26/2/08
A FIBRA, A VIDA, A PALAVRA
Carda – instrumento que serve para desembaraçar o cânhamo,
a lã, a fibra;
Cardar – desembaraçar ou pentear com carda; extorquir;
repreender com aspereza;
Cardápio – lista com preços, lista de pratos.

O chão é de terra. É barro, tijolo ou daquela poeira que a chuva mistura sem lavar. Lama mesmo. A cobertura é pequena, pouca. Nunca necessário foi ter teto. Melhor ter mãos, mesmo que estragadas. Mãos cortadas e calos pagos com a miséria.
Qualquer natureza sabe a mão faturar, obter dela coisa vária. Tem o jeito, o volteio, força de converter o que é natura em forma própria do homem. Mãos obreiras. E corpo cansado de viver. Um viver banal, que é também pentear a imperfeição.
E no ir e vir das mãos treinadas, põe-se a cardar. Desembaraça fibra por fibra. Desembaraça até os pensamentos que deixou ter.
Planta difícil essa, que, no fim dos esforços das mãos, é beleza fácil de se achar e cara de se ter. Planta local e parte dos seus horizontes. É o sisal. Resulta em formas de corda que apertam ou adornam as vidas que se tem. Outras vidas. Diferentes vidas. Distantes de todas as geografias.
Mas é preciso desarmar a dor para que não se desarme o amor, crenças. Também as esperanças tiradas do nada . E a distração das mãos nas horas neutras é listar palavras, uma após a outra. Armar conjuntos de palavras por seus sons, memórias, dons de inspirar…
Casa, capota, carta, Carlota e ainda carma, que é o seu. Tem tudo o mesmo iniciar. Pois que a escuta comprova o que o não saber ler impede.
Meia e meio, mel de melar, mó de moer e cortar. Mesma maneira de seu nome começar. O mesmo aperto dos lábios necessário para lhe chamar. Mulher.
E nas listas que formula na sua memória invariável, cientifica sobre sua preferência, gosto e vocação. Neste seu rol rolam dizeres a espera de um personagem; rodopiam nomes ainda por serem batizados; fluem idéias todas por serem arrumadas como o cânhamo, a lã, a fibra diária que a natureza impõe. E há que cardar.
As fibras em corte, em arranjo e em cor, por suas mãos amparam os desejos de outros, outras pessoas. São agora coisas; têm nomes e funções, lugares próprios e recomendados. Têm admiração e preço. E depois de tudo isso terem, não chegam a interpelar por sua vida. Mulher.
Coisas feitas por essa mulher que também viram listas, palavras escritas. Dizem, vira rol de produtos. Listas de preços. Tudo o que fermenta a fantasia de gente que vive no pleno.
Tudo muito longe das mãos que mascaram o sofrimento nato e os velhos esforços.
E já nas vitrines de outros mundos, as coisas manufaturadas estão expostas e compostas, acompanhadas de cardápios, nos quais as combinações estão listadas, ou sugeridas, e os preços cravados ao lado.
Cardápio que sugere uma indigestão consumista, moderna, onde os produtos não precisam ser descritos, não têm história nem origem.
Mas têm, ora vejam!, nomes, marcas, selos, grifes… E diferente dos restaurantes, ante as vitrines, há quem consuma o cardápio ao invés dos pratos que designa. Por isso a sensação de vazio, que chuva nenhuma lava e preenche, que carda alguma desembaraça.

criado por sydowmonica
19:02 — Arquivado em: 

Interessante este post, conseguiu unir desejo, libido e um certo ar de mistério ao longo do texto. Parabéns.
Comentário por ANDRÉ — 26 de fevereiro de 2008 @ 20:06
Uau! Nem precisou do balanço do trem, do roçar ocasional(!) de pernas para explodir, fogo e gasolina!
Lembrei-me de um trecho de antiga música do conjunto Boca Livre,Mistérios: “…preciso aprender os mistérios do fogo, prá te incendiar..:
Até a boca ficou seca!
Comentário por aureo — 27 de fevereiro de 2008 @ 21:43
Caramba! De repente parecia que eu é que estava no trem. Até em imaginação seria bom.
Comentário por O homem do lado — 18 de março de 2008 @ 18:50
Nossa condição humana é tão precaria nas grandes cidades, nossa solidão é tão grotesca, e a unica coisa que nos salva é a nossa imaginação.
Comentário por Miguel — 19 de março de 2008 @ 20:16