26/2/08
EMILY DICKINSON
Prof. Dr. Alfredo Monte
Uma cena que nunca esqueci do filme As setes faces do Dr. Lao é, por acaso, uma das poucas que a obra-prima de George Pal aproveitou fielmente do romance de Charles G. Finney, O circo do Dr. Lao: o protagonista, o misterioso chinês que chega com seu espetáculo a uma cidadezinha do Arizona, está descrevendo as características de uma de suas atrações principais, a Medusa. Uma robusta senhora o vitupera: “Não acredito em uma só palavra do que o senhor está dizendo. Nunca ouvi tanta bobagem junta em toda a minha vida. Gente virar pedra! Que idéia! Seu marido ainda tenta intervir, mas ela insiste: “Cale a boca, Luther. Digo o que quero e quando bem entender.” Para então ouvir a resposta do Dr. Lao: “Madame, a atitude de ceticismo não lhe cai bem. Há coisas no mundo que nem a experiência de toda uma vida passada em Abalone pode conceber.”
Pois bem, se o Dr. Lao armasse seu circo-mundo em Amherst, Massachussets, provavelmente não faria tal censura, pois toda uma vida ali passada não impediu que Emily Dickinson (1830-1886) escrevesse a poesia menos provinciana, mais desafiadoramente conceitual, concisa e arrojada, quase que se poderia dizer filosófica, repensando tudo em seus próprios termos (ela tem um arsenal terminológico peculiaríssimo) e dando a seus curtos poemas um aspecto inaugural, de renomeação do mundo, dos sentimentos, das idéias:
A Relva pouco tem a fazer-
Uma esfera de simples Verdura-
Com Borboletas somente a cuidar
E Abelhas a entreter-
E ondular o dia todo aos bonitos Sons
Que as Brisas arrastam-
E no colo do Raio de Sol
Cumprimentar cada coisa-
E trançar, cada noite, como Pérolas-
E fazendo isso com esmero
Que uma Duquesa não saberia
Estabelecer a diferença-
E então ao morrer- passar
Para Aromas tão divinos-
De Especiarias, curtidos-
Ou de Nardos, periclitantes-
E então, em Altivos Celeiros, restar-
E, sonhando, os Dias Findarem-
A Relva pouco tem a fazer
Eu desejaria ser Feno.
Duas novas seleções, vinte anos após a memorável centena de poemas na tradução de Dora Ferreira da Silva, permitem ao leitor brasileiro explorar um pouco mais esse cosmo criado pela genial e enigmática imaginação trancafiada por toda uma vida em Amherst: Poemas Escolhidos (L&PM) e Alguns Poemas (Iluminuras). Ainda longe a tradução integral dos 1.775 poemas, mas pelo número de textos incluídos em ambas as coletâneas (ambas bilíngües) já temos um avanço perceptível.
Eu moro na Possibilidade-
Uma Casa mais aprazível que a Prosa-
Mais numerosas Janelas-
E superior- em Portas-
De Câmaras como Cedros-
Inacessíveis ao Olhar-
E tendo como Perene Forro
Os Telhados do Céu-
Visitantes- os melhores-
Por Ocupação- Isto-
Abrir amplamente minhas estreitas Mãos
Para agarrar o Paraíso
Talvez só a poesia do seu conterrâneo, o igualmente original Wallace Stevens tenha certa similaridade, na economia da forma, na estranheza lexical e conceitual, na aparência de “neutralidade” que nos faz cair num estado de tabula rasa que logo se transforma em algo que não nos sai da cabeça por um bom tempo:
Quando você varrer aquele sagrado Armário-
Intitulado “Memória”-
Escolha uma reverente Vassoura-
E o faça em silêncio.
Será um Labor de surpresas-
Além da Identidade
De outros Interlocutores
Uma possibilidade-
Augusta a Poeira desse Domínio-
Intocada- deixe-a em repouso-
Você não pode removê-la
Mas ela pode silenciar você-
O Dr. Lao compreenderia de imediato, com sua sutileza e sabedoria, que encontrou a Medusa em Abalone, em vez de levá-la para lá. Corremos o risco de petrificar-nos com o olhar poético da Madame de Sade de Amherst, para utilizar a feliz expressão de Camille Paglia, que no seu fabuloso Personas Sexuais não deixa por menos: “Emily Dickinson e Walt Whitman, aparentemente tão dessemelhantes, são confederados tardo-românticos da União americana… Ambos são perversos canibais da identidade dos outros, Whitman em seus gulosos auto-empanturramentos e invasões dos quartos dos que dormem e estão doentes, Emily em seus pêsames ritualísticos e seu lúbrico connoisseurismo da morte. Voyeurismo, vampirismo, necrofilia, lesbianismo, sadomasoquismo, surrealismo sexual: a Madame de Sade de Amherst ainda espera que seus leitores a conheçam”
Não seja por isso, Madame Camille (afinal, estamos falando de alguém que escreveu: “Morri pela Beleza- mas estava somente/ Acomodada na Tumba…”):
O catavento um pouco a Leste
Afugenta Almas de Musselina – para longe-
Se corações de Seda são firmes-
Mais do que os de Organdi-
A quem culpar? Ao Tecelão?
Ah, os enganadores fios!
As Tapeçarias do Paraíso-
Invisivelmente- são tecidas.
E para encerrar, antes que fiquemos iguais à pobre estúpida senhora de Abalone, que paga para ver: “Bem, vou mostrar uma coisa. Vou desmascará-lo diante de toda essa gente, ora se vou”. Ela mete a cabeça no cubículo da “atração”: “…antes de poder pronunciar outra palavra já estava petrificada”:
Do Drama a mais Vívida Expressão é o Dia Comum
Que levanta e repousa sobre Nós-
Outra Tragédia
Dissipada na Declamação-
Isto – a melhor encenação-
Quando a Platéia se dispersa
E a Bilheteria fecha-
“Hamlet” seria Hamlet-
Ainda que não por Shakespeare escrito-
E “Romeu”, não através da Lembrança
De sua Julieta,
Seria infinitamente encenado
No Coração Humano-
Único teatro conhecido
Não fechado pelo Proprietário.

criado por sydowmonica
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Muito legal. Valeu a dica; fiquei interessada em conferir.
Comentário por Valéria — 7 de março de 2008 @ 15:54
Resenha sensasional do Prof. Alfredo. Outra obra para conhecermos um pouco mais da vida complexa de um dos maiores escritores de todos os tempos. Agora acho que com o maravilhoso “O Abutre” podemos sentir, ter uma noção, do que seja Kafka.
Comentário por miguel — 19 de março de 2008 @ 19:58