos dias atuais, em que até essas fronteiras comerciais foram borradas. Anna esqueceu-se das horas e foi esquecida pelas atendentes, tal sua conformidade com o local e tão absorta em sua leitura inaugural.
Depois dos cafés e capuccinos imaginados e cumpridos, desgarrou-se da mesa e de seus pertences e seguiu para o toalete. Outro espaço amplo, limpo, claro e bem aparelhado para oferecer segurança aos inseguros .
Minutos depois, o inesperado.
Ao virar a chave que utilizara para fechar a porta, esta acompanhava obediente o movimento da mão, mas a tranca teimava em cumprir sua sina; perdeu a conta de quantas tentativas fez para constatar que estava presa no banheiro.

Antes que a mão ficasse deformada, acomodou-se no vaso dizendo para si que bastava esperar um movimento externo, ou outro cliente cativo de sua bexiga, para anunciar sua condição carcerária.
Logo de princípio ponderou que não havia razão para apreensões ou perda do polimento social; as circunstâncias voltariam a seu favor.

Nessa espera involuntária, deteve-se mais à configuração do seu cárcere e constatou que o banheiro era iluminado, mas não tinha janela; era grande, mas distante de todos os outros ambientes do local; estava limpo de ferir as narinas com o produto mais barato do mercado. Ainda nessa espera, Anna passou a dizer para si que a serenidade, própria da racionalidade, era sua melhor aliada. Também começou a especular outras saídas e foi assim que deu conta de que estava sem sua bolsa, celular, palm etc.
Exilada de sua identidade e direção.
Ou seja, com certo desconforto, entendeu que não existia ! Ninguém sabia onde estava, em que circunstâncias, tampouco poderia ser localizada, mesmo que fosse por uma chamada.

Aquela inevitável constatação, unida ao distante ruído da clientela, ascendeu a luz amarela. As horas pingavam, agora lentamente, na mesma medida que uma pressão no abdômem crescia. Uma pressão que embaraçava sua racionalidade cada vez mais duvidosa.
Passou a ponderar sobre a validade da boa educação e do equilíbrio – tão valorizados na teoria – que lhe impunham agora uma espera opressiva e mantinham sua inexistência.
É isto. Entendeu que nenhum documento, endereço, telefone…denunciam a existência humana, não nos acolhem ou nos localizam no mundo; tampouco sua ausência à mesa era capaz de denotar sua existência. O que nos anuncia, enquanto vivos e presentes, é a linguagem.

A existência depende de um testemunho ancorado nas linguagens ? Testemunho?

Sem mais constrangimentos, Anna começou a chamar alguém comedidamente; persistindo sua ausência ante a nenhum testemunho de sua situação, passou a gritar como uma louca, esmurrando uma porta inocente e inerte. Em coro com seu desespero, a explosão sonora de pontapés nos baldes, encurralados nas quatro paredes, quase destruídos.
De repente, uma resposta: “nossa!…tem alguém preso no banheiro. Espera, senhora, vou chamar a gerente.” Como instantâneo, Anna serenou e calmamente sentou-se no vaso coberto.

Existia ! Foi testemunhada.
E com uma polidez urgente, completou: “não se preocupem; tenham calma. Eu espero.”

criado por sydowmonica    15:08 — Arquivado em: Crônicas
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