TUDOPROSA

Crônicas, ensaios, contos, crítica literária, música… Tudo com um dedo de prosa. Porque “a vida inventa! A gente principia as coisas no não saber por quê… a vida é mutirão de todos, por todos remexida e temperada”. (Guimarães Rosa)

26/3/09

EU, MEU PSICANALISTA E A DOR

 

Tenho o olhar em frangalhos, a alma trôpega e pressa para desatar esta angústia atada no vazio.

São seis horas da tarde. Eu lhe falei que era urgente, que viria imediatamente. Eis-me aqui e ninguém para atender. Onde está o profissionalismo? Estes consultores da alma fazem coisas assim porque não há para quem reclamar, não há pesquisas de opinião a preencher, ou uma sigla como SAC a nos iludir.

Marcam a consulta, atestam nossa necessidade, nos aninham na ansiedade e… se atrasam. E… não chegam. E…

De outra, para tentar se ver livre de minha agitação incontida, a assistente, de um temerário desequilíbrio, retira-me de seu foco e me acomoda na sala dele, tão vazia como eu, e transmigra sabe-se lá para onde.

Acomodar-se é um luxo; quanto mais acomodar-se na vida. Esta vida que nem mesmo escolhi apesar de me acusarem de livre-arbítrio. Mas como ter um psicanalista é meu luxo necessário, acomodo-me então na sua poltrona.

Quem sabe daqui, neste contorno e perspectiva profissionais, não descubro o que ele sabe sobre mim, qual arquivo sensível acumulou de minhas horas de transbordamento.

O poeta de múltiplos nomes disse que agir é repousar ; e mais, que quando nos pomos a vaguear andamos certo e seguros. Pois então aqui ficarei, neste repouso com direito a divagações, esperando o próximo assalto. Indefeso, porém acomodado.

Por que assalto? Porque sou um homem do mundo, ativo e empreendedor; bem preparado para as coisas várias do mundo, para promover mudanças. Isto— para promover mudanças ! Tenho o poder, não do mando e do desmando, mas o poder da mudança.

Na minha órbita tudo se movimenta, porque sei e posso mover espíritos, desejos e agendas de vida. É verdade que tanto movimento causa fricção… Mas é isto a vida ; gosto de viver neste liquidificador existencial. Tem gente que tem psicanalista e drogas para movimentar-se na própria vida, para experimentar a euforia do movimento. Pois tenho ambos para despressurizar, para me alinhar. Segundo o ausente da hora, causo fricção demais e bebo do atrito.

Isto é o que diz ; se concordo, é outra coisa. Se aceito esta aporrinhação da espera, nesta sala inerte e sorumbática, é por causa dos assaltos que sofro, ora vejam!, assaltos do tédio.

Isso mesmo. Não, não me pergunte por quê. Pois venho aqui me humilhar três vezes por semana justamente para aprender a me safar desse desacelerador humano.

Como posso defini-lo? Vejamos, afinal, hoje estou em posição de discorrer e analisar esse tédio inconveniente, já que mudei de lugar e perspectiva.

Vejo-o como uma descontração oportunista; sim, porque se aproveita das oscilações do movimento e da adorável atividade contínua, para impor um vazio, uma ausência de mim no mundo. É assim: fico muito presente em mim mesmo, não sei o que fazer comigo.

O movimento me distrai; já o tédio coloca-me no foco, no centro da razão de viver. E sou assaltado, isto mesmo — sou assaltado pela minha vida.

Se o ausente estivesse presente nesta consulta solitária, diria ele que sou assaltado pela minha vida real e a chama, o pobre homem, de vida interior. Pode haver algo mais vago, mais tedioso… Como posso ter vida interior se não domino seu movimento? Qual movimento?

Daqui, desta perspectiva de consolador de almas, tampouco entendo o tédio. Mas tenho uma certeza : este ocupa mais espaço quanto mais avanço na idade. Mais moços, BEM mais moços, movemo-nos em águas marítimas a todo instante para manter-nos à tona, para descobrir os segredos e encantos dos horizontes. E com a idade, estes horizontes nos pedem a contemplação; e o movimento, a deliciosa atividade, tem de submeter-se… submeter-se ao…, acho que ao… submeter-se ao ser.

Gosto da vida ativa; e aquele poeta indeciso ainda disse que agir é repousar. Disse mais, que o visionário é o verdadeiro homem ativo.

Escapa à minha compreensão. O ausente insiste que não conheço a experiência, que não sei vivê-la, ela escorre de meus dias pelas fendas da atividade.

E ainda pago para ouvir isto. Na minha idade, dizer que não vivo experiências…; que não sei percebê-las ou concretizá-las.

Confesso que por vezes sinto náuseas. O tédio me causa grande náusea. É como se ele chamasse minha atenção pela reação e sofrimento físicos.

É como… como…, seria…

- Mas… claro !, como nunca pensei nisso antes? Ele quer chamar minha atenção e quer que eu aceite o desafio. Quer chocar os ovos de minhas experiências. Claro!, o tédio me quer para me devolver ao extraordinário.

Céus, como tenho sido ordinário… Como tenho sido sempre o mesmo em atividade.

Que dor !!

criado por sydowmonica    16:30 — Arquivado em: Sem categoria

27/2/09

OS ESPELHOS DO PARAÍSO

 

 

Eduardo Galeano

Tradução: Carlos Alberto Idoeta



A publicidade fala do automóvel como uma bênção ao alcance de todos. Um direito universal, uma conquista democrática? Se fosse verdade, e todos os seres humanos pudessem se tornar felizes proprietários deste meio de transporte convertido em talismã, o planeta sofreria morte súbita por falta de ar. E antes deixaria de funcionar por falta de energia. Nos resta petróleo para duas gerações. Em pouco tempo já queimamos grande parte do petróleo que se formou ao longo de milhões de anos. O mundo produz carros ao ritmo das batidas do coração, e eles estão devorando mais da metade de todo o petróleo que o mundo produz.

Evidentemente, a publicidade mente. Os numerinhos dizem que o automóvel não é um direito universal, mas um privilégio de poucos. Apenas vinte por cento da humanidade dispõe de oitenta por cento dos carros, mesmo que cem por cento da humanidade tenha que sofrer as conseqüências. Como tantos outros símbolos da sociedade de consumo, este é um instrumento que está nas mãos do norte e das minorias que no sul reproduzem os costumes do norte e crêem, e fazem crer, que quem não tem licença para dirigir não tem licença para existir.

 

Oitenta e cinco por cento da população da capital do México viaja em quinze por cento do total de veículos. Um em cada dez habitantes de Bogotá é dono de nove em cada dez automóveis. Mesmo que a maioria dos latino-americanos não tenha direito de comprar um carro, todos têm o dever de pagá-lo. De cada mil haitianos, apenas cinco estão motorizados, mas o Haiti dedica um terço de suas importações a veículos, peças de reposição e gasolina. Um terço também dedica El Salvador. Segundo Ricardo Navarro, especialista nestes temas, o dinheiro que a Colômbia gasta a cada ano para subsidiar a gasolina seria suficiente para presentear a população com dois milhões e meio de bicicletas.

O direito de matar. Um só país, a Alemanha, tem mais automóveis que a soma de todos os países da América Latina e África. Contudo, no sul do mundo morrem três em cada quatro mortos nos acidentes de trânsito de todo o planeta. E dos três que morrem, dois são pedestres.

Pelo menos nisso não mente a publicidade, que costuma comparar o carro a uma arma: acelerar é como atirar, proporciona o mesmo prazer e o mesmo poder. A caçada dos caminhantes é freqüente em algumas das grandes cidades latino-americanas, onde a couraça de quatro rodas estimula a prepotência dos que mandam e dos que agem como se mandassem. E nestes últimos tempos, tempos de crescente insegurança, à matança impune de sempre se soma o pânico ante assaltos e sequestros. Há cada vez mais gente disposta a matar quem aparecer na sua frente. As minorias privilegiadas, condenadas ao medo perpétuo, pisam fundo no acelerador para esmagar a realidade ou para fugir dela, e a realidade é uma coisa muito perigosa que ocorre do outro lado das janelas fechadas do automóvel.

O direito de invadir. Pelas ruas latino-americanas circula uma ínfima parte dos automóveis do mundo, mas algumas das cidades mais contaminadas do mundo estão na América Latina.

A imitação servil dos modelos de vida dos grandes centros dominantes produz catástrofes. As cópias multiplicam até o delírio os defeitos do original. As estruturas da injustiça hereditária e as contradições sociais ferozes geraram cidades que crescem fora de todo controle possível, gigantescos frankensteins da civilização: a importação da religião do automóvel e a identificação da democracia com a sociedade de consumo têm, nesses reinos do salve-se quem puder, efeitos mais devastadores do que qualquer bombardeio.

Nunca tantos sofreram por tão poucos. O transporte público desastroso e a ausência de ciclovias torna obrigatório o uso de automóveis, mas a imensa maioria, que não pode comprá-lo, vive encurralada pelo trânsito e afogada pela fumaça. As calçadas diminuem, há cada vez mais estacionamentos e cada vez menos bairros, cada vez mais carros que se cruzam e cada vez menos gente que se encontra. Os ônibus não são apenas escassos: para piorar, em muitas cidades o transporte público se dá em calhambeques desengonçados que soltam uma fumaceira mortal pelos canos de escapamento e multiplicam a contaminação, em vez de aliviá-la.

O direito de contaminar. Os automóveis particulares estão obrigados, nas principais cidades do norte do mundo, a utilizar combustíveis menos venenosos e tecnologias menos porcas, mas no sul a impunidade do dinheiro é mais assassina que a impunidade das ditaduras militares. Em raros casos, a lei obriga o uso de gasolina sem chumbo e de conversores catalíticos, que requerem controles rígidos e são de vida limitada: quando a lei obriga, se acata mas não se cumpre, como manda a tradição que vem dos tempos coloniais.

Algumas das maiores cidades latino-americanas vivem pendentes da chuva e do vento, que não limpam o ar do veneno mas ao menos o levam a outro lugar. A Cidade do México vive em estado de perpétua emergência ambiental, provocada em grande medida pelos automóveis, e os conselhos do governo à população ante a devastação da praga motorizada parecem aulas práticas para se enfrentar uma invasão de marcianos: evitar os exercícios, fechar hermeticamente as casas, não sair, não se mexer. Os bebês nascem com chumbo no sangue, e um terço dos cidadãos padece de dores de cabeça crônicas.

Ou você deixa de fumar, ou morre em um ano, foi a advertência do médico a um amigo meu, habitante da Cidade do México, que não fumou um só cigarro em toda sua vida.
A cidade de São Paulo respira aos domingos e se asfixia nos dias de semana. Ano após ano vai se envenenando o ar de Buenos Aires, no mesmo ritmo em que cresce a frota automobilística, que no ano passado aumentou em meio milhão de veículos. Santiago do Chile está separada do céu por um guarda-chuva de fumaça, que nos últimos anos duplicou sua densidade, enquanto também duplicava, por acaso, a quantidade de automóveis.

 

criado por sydowmonica    15:32 — Arquivado em: Crônicas — Tags:, ,

19/2/09

A MÚSICA QUE COAGULA NO OLHAR - LEO GANDELMAN

                   Baladas com ares de Chet Baker.

Foi a primeira impressão e satisfação ao ver e escutar o DVD Sabe Você, do saxofonista Leo Gandelman. E ‘baladas’ é o destaque que o próprio músico dá ao repertório.

Na última década, a música instrumental ganhou uma força considerável no cenário brasileiro, em múltiplos naipes. Claro que sempre esteve presente no horizonte da música popular, a começar pelo choro. O violão e o piano foram os instrumentos que se destacaram na segunda metade do século passado, com músicos como Paulinho Nogueira, Baden, Wagner Tiso, Eumir Deodato e outros mais.

Leo Gandelman, junto com Mauro Senise, Raul de Souza, Paulo Moura etc, são alguns que também despontaram e criaram interpretações (e composições) capitosas e únicas. Acompanharam compositores e intérpretes, e fizeram carreiras visitadas por outras culturas. Foram os ditos peregrinos da boa música instrumental brasileira, como muitos dos convidados deste DVD, Sabe Você.

Não é um show, tampouco um documentário. É um filme; sim, porque, aliado à gravação do DVD, em estúdio, há sequências de imagens, tomadas muito bem feitas (que lembram o diretor Fernando Faro) e registros que fazem trança com as músicas e interpretações. Estas ficam a cargo de nada menos que Nei Matogrosso, Chico Buarque, Joel Nascimento (a elegância própria da simplicidade), Leni Andrade, Leila Pinheiro, Luiz Melodia, Milton Nascimento, Caetano Veloso e uma participação relâmpago de Lirinha.

Mas, insistimos, o melhor do muito bom que é todo DVD, está no repertório e no próprio Leo Gandelman, que foca nos sons e imagens melódicas que deslizam pela sensibilidade.

É possível resgatar na moldura da memória The art of the ballad, com as gravações feitas nos anos 50 e 60 por Chet Baker, tão delicadas e que embalaram pecados agradáveis.

Ao fim do filme, dos Extras e das fotos que estão no DVD, fica uma serena alegria, aquela expressa por Clarice Lispector como um amor impessoal.

sydowmonica@terra.com.br

Mais sobre o músico: http://www.leogandelman.com.br

 

criado por sydowmonica    15:39 — Arquivado em: MÚSICA — Tags:,

18/2/09

O COELHO CONTINUARÁ - JOHN UPDIKE

Prof. Alfredo Monte
 
 
Nas últimas décadas, John Updike e Philip Roth foram os dois grandes rivais ao título de maior escritor norte-americano vivo, em carreiras paralelas, ambos prolíficos e brilhantes. Guardadas as devidas proporções, um pouco como Tolstói e Dostoiévski na Rússia do século XIX. Agora, com a morte de Updike, com certeza o judeu Roth deve estar se sentindo mais sozinho no mundo, sem a sua “sombra”, seu Outro protestante.

    Updike publicou em diversas áreas, entretanto não há dúvidas de que se destacou como um mestre do romance. Quando eu o li pela primeira vez (O Golpe), achei-o tão ruim que me chocou a afirmação de alguém (já não lembro quem) de que era um escritor tão bom quanto Flaubert. Por isso, demorei um pouco para reconhecer que a afirmação não estava tão longe assim da verdade, mas aí tive a sorte de me ocupar com uma série de belíssimos romances (Coelho corre, Roger´s Version, O sabá das feiticeiras).
    Sua grande realização foi a tetralogia a respeito de Harry Angstrom (da qual boa parte da crítica não gosta), na qual faz um retrato definitivo da 2ª. metade do século nos EUA: Coelho corre (1960), Coelho em crise (1971), o sensacional Coelho cresce (1981) e Coelho cai (1990). Há um epílogo em forma mais breve, numa coletânea de histórias, Coelho se cala (2000), que eu não li ainda. Não quero ficar órfão do Coelho tão cedo…
       Nessa linha, há os admiráveis Casais trocados (este, de 1968, apresenta certa irregularidade, que é preciso relativizar para o leitor brasileiro, já que foi mal e porcamente traduzido e editado) e Na beleza dos lírios (1996), este talvez seu romance mais bonito (talvez seja o meu favorito), ao acompanhar uma família durante um século, da perda de fé de um pastor até a estranha conexão entre fundamentalismo e armas que sustenta uma parcela do triunfalismo da ideologia norte-americana. Essa perda da transcendência e o vácuo espiritual em que nos movimentamos também geraram romances como Um mês só de domingos (1971), Roger´s Version (1987; Pai Nosso Computador, aqui no Brasil!!!??), S. (1988) e o recentíssimo Terrorista (2006). Não se pode esquecer também do seu “quase romance”, seu momento “quase Roth”, Bech no beco, cuja última versão é de 1998, e que eu também não terminei, não querendo ficar órfão de Bech tão cedo… 

    De vez em quando, Updike fazia experimentações: escreveu o incompreensível O centauro (1963), criou um país africano em O golpe (1978), fez uma atualização da história de Tristão e Isolda ambientada no nosso país (Brazil, 1994), recriou as vidas de personagens de Hamlet, em Gertrudes e Cláudio (2000). Honestamente, algo desandou nesses textos (porém, o livro mais chato que li dele foi mesmo Memórias em branco- Memories of the Ford administration, de 1992), apesar do capricho da prosa; o bom era ver que ele não sossegava, sempre procurava novas estratégias, como se tentasse fugir do mundo sufocante do seu Coelho que corria, entrava em crise, crescia, caía e depois se calava. Em 1984, essa fuga do realismo e ao mesmo tempo as obsessões updikianas se uniram num livro maravilhoso e original, O sabá das feiticeiras, do qual extraíram o filme As bruxas de Eastwick, só que estamos num território totalmente diferente daquele em que Jack Nicholson pode exibir seu histrionismo repetitivo em meio a efeitos especiais um tanto gratuitos. Humor, densidade, a vida nas cidadezinhas americanas, o vazio espiritual, experimentação ficcional, tudo transforma esse sabá num superior exercício de literatura.
    E agora, Philip Roth? Dostoiévski fica sem Tolstói (invertendo o que aconteceu com a dupla russa). Bech num beco sem saída?
 
criado por sydowmonica    17:40 — Arquivado em: Literatura — Tags:, , ,

O COELHO CONTINUARÁ - JOHN UPDIKE

Prof. Alfredo Monte
 
 
Nas últimas décadas, John Updike e Philip Roth foram os dois grandes rivais ao título de maior escritor norte-americano vivo, em carreiras paralelas, ambos prolíficos e brilhantes. Guardadas as devidas proporções, um pouco como Tolstói e Dostoiévski na Rússia do século XIX. Agora, com a morte de Updike, com certeza o judeu Roth deve estar se sentindo mais sozinho no mundo, sem a sua “sombra”, seu Outro protestante.

    Updike publicou em diversas áreas, entretanto não há dúvidas de que se destacou como um mestre do romance. Quando eu o li pela primeira vez (O Golpe), achei-o tão ruim que me chocou a afirmação de alguém (já não lembro quem) de que era um escritor tão bom quanto Flaubert. Por isso, demorei um pouco para reconhecer que a afirmação não estava tão longe assim da verdade, mas aí tive a sorte de me ocupar com uma série de belíssimos romances (Coelho corre, Roger´s Version, O sabá das feiticeiras).
    Sua grande realização foi a tetralogia a respeito de Harry Angstrom (da qual boa parte da crítica não gosta), na qual faz um retrato definitivo da 2ª. metade do século nos EUA: Coelho corre (1960), Coelho em crise (1971), o sensacional Coelho cresce (1981) e Coelho cai (1990). Há um epílogo em forma mais breve, numa coletânea de histórias, Coelho se cala (2000), que eu não li ainda. Não quero ficar órfão do Coelho tão cedo…
       Nessa linha, há os admiráveis Casais trocados (este, de 1968, apresenta certa irregularidade, que é preciso relativizar para o leitor brasileiro, já que foi mal e porcamente traduzido e editado) e Na beleza dos lírios (1996), este talvez seu romance mais bonito (talvez seja o meu favorito), ao acompanhar uma família durante um século, da perda de fé de um pastor até a estranha conexão entre fundamentalismo e armas que sustenta uma parcela do triunfalismo da ideologia norte-americana. Essa perda da transcendência e o vácuo espiritual em que nos movimentamos também geraram romances como Um mês só de domingos (1971), Roger´s Version (1987; Pai Nosso Computador, aqui no Brasil!!!??), S. (1988) e o recentíssimo Terrorista (2006). Não se pode esquecer também do seu “quase romance”, seu momento “quase Roth”, Bech no beco, cuja última versão é de 1998, e que eu também não terminei, não querendo ficar órfão de Bech tão cedo… 

    De vez em quando, Updike fazia experimentações: escreveu o incompreensível O centauro (1963), criou um país africano em O golpe (1978), fez uma atualização da história de Tristão e Isolda ambientada no nosso país (Brazil, 1994), recriou as vidas de personagens de Hamlet, em Gertrudes e Cláudio (2000). Honestamente, algo desandou nesses textos (porém, o livro mais chato que li dele foi mesmo Memórias em branco- Memories of the Ford administration, de 1992), apesar do capricho da prosa; o bom era ver que ele não sossegava, sempre procurava novas estratégias, como se tentasse fugir do mundo sufocante do seu Coelho que corria, entrava em crise, crescia, caía e depois se calava. Em 1984, essa fuga do realismo e ao mesmo tempo as obsessões updikianas se uniram num livro maravilhoso e original, O sabá das feiticeiras, do qual extraíram o filme As bruxas de Eastwick, só que estamos num território totalmente diferente daquele em que Jack Nicholson pode exibir seu histrionismo repetitivo em meio a efeitos especiais um tanto gratuitos. Humor, densidade, a vida nas cidadezinhas americanas, o vazio espiritual, experimentação ficcional, tudo transforma esse sabá num superior exercício de literatura.
    E agora, Philip Roth? Dostoiévski fica sem Tolstói (invertendo o que aconteceu com a dupla russa). Bech num beco sem saída?
 
criado por sydowmonica    17:34 — Arquivado em: Literatura — Tags:, , ,

12/2/09

O ILUSIONISTA

P/ Fiódor Pávlovitch
Plagiando o poeta Carlos Drummond, no amor, reconheço que sou o próprio sistema de erros procurando um acerto. Com a merecida e devida dose de ilusão, é claro, pois por trás de formas fogosas, pernas que te fazem marear, olhares capazes de dissolver a medula das pedras e lábios de Jolie, há sempre outro sistema de erros momentaneamente crente que sou o protagonista do Evangelho em sua perfeição.
Esse filme, ou qualquer romance, foi visto e revisto em vários idiomas e tempos, e seus finais adoçam ou arranham nossa memória.
Pois que, então, declaro solenemente que este cinquentão derrapou na curva. Mais uma vez, Drummond. E que curvas!!
Não leitor, não ceda à fácil tentação de associar minha derrapada às curvas de uma mulher jovem em folha, fresca e ainda otimista para com a dependência masculina. Não. Desta vez, a ilusão foi sua.
As curvas dela são menos angulosas e a superfície… digamos…, é a superfície de quem tem uma biografia. Como sou a própria preponderância polissaturada, em nada posso criticar as formas dessa mulher. E quanto às outras, com baixa quilometragem de vida, só me cabe ou nos cabe mirar com a ilusão, que permite supor que faríamos loucuras com tal beldade nos braços.
Len-ta-men-te, vivo um abatimento delicioso, antes e junto daquele cerco amoroso que só as maduras forjam com sutilezas. E com a mesma velocidade, esta mulher faz uma entrada olímpica na minha vida tardia e tão amadora.

E eis o que ela encontra: um amante envergonhado de amar ; um mal arranjado sobrevivente da dor, embriagado, ora vejam!, de sentimentos já lidos, vistos, surpreendidos, mas… quando vividos? Bem arranjado estou, embriagado de ternuras.
Sabe do que me dou conta neste estágio? Que com as moçoilas (digamos as mulheres que nós, “vividos”, conquistamos na flor da idade – DELAS), tenho todo um vocabulário pronto, literatura de orelha e de orelhas, retórica apurada e argumentos testados em outras frentes, para operar sobre ouvidos, olhos e corpos devotos porque inexperientes. Convenhamos, e me penitencio aqui, o resultado me é sempre favorável no final do jogo.

No entanto, aqui, ou melhor, agora, esta senhora me convida a renunciar ao jogo e, como adulto, inventar a vida.
Tenho medo. Desenha ilusões para seu público cativo quem afirma não ter medo. E cria, por isso, uma estética do fracasso.
Amar como conversão existencial. Serei capaz ? Tenho medo. Talvez porque justamente tenha tanta experiência, habilidade, história e a finitude à espreita.

Olho essa mulher, sinto esta conversão, e me apequeno. Porque, quiçá, somos todos pequenos frente a frente com a vida. E mais do que uma abstração, a vida passou a ter endereço, celular, peso e altura, faz hemogramas trimestrais e alongamentos pela manhã, tem mais o que fazer do que me esperar… e acredita que eu possa entrar em ressonância com seu corpo e alma.

Insisto, tenho medo. Mas reconheço que diante do que me acontece, diante desta paixão mais que amorosa, muitas paixões anteriores — de que tanto me orgulhei e discorri à minha ilusão — muitas foram próteses afetivas.
Arre, dei um pulo dentro de mim mesmo, não ? Volto à tona não só para concluir, mas também para respirar : cansei de tanta coisa ter de ser… Até de ser da oposição, já cansei. Cansei de amar com solavancos.

Borrado de medo, tendo a reunir sim as pontas da vivência a dois. Mordido pela dúvida, quero tocar nessa pele e também paradoxo da existência. Aceito pagar o preço da existência.
O erro a fazer tranças com o medo — eis o preço. Esta realidade que me abraça com perfume de mulher, este sistema de erros, quer nos parir.

E eu me ponho a berrar como um louco.

criado por sydowmonica    15:43 — Arquivado em: Crônicas — Tags:, , ,

ETERNO VERÃO

Final das férias, fim das previsões, fim do Carnaval. Começa o ano. Finalmente!
Esse prolongamento do ano, sempre festivo, do Natal — incluídas as confraternizações de fim-de-ano, os festejos religiosos e mundanos, a exposição ao sol e às noites a que o período de férias calorento convida — até o anárquico Carnaval datado, está quase institucionalizado no inconsciente e na ciente rotina de todos nós.

Ora ora, e por que não? Da parte de Espargildo, não havia problema em assim encarar o calendário, tampouco em navegar nesse modo cultural de viver. As religiões têm seus calendários, a receita federal idem, escolas… Todos têm seus respectivos anos. Por que, então, a gente brasileira não pode desfrutar do seu sem culpas? E assim iniciou-se, em fevereiro, o primeiro dia do ano deste devoto da vida.
O corpo é mesmo o Senhor das possibilidades. Ao acordar, a consciência e suas projeções vão à frente, despertas, aprumadas para o início da semana e este doce cárcere, o corpo, reivindica um despertar mais macio, tardio. Pois há que se dar oportunidade de adaptação ao organismo, programá-lo para o novo tempo.
No entanto, a cabeça impera. Assim, o protagonista da vez arrasta seus grilhões à beira da cama, ainda com vagar, porque a certa idade os movimentos passam a ser solenes, sentidos, por vezes emperrados. Enfim, Espargildo mesmo sentado foi articulando as juntas e a agenda num último momento de ociosidade.
Então, deu-se o surpreendente. Ao levantar, ato contínuo, quis andar até o banheiro como de praxe. Digo quis andar porque ele tentou, mas caiu sentado novamente na cama. E digo novamente porque tentou várias vezes e não conseguiu. Cair sentado na cama era sempre a resposta teimosa do corpo. Qual !?
Aquilo, para além de esquisito, era inédito e foi deixando atordoado o ativo Espargildo. A solidez de seus dias, seu autocontrole, tantos vícios de bem viver, de repente, tudo reduzido a sentar-se na cama. Não podia ser…
Como bom empresário, empreendeu algumas tentativas mais atentas e foi entendendo, estupefato, que era possível levantar, girar com cuidado para os lados e, socorro!, andar para trás. Nunca para frente. Aquele corpo verdugo subjugava sua vontade, sua auto-estima, sua agenda. E não se conteve…
— Porra! Tô fodido.
Sem escolha e desconfiado, foi tateando pelo quarto meio escuro ora como pião, ora em marcha a ré. Levou consigo algumas quinas e viveu o equilíbrio às avessas. Acertou como pôde o corpo algoz na mira da porta do banheiro e entrou na forma fast forward. Barrado pela pia, acertou a direção do vaso. Não seria o primeiro grande desafio, mas foi humilhante.
Maldizia a construção do apartamento, que aperta em poucos metros quadrados os equipamentos da primeira hora; tentou se encaixar aqui e ali para poder virar e aliviar-se, mas parecia uma conspiração dos utilitários contra a vida útil. Sempre havia um baldinho, um cestinho, um porta-toalhas de chão, tapetes…Coisas demais e paredes de menos para apoiar-se. E premido pela natureza, sem mais tempo para sentar-se, batizou o box .
Arrasado, tratou de rapidamente calcular os espaços, distâncias, obstáculos, para superar o metro à frente até o chuveiro. Com cuidado, concluiu a trajetória andando de costas sem acidentes; apenas algumas topadas. E descobriu a fragilidade do calcanhar.
Em seguida, entre voltas no mesmo eixo — seu corpo — concluiu um banho malfeito e iniciou a peregrinação de volta. Agora, molhado. Como a memória prática ainda era do tempo de andar para frente, foi ao chuveiro sem levar a toalha. Resignado, calculou o risco e, passo trás passo, chegou ao alcance da pia. Deu um giro — estava cada vez melhor nos giros em si mesmo — e viu-se no espelho.
Nada de diferente; no entanto, nada era igual. Enquanto, estacado no mesmo lugar, tentava dar fim àquela assepsia ordinária pensava no que, afinal, acontecia com ele. Sentia um misto de pânico e incompreensão da realidade. Entendeu o que era a ignorância. Entendeu também que a nova empreitada era vestir-se. Para tanto, teria que encarar armários, gavetas, portas etc.
Desta vez, aprendeu a lidar com a limitação imposta e com as possibilidades à volta. Nu, seco, limpo e determinado, empunhou o espelho da esposa, engatou a inexistente marcha a ré e voltou ao quarto pisando em ovos. Balizando-se com o auxílio de um espelho desfocado, porque era de maquiagem, chegou aos armários. Ao imaginar o que viria pela frente, ou por trás, ao se vestir e em tudo que teria de fazer durante o dia, jogou literalmente a toalha. Contentou-se em vestir a mesma roupa do dia anterior, instalar-se em algum lugar seguro e pedir ajuda.
Foi o que fez. E enquanto esta não chegava em casa, na pessoa de sua esposa, resgatou um pouco de coragem e boa vontade para dar trégua à sua fome. Mais uma vez, com passos de cágado manco e orientado mal e mal pelo espelho de maquiagem (prometeu-se, logo que possível, instalar um GPS em forma de ship no seu débil corpo), foi à cozinha. De giro em giro, viu-se frente a frente com a geladeira e com a possibilidade de comer. Por segundos, temeu que também o sentido da digestão no seu corpo estivesse às avessas. Efeito do pânico.
Depois de comer sentiu-se melhor; repassou o dia anterior e tentou entender o que lhe acontecia. Foi garimpar na memória imagens e histórias familiares que pudessem explicar alguma tendência, mal genético, insanidade tardia, qualquer coisa que parecesse uma resposta. Mas esta não surgia; apenas muita tristeza por nunca mais ver o mundo de frente, por nunca mais se adiantar, não poder encarar pessoas e coisas, mas ser encarado. Ter pouca perspectiva.
Ficou ali inerte, sentado à mesa, prostrado, sem vontade sequer de imaginar. De forma involuntária, consultou o relógio que deveria estar no pulso e fora esquecido no quarto. Constatada a ausência, procurou aquele que pertence a qualquer cozinha que preste e conferiu a hora. Já era tarde. Como nada mais tinha a fazer, resolveu treinar seu novo modus operandi e ir colocar seu relógio; decidiu esperar a esposa, que tratava de atravessar a metrópole para entender aquela loucura toda, distraindo-se com uma leitura. Sim, faria isto.
Encheu-se de uma precária disposição e voltou para o quarto. Desta vez mais parecia o arrastão do pescador, pois que os objetos atrás de si não resistiram aos desequilíbrios e à desorientação de braços e mãos cegos. Aquilo o entristeceu mais.
Finalmente chegou ao quarto, ao ponto de partida — a cama, ainda desfeita, na qual se sentou — e, fácil, estavam o relógio e o livro eleito. Fechou o primeiro no pulso e ali mesmo acomodou-se na leitura. Por causa de alguma passagem lida, lembrou-se que no dia anterior havia terminado o horário de verão e, assim, teria que ajustar os relógios. Lembrou-se também que sua condição atual só lhe permitia atrasar o seu; imediatamente voltou para trás o ponteiro.
Também em seguida, chegou o socorro em forma de desconfiança. Sua esposa entrou em casa chamando-o, um pouco aflita. E eis que o garbo, sem perceber de imediato, foi ao seu encontro, com uma involuntária corrida, abandonando livro, cama e o reverso.
Quando ela entrou no quarto, já encontrou um homem ajustado ao seu corpo, ao seu tempo, ao seu novo ano. Na medida. Tão incrédulo quanto ela e jurando nunca mais contrariar as horas. Porque, como cantam as boas línguas, a falta de medida revela o incapaz.

 

criado por sydowmonica    15:35 — Arquivado em: Crônicas — Tags:,

OS IRMÃOS KARAMÁZOV

Prof. Alfredo Monte

Com o lançamento de Os Irmãos Karamázov chega ao ponto mais alto a série de traduções que Paulo Bezerra está fazendo (diretas do russo) da obra de Dostoiévski, já que se trata do maior romance da literatura mundial, ao lado de Guerra & Paz e Madame Bovary.
É a história de um parricídio: o brutal, grosseiro e bufão Fiódor Pávlovitch (um personagem meio shakesperiano, meio balzaquiano, absolutamente extraordinário) é assassinado e a culpa recai sobre o filho mais velho, o sensual e desbragado Dmitri, mas os outros filhos também poderiam ter cometido o crime: o místico e suave Aliócha (que seria o suposto “herói” da narrativa), o hiperintelectualizado e niilista Ivan e o bastardo Smierdiákov (uma mistura de Iago com Caliban).
Além de ser um painel perturbador das contradições sociais e espirituais da Rússia imperial, um alucinante clima simbólico perpassa Os Irmãos Karamázov, com Dostoiévski mostrando extremos da condição humana. Dois personagens reúnem-se aos Karamázov para que o livro consiga esse efeito: Grúchenka, pomo da discórdia entre Fiódor e Dmitri, e o stárietz Zossima, um santo homem. Através do triângulo formado pelo assassinado, Dmitri e Grúchenka descortina-se o papel das pulsões sexuais na nossa existência, mesmo que as racionalizemos (como fez a cultura ocidental por séculos). O stárietz, por sua vez, representa o dilema da espiritualidade, o salto da fé, e nem ele, humano, demasiado humano, é poupado: quando morre, seu corpo começa a feder de maneira intolerável e blasfema. Zóssima é o contraponto de Fiódor Pávlovitch para que Aliócha possa se tornar o princípio positivo do romance. Aliás, a obra-prima suprema de Dostoiévski foi um marco na literatura ao mostrar inequivocavemente que nós somos porque nos confrontamos com a consciência alheia. É o que o grande pensador russo Mikhail Bakhtin (o qual escreveu um estudo fundamental sobre a poética de Dostoiévski) denomina dialogismo, fazendo da vocação mais significativa do romance (enquanto arte narrativa) a polifonia: a estratificação da narrativa em várias vozes que se entrechocam, entredevoram-se (nenhuma delas tendo preponderância hierárquica sobre as outras) e criam um efeito de amplitude como nunca se viu antes na milenar atividade de contar histórias.
Quando se escreve sobre Os Irmãos Karamázov (e ainda mais nestes tempos dominados pelo pensamento e pela figura de Nietzsche, o Dostoiévski da filosofia) nunca se deixa de ter em mente o desnorteante capítulo sobre O Grande Inquisidor, no qual Dostoiévski demole as igrejas enquanto instituições, colocando-as como a grande impostura da Humanidade. A certa altura, afirma-se que o paraíso não vale uma lágrima de criança. E atinge-se aquela revolta que Albert Camus considerava a mais nobre virtude do homem: “Por que entre eles [padres] não poderia aparecer nenhum sofredor, atormentado pela grande tristeza, e que amasse a humanidade? Supõe que entre esses que só desejam bens materiais e sórdidos tenha aparecido ao menos um como meu velho Inquisidor, que comeu ele mesmo raízes no deserto e desatinou tentando vencer a própria carne para se tornar livre e perfeito, mas, não obstante, depois de passar a vida inteira amando a humanidade, de repente lhe deu o estalo e percebeu que é bem reles o deleite moral de atingir a perfeição da vontade para certificar-se ao mesmo tempo de que para os milhões de outras criaturas de Deus sobrou apenas o escárnio, de que estas nunca terão condições de dar conta de sua liberdade, de que miseres rebeldes nunca virarão gigantes para construir a torre, de que não foi para esses espertalhões que o grande idealista sonhou a sua harmonia”.

criado por sydowmonica    15:30 — Arquivado em: Literatura

CANÇÃO DO ALBATROZ - GORKI

 

Sobre a superfície cinzenta do mar, o vento reúne pesadas nuvens.
Semelhante a um raio negro, entre as nuvens e o mar, paira orgulhoso o albatroz, mensageiro da tempestade.
Ora são as asas tocando as ondas, ora é uma flecha rasgando as nuvens, ele grita.
E as nuvens escutam a alegria no ousado grito do pássaro.
Nesse grito - sede de tempestade!
Nesse grito - as nuvens escutam a fúria, a chama da paixão, a confiança da Vitória.
As gaivotas gemem diante da tempestade, gemem e lançam-se ao mar para lá no fundo esconderem o pavor da tempestade.
E os mergulhões também gemem. A eles, mergulhões, é inacessível a delícia da luta pela vida: o barulho do trovão os amedronta…
O tolo pingüim, timidamente esconde seu corpo obeso entre as rochas…
Apenas o orgulhoso albatroz voa, ousado e livre sobre a espuma cinzenta do mar.
Tonitroa o trovão.
As ondas gemem na espuma da fúria e discutem com o vento.
Eis que o vento abraça uma porção de ondas com força e as lança com uma maldade selvagem nas rochas, espalhando-as como poeira, respingando como uma noite de esmeraldas.
O albatroz paira a gritar como um raio negro, rompendo as nuvens como uma flecha, levantando espuma com suas asas.
Ei-lo voando rápido como um demônio, um orgulhoso e negro demônio da tempestade.
Ri das nuvens, soluça de alegria!
Ele - sensível demônio - há muito vem escutando cansaço na fúria do trovão.
Tem certeza de que as nuvens não escondem, não, não escondem…
Uiva o vento… Ribomba o trovão…
Sobre o abismo do mar, nuvens pesadas brilham como centelhas. O mar pega as flechas de relâmpagos e as apaga em sua voragem. Parecem cobras de fogo!
Os reflexos desses raios rastejam sobre o mar e vão desaparecendo.
- Tempestade!
Breve rebentará a tempestade!
Esse corajoso albatroz paira altivo entre os raios e, então, sobre o mar que furiosamente urra, ele grita a profecia da Vitória: VENHA! QUE MAIS FORTE ARREBENTE A TEMPESTADE!

criado por sydowmonica    15:24 — Arquivado em: POESIA — Tags:, ,

6/10/08

COLUNA SOCIAL

 


As chamadas “notas” são para se fazer notar. Mas há ainda, os avisos, comentários, fotos enfileiradas, tudo para dispor a vida social em seus retalhos. Seletivos, claro.

As notas plantam os acontecimentos na conformidade que se quer ou espera, mas que não se tem ao fechar o jornal. Os avisos profetizam o que estará conforme no futuro próximo. Quanto aos comentários, contam breves histórias que as imagens autorizam; “…fulano conversa sobre a feira de livros com sicrana...”. A partir deles, é possível criar toda sorte de crônicas e contos, porque tudo é possível e nada é toda a verdade.

Chegamos às fotos. Muitas. Coloridas e diversas.
Tão naturais… Diante delas, não se deve buscar coerência com nossas vidas; são descontínuas, porém em harmonia com o bem-viver.
Então, vejamos.

Nesta primeira foto, empunhando copos e sorrisos, estão dois jovens. Mas não são os jovens da vida ordinária que freqüento; são jovens com traços e vestes dignos de resenha. Ali, cheios de contentamento em flúor, parecem desocupados da vida ocupada. Não são apenas dignos da embriaguez social, são merecedores de atenção viscosa, porque são personalidades de destaque. Atores de cinema, diz a legendinha.

Em duas linhas a coluna informa os nomes, onde estavam, quais filmes gravam e porquê se divertiam tanto.

Esta outra foto, menor, enquadra uma mulher que — ora vejam, que surpresa! — é linda, elegante e feliz. Outras pessoas ao fundo são apenas fundo. Novamente, nome, local, data e o registro de seu interesse em ficar entre colunáveis.
Abaixo, duas fotos reveladoras. Na primeira, dois homens ilustres brindam ao champagne; e na foto ao lado, duas esposas de políticos folheiam um livro de boas maneiras sociais. Etiqueta. Qual social?

Em ambas as fotos, percebo que sofrem de viver. E fico com a sensação de que padeço de vida.
Num esforço para escapar das garras do tédio, fixo-me neste enquadramento da vida noturna que não desfruto, e bem sei.

Faltam duas fotos. Grandes. Também alegres em sustentar copos e flashs, dois casais se espremem entre os limites da vida social impressa e se projetam, felizes de dar dó, às minhas vistas. Muitos nomes, local e… não deu o espaço.

E na última foto — fácil de adivinhar — há um jovem e moderno casal, sem copos, com largos sorrisos, despreocupados, sustentando no braço paterno o filho. Transbordam de orgulho social. Esta criança me chama atenção, porque está cheia de enfado e isto não combina com a infância.

Graúdos e miúdos mantém diariamente os desejos alimentados de soslaio, à noite, sob lua fria e irônica como testemunha.

Nada viola o equilíbrio daquela vida em jornal, e eu me vejo como um alvo fácil para o esquecimento. Vai ver quando eu tiver legenda descarno o social.

criado por sydowmonica    17:48 — Arquivado em: Crônicas
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Am I a spambot? yes definately
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