| S | T | Q | Q | S | S | D |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 |
| 8 | 9 | 10 | 11 | 12 | 13 | 14 |
| 15 | 16 | 17 | 18 | 19 | 20 | 21 |
| 22 | 23 | 24 | 25 | 26 | 27 | 28 |
| 29 | 30 |
Prof. Dr. Alfredo Monte
Em 1908, enquanto O caráter e o erotismo anal atraía indignação e ridículo ao ser publicado, a chamada “Sociedade Psicológica das Quarta-feiras”, círculo que se reunia em Viena em torno do autor do ousado ensaio, Sigmund Freud (1856-1939), tornou-se a “Sociedade Psicanalítica de Viena”; e em abril do mesmo ano ocorrerá o Primeiro Congresso Internacional de Psicanálise, já com 42 participantes, diante dos quais um nada ridicularizado e nada coberto de ridículo “Pai” do movimento psicanalítico apresentará suas Observações sobre um caso de Neurose Obsessiva, relatando o famoso caso do Homem dos Ratos.
Muita gente pensa ser difícil ler Freud sem o devido instrumental. Não é. Como Harold Bloom já demonstrou, trata-se de um grande escritor, além do maior gênio do último século. Mesmo assim, há uma “oscura selva” formada pelos vários períodos em que os conceitos freudianos foram sendo apresentados e revistos, e mesmo a leitura de obras como A interpretação dos sonhos; Psicopatologia da vida quotidiana; O chiste e sua relação com o inconsciente; Totem e Tabu; Luto e Melancolia ou O ego e o id, que considero essenciais, representa um investimento intelectual parcial e fragmentário. O que me ajudou muito foram alguns livros que serviram para compensar em parte minhas lacunas, como Freud, uma vida para o nosso tempo, de Peter Gay; As idéias de Freud, de Richard Wolheim; Freud, além da alma, de Jean-Paul Sartre (que forneceu a matéria prima para o extraordinário filme de John Huston, com Montgomery Clift); A negação da morte, de Ernest Becker; Freud: a trama dos conceitos & Freud, pensador da cultura, de Renato Mezan. Só que são todos aventuras de leitura, isto é, livros totalizantes e tantalizantes que demandam muita concentração e agregam muitas outras leituras consigo.
Para o leitor comum, desejoso de uma introdução mais simples e prática, porém não completamente esquemática, há uma opção simpática que saiu recentemente: Dossiê Freud, de Elizabeth Mednicoff 1 , onde podemos encontrar os acertos e erros dos trabalhos de divulgação.
O livro é dividido em quatro partes. A primeira é mais biográfica, contextualizando Freud em sua época e cidade, e sintetizando os percalços da sua carreira e da constituição do movimento psicanalítico. Há coisas banais e rasas como uma seção de triviais “frases famosas” (pobre Freud, cuja escrita era tão elegante e complexa!) e uma incômoda falta de polimento, como se o texto fosse escrito aos trambolhões e não houvesse um esforço maior de revisão, de forma a evitar repetições da mesma informação (pior ainda, com a mesma formulação) e escorregadas para o tom de revista Marie Claire, do tipo: “Mostrava-se muitas vezes um homem inseguro, inibido, possessivo e ciumento. Apesar de suas idéias revolucionárias na época, era conservador com relação às mulheres, fazendo comentários que enalteciam os serviços das mulheres dentro de casa e não fora dela”. Após ter escrito tal trecho, sem a menor transição lemos em seguida: “Freud, acima de tudo, foi corajoso, determinado e desbravador.” Ora, ora, ora, ela acabara de fazer uma observação que abre uma fissura contraditória na personalidade (fascinante, aliás) de Freud e depois faz tal panegírico tosco, e desconexo completamente com as afirmações imediatamente anteriores!
A segunda já é mais redentora (embora com a mesma falta de cuidado com a escrita que horrorizaria o autor de O futuro de uma ilusão), com uma exposição clara dos principais conceitos elaborados por Freud, desde a sua concepção neurológica, arrojada para a sua época, do cérebro, com neurônios e descargas de energia, que se associou ao estudo inicial do fenômeno da histeria e dos estados psicopatológicos, até o aprofundamento de uma divisão da vida simbólica do indivíduo, desde a mais remota infância, um processo caracterizado pela repressão e pelas chamadas fases (oral, anal, fálica e genital), que constroem o universalmente conhecido “Complexo de Édipo”, e polarizado pela pressão exercida sobre o ego pelo id e pelo superego:
“O id é o sistema original, a matriz, de onde o ego e o superego vão se desenvolver posteriormente. É formado pelos aspectos psicológicos herdados e presentes no nascimento, incluindo os instintos... está voltado a satisfazer nossas necessidades básicas. Sua atividade consiste em impulsos que buscam o prazer, procurando adquirir a gratificação e não suportando a frustração. É aquele nosso lado instintivo que não mede as conseqüências dos atos para se satisfazer. Os conteúdos do id são quase todos inconscientes e incluem aspectos que nunca se tornaram conscientes e outros que foram considerados inaceitáveis pelo consciente (...) Entretanto, à medida que a criança vai crescendo, aprende que precisa se adaptar às exigências e condições impostas pelo meio em que vive, pois nem tudo que deseja consegue. O id não deixa de existir, ele nos acompanha e permanece em nossa vida adulta. Mas para que ocorra essa adaptação [ao princípio da Realidade, subjugando o princípio do Prazer], uma nova parte do aparelho psíquico se desenvolve a partir do id: o ego, cuja principal função é agir como intermediário entre o id e o mundo externo. É o ego que aprende a controlar e regular os impulsos do id... A criança continua a se desenvolvendo e descobre que existem normas, regras, padrões, de moralidade tanto dos pais quanto da sociedade. Então começa a ouvir as proibições, o que é feio, o que é vergonhoso, e assim acaba incorporando essas crenças à estrutura psíquica, formando, a partir do ego, o superego, o qual, então, passa a exercer um papel, vamos dizer assim [sic] de censura imediata... O superego, portanto, é o oposto do id. Enquanto o id vive satisfazendo as necessidades imediatas, o superego funciona reprimindo. Nenhum deles é realista e imaginem a confusão, já que duas partes da nossa personalidade são completamente opostas e, assim, geradora de conflitos. Com o passar do tempo, tais conflitos emocionais, problemas mal resolvidos e as disputas entre o id e o superego na infância vão gerando as neuroses que temos quando adultos.”
A terceira parte descreve os métodos desenvolvidos por Freud a partir do abandono da hipnose (para curar os sintomas histéricos, na pré-história da Psicanálise), já que suas teorias também envolvem a prática clínica.
O achado mais feliz é colocar na quarta parte alguns casos clínicos famosos, que ajudaram Freud na constituição e revisão dos seus maiores insights (Anna O., a qual foi paciente de Josef Breuer, um dos mentores de Freud, e que teve a duvidosa honra de ter sido escolhido por Irvin D. Yalon como protagonista de Quando Nietzsche chorou; O homem dos ratos; o pequeno Hans; Elizabeth Von R.; Dora; o homem dos lobos). Depois, há uma bobagem típica da nossa era de iluminações-miojo e auto-ajuda fast food: conselhos para uma auto-análise psicanalítica. Tudo bem que foi assim que Freud revolucionou a si mesmo, escrevendo o seu belíssimo Interpretação dos sonhos, porém da maneira como a receitinha é proposta só vai fazer Nietzsche chorar mais ainda.

Dizem — a cidade tem rugas!
Quanto mais o tempo passa e a história se faz, as suas rugas se estendem, multiplicam e permanecem. Permanecem sulcando as vidas noturnas.
Refiro-me, é claro, às ruas, essas vias públicas que ora são o espaço dos ocupados ora entretenimento dos infelizes. Podem enrugar de alegria aqueles que têm disposição para tanto ou ocultar a mediocridade transeunte.
As ruas ou rugas urbanas cercam a todos; quem nelas vive deve ter o espírito vagabundo e a rejeição como verdadeira sarjeta.
Delas qualquer um pode me ver à noite; ou melhor, pode testemunhar uma vida insone. Para a maioria, a noite é recolhimento; para outros, uma chance, uma oportunidade. Sobram aqueles, como eu, que tecem a vida desperta. Essa minha vida insone, há tempos, passou a ser voluntária, esperada ao fim da luz natural.
Gosto tanto do que a insônia me oferece que dispenso tratamentos, pílulas e mandingas. Empoleirada, desfruto da vadiagem ao observar com rigor, quase profissionalismo, os ajuntamentos noturnos. Dedicada, também atravesso histórias noturnas que me entretêm, provocam, desfilam à minha frente e pedem algum sentido. Assim adio o dia, a claridade que nos mostra e denuncia.
Estacada na janela deste sobrado, com a discrição profissional que citei, acompanho as histórias privadas em moldura pública. Eis um recorte.
Começarei pelos mais assíduos, verdadeiros flâneurs: moradores de rua, mendigos ou os desatados dos vínculos — dizem — sociais. Aqui nas ruas eles se reúnem e perambulam cheios de sabedoria noturna, têm espírito risonho e estão convencidos da inutilidade de ser possuidores. Não importa do quê. Por isso, notam o que os outros não podem vislumbrar nem com um par de Varilux.
São também desconfiados, porque exaustos de experiência. Por outro lado, vivem sem promessas, sem expectativas, sem as nossas frouxas crenças. Livres do ideal que nos desconsola, brindam a valer com seus tragos sem o mérito da sede ou da comemoração. Em verdade, circulam pela província da dor com abundante rejeição. E posso identificá-los, por vezes, como desempregados públicos ou réus da justiça que democraticamente tarda. Noites seguidas, ao se juntarem na via social, formam o vozerio dos excluídos, e nas conversas ficam teimosamente inventando lembranças.
Mas em dias atuais, existem outros também assíduos, porém com alguma cobertura social. Refiro-me aos encontros dos jovens que não aprenderam ainda a encontrar.
Animadíssimos. Falam, gargalham e se confrontam sem se preocuparem com rugas e marcas. Afinal, na juventude, a dor, a pressa e a morte são coisas para uso alheio.
Vejo-os como liberados à cretinice e são capazes de desfrutar da amnésia social, porque nas ruas ora suas margeiam a aventura até a renúncia à estafante liberdade. Há noites em que invejo essa capacidade de ficarem à beira da vida a sério. Giram e giram, descoordenados, nos calcanhares de suas fraquezas, livres como bestas, lindas e inefáveis bestas.
Volto agora à outra rua que me tem mais próxima, com suas árvores bem vestidas, ofertando sombras aos encontros humanos, quase diários, de zeladores, guardas noturnos, faxineiros em turno, com as empregadas desterradas, ancoradas em lares patronais, que com seus olhares de zeladoria também reivindicam atenção noturna.
As moças, meninas ainda, cruzam à minha frente com seus corpos provedores de afeto. Os parceiros, nostálgicos, sentem uma saudade sem objeto e confortam-se, acomodam-se, nos cheiros, regaços e beiços da vez. Tudo na pressa da noite, sem danos colaterais imediatos.
Elas, quando se achegam à rua, à grade ou ao portão a ser conquistado, são chacinadas com os olhos. Comprometem-se com palavras fáceis e amanhecem desfalcadas dos amores prometidos.
Amar, amam todos. Todas as noites. Nas esquinas, cantos, garagens apertadas, pilastras ou bancos cheios de memórias. Apressam o dia para abraçar a próxima noite, mesmo que não encontrem esperança. O importante é que a noite venha, fique, esparrame seu esperma estelar, rasgue a solidão, cerre seus olhos e ofereça a si mesma como possibilidade.
Assim é — os amantes, quaisquer amantes, moram na possibilidade.
É então a rua e tudo que nela se encontra (inclusive eu) espaço onde cada um é ninguém no meio de todos, com sua humildade fria e desleixada. Um invólucro vulgar do mundano. Seja o que for, é perspectiva desta observadora.
Há, no entanto, uma história que me agrilhoa noite após noite, quase como se fosse minha: são amantes metódicos e entregues à poesia que talvez desconheçam. Um casal infalível nos seus encontros. Como se fosse cronometrado, chegam juntos e dão a impressão de que entre eles não pode haver esperas: não se cumprimentam, se pegam com determinação; não se falam, se beijam com desejo público.
Não nego que a cada encontro fico em suspenso naquele desejo audível, porque poderia ser meu. Em suspenso e com medo de espantar aquela visão. Viver um amor de rua é conviver com a aridez da publicidade; no entanto, todas as noites, aquele encontro marcado e amor cumprido hidratam minha esperança.
Pois bem, ao fim de algumas horas, testemunho a ressaca de bocas e beijos; os amantes trocam afagos finais como rosas murchas, depois de viajarem sem mapas por sulcos e fendas afetivas.
À respiração atrevida da primeira pegada, agregam as fomes que compartilham, exibem suores e ficam impregnados de realidade. É um amor sem solavancos, com a leveza do transitório. Tesão e medo amoitados nos cantos e sombras do que é público.
Enfim, com as cores do dia, as ruas e suas vidas mudam de interesse, velocidade e volume. Já as rugas desta vida privada se acentuam, se comprimem, ficam finalmente públicas até o céu sangrar novamente e a noite ficar à espreita.
Prof. Dr. Alfredo Monte
Abordando geralmente gente provinciana, com interesses limitados e pequenas intrigas, é impressionante como Jane Austen desperta interesse e, segundo os livreiros, mantém invejável vendagem para quem morreu há quase duzentos anos (em 1817). O recente fenômeno de Persuasão, até então um dos seus livros menos conhecidos, mostrou isso. Nem Dickens, que há poucas décadas era o gênio inglês e universal do século XIX, é agora páreo para a autora de Emma. É a popularidade unida à genialidade
Orgulho e Preconceito reaparece agora em edição bilíngüe e bem cuidada, embora com uma capa apelativa (chamando a atenção para a recente e fraquinha adaptação cinematográfica). O trunfo dessa obra-prima de 1813 é sua heroína Elizabeth Bennet. Ela pertence a uma família com muitas filhas (cinco), todas sem dote, e cuja propriedade, com a morte do preguiçoso pai, passará para um distante e insuportável parente masculino, Mr. Collins (o qual, a certa altura da trama, resolve pedir a mão de Elizabeth, como se fosse um grande favor que fizesse a ela, e na mente de todos era mesmo): “A senhora deve levar em conta que, apesar dos seus múltiplos atrativos, nada garante que outra proposta de casamento lhe seja feita algum dia”.
Assim como o Machado de Assis de A mão e a luva (um romance que poderia ter sido assinado por Austen), é implacável a precisão e lucidez com que ela caracteriza uma sociedade em que cada um é prisioneiro da sua condição social e sexual, em que o mais rasteiro cálculo materialista dita as regras, e que talvez seja (ao contrário do que se pensa) menos hipócrita do que a nossa, regida da mesma forma, porém colocando em prática outros discursos.
Quem tem perfeita consciência disso é Charlotte, a melhor amiga da Elizabeth que acaba casada com o tal Mr. Collins: “o casamento era ainda a forma mais agradável de se preservar da necessidade”.
O charme do enredo vem, com certeza, da transformação dos sentimentos mútuos entre Elizabeth e o a princípio antipático Mr. Darcy. Os diálogos entre ambos são páreos para o Shakespeare das melhores comédias dramáticas como O mercador de Veneza e Como gostais, que têm heroínas carismáticas também, Pórcia e Rosalind.
Quase rouba a cena o irônico e indolente pai dela, Mr. Bennet, que só faz a filha sofrer porque é um péssimo marido, cáustico e desdenhoso. Entretanto, só o amor de filha perdoaria uma mãe tão chata, que merece uma tirada como a seguinte, resposta à sua queixa da pouca compaixão do esposo pelos seus pobres nervos: “Está enganada, minha cara. Tenho um alto respeito pelos seus nervos. São meus velhos amigos. Ouço-a mencioná-los com consideração há pelo menos vinte anos”.

Quando será que relançarão Mansfield Park, a única grande obra de Austen que há anos está desaparecida das livrarias? Aí o leitor verá um espaço narrativo mais reduzido e concentrado ainda (uma propriedade), e o lado mais angustiado e denso do universo austeniano, sem o anteparo da espirituosidade. Que, no entanto, é sempre bem-vinda.
“Você não possui mais no mundo
o grande espaço que ocupava antigamente.
Você não mete mais medo em ninguém.
O inferno aparece agora apenas no último ato.
Você não assombra mais o espírito dos homens.”
Paul Valéry (Meu Fausto)
Passei esta minha existência incerta entre o natural e o estudado, sendo comentado e até mesmo temido. Tive e tenho muitos apelidos e biografias; mas a verdade deste presente tempo é que sou um pobre diabo. Assim, com letra minúscula.
Não que me deixem de lado. Não. Fiz um bom trabalho; cresci em importância. E hoje estou presente nas variações desse mundinho humano: nas crenças, artes, literatura, política... Despertei até um certo ciúme em outras mais Altas apelações.
E de tanto conviver com tanta humanidade, acho que peguei seu jeito.
Nos meus começos, meus diabólicos começos, tecia a desgraça, a mentira; me metia no meio das boas intenções para mostrar que havia o outro lado. E como me diverti com essas pequenas perversões...
Comigo boca não tinha voz, mas o timbre da culpa ou da indecência. Enroscava e me apertava nas grandes e nobres intenções com meu pensamento miúdo, como miúdas são as entranhas. Outras vezes, ficava metido na bruma da embriaguez do ego, e desconsertava o reto.
Jogava areia nas ondas das grandes ações humanas, para que chegassem sempre morrendo na praia.
Visitei, tantas vezes, o peito carregado da nobreza, porque é nele que todo sonho cabe. E, claro, desacreditei a humanidade de seus sonhos.
Tanto fiz e competente fui!
Mas isto é já lá passado. Passado humano, porque não me prendo nestes tempos medidos. Este meu passado de que padeço é, sim, o próprio fracasso.
Desumanizei o mal...
Fiquei tão íntimo da indiferença humana, que não faço mais a menor diferença.
Antes, esses homens viviam sem mim, este pobre diabo. Depois, séculos de glória tive e em rivalidade com o Emérito. Agora, vejo e experimento a decadência. A inutilidade.
Sabem o que dizem?; que “tenho muito o que aprender...”. Transformei-me numa biografia sem existência, sem vida.
Fui à lona no pugilato dos valores humanos.
Tem mais, desconfio que humanizei. Até flato de anjo me sensibiliza...
Então, antes que o nada se iguale a mim, deixo registrado em testamento que desembarco do mal, pois que já sou considerado de primeira geração. Ultrapassado.
E este pobre diabo que vos escreve, deixa à humanidade o futuro. Quanto a este, só Deus sabe!
“No final das contas, pode ser que
não sirva mais para nada.
Eu fui construído sobre uma idéia errada,
segundo a qual as pessoas não são
malvadas o suficiente para se perderem
sozinhas, com seus próprios meios.”
Paul Valéry (Meu Fausto)
Cruzou por mim, Veio Ter Comigo, Numa Rua da Baixa
Veio ter comigo, numa
Rua da Baixa
Aquele homem mal vestido, pedinte por
profissão que se lhe vê na cara,
Que simpatiza comigo e eu simpatizo
com ele;
E reciprocamente, num gesto largo,
Transbordante, dei-lhe tudo que tinha.
Sinto uma simpatia por essa gente toda,
Sobretudo quando não merece simpatia.
Sim, eu sou também vadio e pedinte,
E sou-o também por minha culpa.
Ser vadio e pedinte não é ser vadio e pedinte:
É estar ao lado da escala social,
É não ser adaptável às normas da vida,
Às normas reais ou sentimentais da vida -
Não ser juiz do Supremo, empregado certo,
prostituta,
Não ser pobre a valer, operário explorado,
Não ser doente de uma doença incurável,
Não ser sedento de justiça, ou capitão da
cavalaria,
Não ser, enfim, aquelas pessoas sociais dos novelistas
Que se fartam de letras porque não têm razão
para chorar lágrimas,
E se revoltam contra a vida social porque
têm razão para isso supor.
Não: tudo menos ter razão!
Tudo menos importar-me com a humanidade!
Tudo menos ceder ao humanitarismo!
De que serve uma sensação se há uma
razão exterior para ela?
Sim, ser vadio e pedinte, como eu sou,
Não é ser vadio e pedinte, o que é corrente:
É ser isolado na alma, e isso é que é ser vadio,
É ter de pedir aos dias que passem, e nos deixem,
e isso é que é ser pedinte.
Sou vadio e pedinte a valer, isto é,
no sentido translato,
E estou me rebolando numa grande
caridade por mim (...)”
Álvaro de Campos
Pode me chamar de preguiçoso, descançado, vadio... Tudo me qualifica melhor do que o desdém natural que sinto por mim. E também não me importo se, acompanhado desses juízos prévios, dispara teu sorriso predatório em minha direção. Este não é diferente dos olhares que gelam minhas impressões cotidianas.
Sou fraco, reconheço, porque qualquer forma de prisão enfraquece o espírito mais radical. Principalmente, essa prisão sem grades, sem sentença, sem apelo ou revogação. A indiferença.
Amigo, afirmo: não é nada fácil carregar o silêncio, tampouco perceber-me um vadio num mundo no qual não faço a menor diferença no horizonte humano.
A vida faz troça de minhas parcas esperanças e quer me convencer de que os desertos são para os fortes. Por tudo isso, tenho certa nostalgia de um destino diferente, mais irrigado de atenções.
Há poucos meses o cenário era bem diferente; se concorda, coloco-me à caminho da recordação. Tinha uma rotina enxuta, um ofício dedicado à repetição, uma rotina tão cuidadosa quanto confortável, restrita às venturas e refratária às inovações vindas do alheio. Digamos que me incorporei à pátina do previsível.
Sentia-me ancorado numa utilidade decente e, sem perceber, descartável. Tinha um agônico interesse por tudo que se passava na minha periferia e, não nego, resistia a encarar os afetos como possibilidades.
Era uma existência fácil, uma escolha sem opções, que se resumia em muitas horas congeladas no ofício de digitar e outras poucas dissolvidas na espera do sono. Eis a rotina que me coube, defendida como se fosse o melhor dos mundos. Quanto mais me concentrava nessa rotina mais me perdia nela; quanto mais enredado no desinteresse, mais desterrado de minha própria vida social. Apenas uma coisa permitia reconhecer os limites daquela existência tão restrita: os contornos da tela, qualquer tela. O importante era ver, trabalhar, jogar – não interessa!! - a partir de fronteiras que poderiam ser acendidas ou apagadas por minha indiferença.
Nessas fronteiras julgava-me príncipe; e também estas cresceram como muros de prisão.
Nos ambientes que frequentava, poucos, passei a ser notado quando a luz artificial do mundo acendia à minha frente. Mas esta luz não chegava a iluminar a noite que persistia. Os diálogos e conversas – também poucos – que aquela rotina exigia eram mediados pela linguagem que a tela autorizava. E assim vivia no fio da mediocridade.
Desta feita, a vida me parecia infalível, até que se mostrou certeira em negar-se a acender meu dia. Sonegou-me ser o que sempre fui. E, diante da constatação de que tudo, afinal, é falível, busquei a luz natural e sua realidade disforme. Percebi claramente o elo que nos unia: novamente, a indiferença.
A minha opacidade existencial foi, ano após ano, fazendo tranças com a indiferença à minha volta, a mesma que parecia ser tão bem-vinda. E esta passou a ser os meus limites. Quando a tela não mais acendeu, os outros viram-me como um inútil decente, o descartável da vez. E foram tão persuasivos, que me convenci ser um príncipe da marginalidade. Também um pedinte.
Por isso sou vago e vadio, descansado de tanto negar-me. Indiferente para com a sua opinião a meu respeito.
Porque você também não faz a menor diferença.